opinião
EUROPA, CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS …
Por João Pedro Soares
Barreiro
Aproveitando a entrada em cena de um suposto plano de paz, para a guerra na Ucrânia, desenhado pela Administração Trump, sem esquecer o encontro do Presidente dos Estados Unidos da América com Viktor Órban, primeiro ministro da Hungria, na Casa Branca, no passado dia 7 de Novembro, é hora de todos percebermos qual o patamar e o nível actual da reacção europeia à avalancha anti-democrática que grassa pelo velho continente e em todo o mundo.
Nestes últimos dias de Novembro de 2025, assisto de forma muito atenta e preocupada à forma como o bloco europeu, com o Reino Unido incluído, poderá ou não ter aprendido lições que o passado nos deu e que os decisores teimam, muitas vezes, em fazer “letra morta” de tais ensinamentos.
A cimeira de há umas semanas, entre Trump e Órban, teve como ojectivo projectar parte do que aí vinha … um documento que é muito mais do que uma proposta de paz, na verdade é uma autêntica declaração de Guerra ao funcionamento democrático da Europa e uma clara tentativa de abrir uma brecha ainda maior, não só na já muito frágil unidade dos 27, que compõe o leque da União Europeia, bem como na sua relação com um Reino Unido, que não poderá continuar a jogar entre a tradicional ligação com os Americanos e a necessidade de jogar um tabuleiro europeu cada vez mais difícil, diverso e complicado. Desta forma, o facto de Trump e Órban terem acordado uma possível continuidade nas relações comerciais entre a Hungria e a Rússia, mais concretamente, na compra de petróleo e gás natural, por parte do primeiro ao segundo, independentemente das novas sanções impostas a Vladimir Putin pelos países ocidentais, não teve outro objectivo, senão colocar à prova a União Europeia e o seu actual grau de parceria, envolvimento e até de cumplicidade, nas questões de política externa e defesa, que como devemos relembrar foi matéria estatuída no longínquo Tratado de Maastricht de 1992, mas nunca devidamente aprofundada, uma vez que os Estados sempre tiveram uma clara noção e consciência acerca dos constrangimentos que estas questões causariam e que, hoje, em 2025, infelizmente, ainda causam …
A democracia, a liberdade e a determinação dos povos ainda poderem escolher os seus desígnios, o seu futuro, continua a causar mossa a muitos daqueles que, hoje, querem soluções completamente diferentes, no sentido de poderem implementar, sem quaisquer rodeios, soluções económicas, políticas e laborais que vão ao encontro da aceleração digital a que o globo se vai desenvolvendo. Crescimentos rápidos da extrema direita, na maioria dos Estados Europeus, soluções “magnânimas e belas” ao nível da Inteligência Artificial e alterações grotescas às legislações laborais, são tudo farinha do mesmo saco a que devemos estar atentos, reactivos e sobretudo predispostos a uma defesa integral dos valores libertários da Europa do pós 1945.
Concretamente, no que diz respeito à guerra da Ucrânia, o plano de paz que o Sr. Trump gizou, poder-se-ia chamar perfeitamente “Plano Putin”, uma vez que vai totalmente ao encontro dos objectivos traçados pelo agressor para pôr fim a uma denominada “Operação Especial”, que já leva cerca de quatro anos. Desta forma, a maioria dos territórios a sul passariam todos para a Rússia, com caminho aberto para a Moldávia … que, por sinal, não é um Estado NATO/OTAN; A Ucrânia passaria a ter umas forças armadas reduzidas, com uma capacidade de defesa diminuta e nunca poderia integrar-se na UE ou na NATO/OTAN. Isto é, resumindo, a Ucrânia deixaria de ser um Estado soberano e estaria pronto para se satelizar não só à Rússia, mas a todo o movimento Fascista do século XXI.
Nos últimos dias, Zelensky disse qualquer coisa como isto, “estamos em risco de perder a dignidade ou de perder um parceiro importante” …
Perda de parceiro, eis a questão …
Que parceiro? Aquele, que se entende com os autocratas e que por isso mesmo também não foge à mesma regra? Aquele, que quer uma União Europeia, cada vez mais estraçalhada e ao seus pés? Aquele, cujo princípio fundamental é apenas negócio e dinheiro, seja em que circunstância for, mesmo que tenha que colocar a NATO/OTAN e a segurança mundial em causa?
Não, caros leitores, um Estado dotado de uma política com tais características, jamais poderá ser considerado como parceiro!
Isto vai muito para além da clássica “Real Politik” … é a mais pura vigarice de um vendedor imobiliário, sem qualquer tipo de escrúpulos, que coloca os seus interesses políticos pessoais (e do grupelho que defende) à frente do Estado que representa!
Hoje, os Estados Unidos da América, com esta Administração, não é mais do que um dos elementos mais explosivos deste sistema internacional, em mutação constante, em que um dos maiores objectivos é a eliminação das barreiras que se opõem à sistemática e crescente acumulação de capitais por muitos poucos. E quando falo em poucos, quer dizer que o leque vai diminuído, à medida que este capitalismo global, cada vez mais selvático, de foro autocrático, sem qualquer timbre de humanidade, vai sendo dinamizado.
Tenho em crer, que perante actores tão perniciosos, as democracias europeias e a União Europeia, foram eleitas, nesta altura, um dos maiores travões a esta transformação que temos vindo a assistir e que a não podemos ficar indiferentes. E porquê?
Porque, ainda hoje, mesmo com erros atrás de erros ao longo das últimas décadas de vida da União, até com um BREXIT, a União Europeia e o bloco Europeu, não deixam de reunir em si própria alguns princípios democráticos, de solidariedade e coesão social, de direitos humanos que afrontam os movimentos de índole fascizante, que pretendem corromper tais valores no sentido da busca incessante, numa loucura completa, de acumulação desmedida de capital pelos tais tão poucos, que não têm o protagonismo dos políticos, mas que neles colocam toda a sua “inabalável fé” …
Sr. Zelensky e caros decisores da União Europeia e Reino Unido, estamos perante um momento histórico único, em que as decisões que forem tomadas terão, com toda a certeza, implicações para o desenvolvimento da Paz Mundial nas próximas décadas e para todo século XXI. Nestas linhas, relembrando e invocando a famigerada Conferência de Berlim de 1938, lanço, do outro extremo da Europa, de Portugal, um Grito de Alerta para que não desistam dos POVOS, sejam corajosos, defendam a DEMOCRACIA com “unhas e dentes” e lembrem-se que nada ficará de pé se derem ouvidos ao medo, de perderem um parceiro que já não o é, mas que um dia, terá de voltar a ser!
João Pedro Soares, Professor.
*Este texto foi escrito na antiga ortografia.
26.11.2025 - 22:36
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