opinião
Viver não pode ser um luxo -Trabalhar de sol a sol não pode ser sinónimo de viver às escuras.
Por Cláudio Anaia
Barreiro
As pessoas andam cansadas. Não de trabalhar, mas de trabalhar muito e receber pouco. Num país onde muitos ganham 800, 900 ou 1.100 euros, viver tornou-se um exercício de resistência. Fazem-se contas todos os meses, adiam-se despesas e corta-se no essencial.
O esforço é visível: nas pessoas, que saem de madrugada em transportes lotados; os jovens qualificados que recebem salários perto do mínimo; nos idosos que trabalharam a vida inteira e recebem pensões que envergonham um país que se diz desenvolvido.
Leio nos jornais falarem no crescimento económico, mas a vida das pessoas não cresce com ele. Esta é a realidade diária que vejo em conversa com familiares e amigos.
A habitação tornou-se um problema transversal. Jovens não conseguem sair de casa; famílias não conseguem permanecer nas terras onde nasceram. A casa, que deveria ser sinónimo de segurança, tornou-se fonte de angústia, entre rendas elevadas e créditos incomportáveis.
O discurso político é distante da vida real. Fala-se de metas e indicadores, mas raramente se fala das pessoas que chegam ao fim do mês “com vinte euros no bolso” . Quando o poder perde contacto com a rua, a governação torna-se abstrata e a vida concreta fica para trás.
A meritocracia, tantas vezes elogiada, nem sempre funciona. Amigos qualificados e empenhados ficam presos em estágios intermináveis, enquanto outros sobem por cunha, redes ou filiação partidária. Um país que não recompensa o esforço honesto perde talento e esperança.
A natalidade tornou-se um desafio quase impossível. Ter filhos deixou de ser um ato natural e passou a depender de cálculo económico. Num país que envelhece e perde população, a maternidade e a paternidade não deveriam ser atos de coragem financeira.
Falta sensibilidade social de quem governa. Falta ouvir quem acorda cedo, teme perder a casa, espera meses por uma consulta ou paga impostos sem conseguir respirar. Governar não é apenas gerir números: é uma responsabilidade humana.
Viver com dignidade e qualidade não pode ser um luxo reservado a alguns.
Cláudio Anaia
Militante da Justiça e Direitos Humanos
10.12.2025 - 15:33
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