opinião
E a bolha em que vive o PS, qual é?
Por André Carmo
Barreiro
Foi há dias publicado um artigo de opinião neste jornal intitulado “A bolha em que vive a direita”. No essencial, tratava-se de um apelo à mobilização e à participação na greve geral do passado dia 11 de dezembro por parte de todos os trabalhadores. Até aqui tudo bem.
Aquilo que me parece merecedor de reflexão adicional foi o exercício de demarcação de fronteiras políticas que nele se leva a cabo – “Estas frases soltas e gritos de revolta da Direita devem fazer-nos pensar a todos” – que coloca o PS fora da bolha da direita. Mesmo sem termos de sair do Barreiro, julgo que existem fundados motivos, tanto no plano discursivo como no da prática política, para problematizar esta tosca cartografia.
Recorrendo ao método socrático (e refiro-me ao filósofo grego e não ao ex-secretário geral do PS), façamos algumas questões:
Quem vende terrenos de uma escola pública (EB 2/3 da Quinta da Lomba) a um colégio privado (Colégio Minerva), privando os alunos da escola pública da possibilidade de construção de um pavilhão para a sua prática desportiva, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem concessiona o serviço municipal de recolha de lixo a uma empresa privada, sem nunca apresentar qualquer fundamento para o fazer, aderindo à velha falácia de que o sector privado gere melhor que o público, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem altera a designação da Avenida das Nacionalizações, porque esse topónimo seria um obstáculo à atração de investimento privado reprodutivo, seja lá o que isso for, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem insulta a Comissão de Utentes de Serviços Públicos sempre que esta sai à rua para defender o SNS e reclamar contra o encerramento de serviços no Hospital do Barreiro, ao mesmo tempo que marca presença na inauguração de clínicas da CUF, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem papagueia a ideia de que a solução para o grave problema de acesso à habitação se resolve apenas e só com mais construção, porque assim dita a lei da oferta e da procura, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem procura ridicularizar a importância do protesto e da reivindicação popular no espaço público, reduzido à colagem de cartazes e outdoors, privilegiando os jogos de bastidores, cerimónias e beberetes plenos de pompa e circunstância, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem adopta um discurso de permanente desvalorização do trabalho, substituindo trabalhadores por colaboradores, e escolhe valorizar a narrativa empreendedora, das startups e dos unicórnios, do talento e da meritocracia (se for escrito in english ainda melhor), está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem entrega de mão beijada um terreno público ao lucrativo negócio da saúde, por uma renda anual que compromete qualquer noção mínima de defesa do interesse público, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem nos diz que é importante atrair os mais ricos para o Barreiro, porque é assim que se estimula a economia local, na enésima declinação de uma economia “trickle-down” que pingar até pinga, mas é sempre de baixo para cima, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem rejubila de contentamento sempre que é inaugurado mais um empreendimento imobiliário de luxo inacessível a qualquer barreirense que viva apenas e só do fruto do seu trabalho, contribuindo assim para a alta dos preços da habitação, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem faz sempre questão de distinguir habitação acessível de habitação social, revelando assim um enorme preconceito social para quem se encontra em situação de pobreza e contribuindo para a sua estigmatização, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem tem defendido a necessidade de nos armarmos até aos dentes para combater os russos que qualquer dia nos entram pela praia de Copacabana adentro em chaimites e, para além de estar disponível para fazer dos nossos filhos e netos carne para canhão num conflito que escala todos os dias, aceita que a reboque das exigências da OTAN se passem a gastar 5% do PIB no negócio da guerra e nos diz que isto não terá impactos no nosso Estado Social, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem pretende fazer da Quinta do Braamcamp um complexo imobiliário de luxo, a Veneza de Portugal, depois de ter apoiado o seu resgate para a esfera pública, com vista à sua devolução ao povo do Barreiro, está dentro ou fora da bolha da direita?
Quem repete até à náusea todo e qualquer expressão de anti-comunismo primário, amplificando os seus efeitos corrosivos ao nível da qualidade do debate público, e se coloca sempre ao lado do pensamento único do liberalismo hegemónico, está dentro ou fora da bolha da direita?
A partir da resposta que cada um de nós der a este conjunto de questões, identificar-se-ão as coordenadas que permitem perceber, afinal, em que bolha vive o PS. Pela minha parte, não tenho dúvidas nem ilusões e é dentro da bolha da direita que o podemos sempre, invariavelmente, encontrar, sem prejuízo, naturalmente, de esta poder apresentar muitas formas, tonalidades e texturas.
André Carmo
Deputado municipal eleito pela CDU Barreiro (2021-2025)
16.12.2025 - 11:15
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