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90 anos de escutismo no Barreiro. Será apenas isso?
Por Gonçalo Brito Graça

90 anos de escutismo no Barreiro. Será apenas isso? <br />
Por Gonçalo Brito Graça No próximo fim-de-semana 10 e 11 de janeiro os vários agrupamentos do Corpo Nacional de Escutas no Barreiro celebrarão o 90º aniversário da implementação desta instituição no município. Uma obra social impulsionada pelo padre Abílio Mendes em 1936, e que curiosamente teve as suas raízes no outro lado do Atlântico.

Há quase três anos, mais precisamente a 23 de fevereiro de 2023, o jornal Rostos publicou um artigo sobre os 70 anos do falecimento do Padre Abílio Mendes. Foi apenas uma pequena referência póstuma a alguém tão importante na história contemporânea barreirense. Entre as várias benevolências conhecidas, o padre Abílio Mendes teve o mérito de ter fundado o Corpo Nacional de Escutas no concelho do Barreiro, e esse texto servira precisamente para recordar o feito. Dito assim parece pouca coisa, mas não.

A história do escutismo barreirense é bem mais complexa. Tem mais de 90 anos - caminhando já para os seus 96 -, quando em março de 1930 um grupo de rapazes decidiu integrar uma associação escutista bastante poliédrica nesse tempo, e cuja sede central localizava-se na cidade do Porto: a União dos Adueiros de Portugal. E como necessitavam de patrocínios, cedo procuraram o apoio de Cristina Reynolds, empresária do ramo corticeiro na Braamcamp, e que aceitou ser a madrinha da unidade. Os adueiros do Barreiro mantiveram-se em atividade até 1933, sendo obrigados a dissolver o grupo devido a pressões político-ditatoriais a nível nacional. A data coincide com a chegada do padre Abílio ao Barreiro que, entretanto, regressara do Brasil com ideias novas para uma terra que lhe era desconhecida. E é aqui que tudo começa a ganhar forma.

Foi no Brasil que o padre Abílio contactou o movimento escutista pela primeira vez, fazendo a sua formação pedagógica como chefe, e onde assumiu a direção de vários grupos (um deles marítimo, em Niterói, uma novidade na época!). E essa experiência brasileira valeu-lhe a ousadia de querer ir mais longe no Barreiro. Primeiro começou por fundar duas unidades em 1936, com o apoio de alguns ex-adueiros. Logo depois avançou com a criação de um grupo marítimo, pensando ele ser o primeiro a nível nacional, mas os escuteiros da Póvoa de Varzim já se tinham antecipado nessa modalidade. Resumindo, e só em terras camarras, o padre Abílio criou: o Grupo 130 “Gualdim Pais”; as Alcateias 79 “João de Deus “e 93 “Fernando de Bulhões”; Grupo Marítimo 2 “D. João I”; Grupo 100 “Beato João de Brito” (Lavradio); os Grupos Seniores 18 “D, João IV” e 21 “António Sardinha”; e ainda a Junta de Núcleo do Barreiro (1939-1951).

Todos estes grupos tiveram altos e baixos. Alguns conheceram uma vida efémera, outros duraram alguns anos, não sendo nada de extraordinário dentro de um universo associativo juvenil subjugado pela partitura do Estado Novo. Sabe-se hoje que a fraca saúde do padre Abílio Mendes abrandou o crescimento do movimento em terras barreirenses, e os anos seguintes marcaram-se pelo seu declínio, agravado pelo falecimento do sacerdote em 1953, e que levou a que muitos associados se afastassem definitivamente do movimento. Registam-se várias tentativas de reacendimento, mas só uma teve solidez: a criação do Agrupamento 74 pelo chefe Mário Paiva em 1959. Quanto ao resto, haveria que esperar pela aurora da democracia para ver novas unidades a espoletarem nas várias freguesias do Barreiro. Até aos inícios do século XXI consolidaram-se mais cinco agrupamentos, e todos ligados entre si como herdeiros da obra escutista do padre Abílio.

Esses 90 anos de escutismo católico no Barreiro marcaram (e marcam), assim como moldaram (e moldam) o território que vai de Alburrica à Penalva. Só de relance, relembro os dois Jogos da Primavera aqui realizados: o primeiro na Avenida Bento Gonçalves, em 1991; o segundo no Parque da Cidade, em 2006; e que ambos atraíram uma massa humana gigantesca de toda a Península de Setúbal, levando a que muitos pais e mães incentivassem os seus filhos a integrarem o agrupamento mais próximo. Tenho em mente também as inúmeras ações de limpeza da orla fluvial, as participações em atividades ambientais, as colheitas de sangue, a formação de guias na Escola de Fuzileiros Navais, as visitas de outros agrupamentos nacionais e estrangeiros, ou as mil e uma ações de serviço à comunidade. E é difícil esquecer o projeto do Agrupamento 927 Santo André em 1991-1992, quando o saudoso chefe Pedro Barradas (à época um jovem de 22 anos!) empreendeu algo quase utópico: o Parque Ambiental do Barreiro, e que consistiria na criação de uma área protegida que envolvesse o sapal do Rio Coina e todo o Vale de Zebro, e que permitiu a que hoje se olhe a Mata da Machada com a merecida importância.

São nove décadas de ação social do Corpo Nacional de Escutas no município. Mas sobretudo são nove décadas de um trabalho impagável, levado a bom porto pelos seus responsáveis que se empenham voluntariamente pela construção de um mundo mais justo. Por dedicarem uma boa parte do seu tempo livre nas sedes, nos acampamentos, nos milhares de atividades, e naquelas incalculáveis reuniões em que se procura o difícil equilíbrio entre pedagogia, orçamento e logística, mas que terminam sempre tarde. Sempre! Por carregarem em si o lenço da responsabilidade, um exemplo para as futuras gerações de lobitos, exploradores/moços, pioneiros/marinheiros, caminheiros/companheiros e dirigentes.

E parafraseando o fundador Baden-Powell, efetivamente estamos todos de parabéns, porque ao longo destes noventa anos os escuteiros do C.N.E. conseguiram deixar o concelho do Barreiro um pouco melhor do que o encontraram. Aos que já partiram para o Eterno Acampamento, e a todos e todas que ainda hoje mantêm a chama acesa deste grande jogo, um muito obrigado e uma forte canhota!

Gonçalo Brito Graça

06.01.2026 - 20:53

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