opinião

Confissões de um livro-dependente
Por Cláudio Anaia
Barreiro

Confissões de um livro-dependente<br />
Por Cláudio Anaia<br />
Barreiro «Quem não lê aceita o que lhe é dado; quem lê escolhe o que quer ser.»

Quem me conhece sabe: sou um verdadeiro «livro-dependente». Não passo um dia sem ler. Não passo um dia sem aprender. Cada página que leio faz de mim alguém mais autêntico, mais exigente, mais atento.

Quando vou a feiras do livro ou a alfarrabistas, esqueço o pequeno salário. Esqueço a prudência. Gasto. Compro. Devoro. Porque cada livro vale mais do que qualquer distração passageira. Sempre defendi a redução do IVA para os livros — faz toda a diferença. Quando vou ao Brasil, encontro o mesmo título por metade do preço, e é por isso que volto sempre com malas carregadas de livros.
Sinto frustração quando vejo amigos que não lêem. Dizem que cansa. Que não estão para pensar. E depois entretêm-se com jornais desportivos ou revistas sobre a vida de outros, celebridades que muitas vezes nada fizeram de especial. Num país que adoro, lá vamos vivendo “burrificados” pelo que a televisão, o telemóvel e as redes sociais nos impõem. Vive-se para o politicamente correto, para modas fáceis, sem esforço de pensar. Clara Ferreira Alves escreve no Expresso: “É preciso esforço, aprender, tentar, errar e tentar de novo até chegar ao prazer de ler.” Mas muitos não querem esforço. Que pena!

Escrevo este artigo sentado numa esplanada, observando a cidade à minha volta: pessoas absorvidas pelo imediato, nenhuma a ler. E sinto que é preciso dizer alto: ler é urgente. Ler é resistência. Ler é sobreviver neste mundo de distrações e banalidades crescentes.
Vemos catálogos de “livros para férias”. Resultado? Quase nada. Por isso deixo um conselho direto: compre um livro. Leia-o. Dedique-se. Sublinhe o que mais o tocar. Vai sentir-se mais capaz. Mais atento. Mais vivo.

Em casa, improviso prateleiras para os livros que já li e os que ainda quero ler. E vivo com a frustração deliciosa: nunca conseguirei ler tudo aquilo que desejava. Mas isso não me impede de continuar.
E atenção: os livros não são luxo. São essenciais. Num tempo em que a informação chega a cada segundo e a superficialidade domina, ler dá contexto, rigor e profundidade. Um país que lê pensa. Um país que lê discute. Um país que lê resiste à manipulação fácil. Ler não é só cultura: é cidadania.

Por isso, deixo um apelo claro: ler não é apenas um prazer — é um dever cívico. A leitura torna-nos melhores cidadãos, mais conscientes, mais capazes de refletir, questionar e recusar respostas fáceis. Num país onde alguns responsáveis políticos continuam a desinvestir nas bibliotecas públicas e municipais — espaços que deveriam ser o coração cultural de cada comunidade — torna-se ainda mais urgente defender o livro, a leitura e o conhecimento.
Uma sociedade que lê não se deixa manipular, não se acomoda, não se cala. Uma sociedade que lê eleva-se. E é precisamente isso que precisamos de ser: cidadãos mais atentos, mais lúcidos e mais livres.

Cláudio Anaia
Militante da Justiça e Direitos Humanos

16.01.2026 - 12:25

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