opinião

Há Quem Discuta a Luz
Por Paulo Margalhau
Barreiro

Há Quem Discuta a Luz<br />
Por Paulo Margalhau<br />
Barreiro Nesta eleição presidencial, chegado o momento decisivo, as clivagens políticas dão lugar sobretudo a disputas de posse simbólica em torno de um candidato que, até há pouco, ninguém parecia querer.

Ventos à esquerda apresentam-se agora como a bússola moral da candidatura de António José Seguro, enquanto correntes à direita reagem não com argumento, mas com a lembrança ressentida de que «agora quem manda é a direita», como se o país tivesse regressado, por decreto, a um alinhamento definitivo.

Ambas as atitudes partilham o mesmo vício: a apropriação do espaço democrático como território privado, ignorando que o país real não se organiza por faróis nem por declarações de supremacia, mas pela necessidade elementar de seguir em frente, longe do ruído do campo de batalha.

À superfície reina o ruído; no fundo, é a turbulência que condiciona, enquanto o país permanece. O problema reside sobretudo na tendência de certos traços de personalidade para se arrogarem proprietários de um espaço, de uma ideologia e de verdades absolutas, muitas vezes sem nunca terem saído da sua zona de conforto, da sua própria trincheira.

O país, no seu conjunto, é tão de direita em 2026 ou em 1991 como foi de esquerda em 2019 ou em 2006. Ao contrário do que sugerem políticos e comentadores, essa larga maioria silenciosa que decide não se move por votos nem por audiências: trabalha para ter pão na mesa.

se fosse o Sol, Alexandre O’Neill

Se fosse o sol
não tinha opinião formada.
Nascia.

Iluminava o trabalho cedo,
o café apressado,
a pressa sem teoria
de quem não discute o mundo
porque o carrega às costas.

Se fosse o sol
não alinhava em trincheiras,
não aquecia certezas absolutas,
nem se deixava usar
como metáfora de ocasião.

Passava por todos,
indiferente a rótulos,
igual para quem grita
e para quem cala
porque tem de viver.

E ao pôr-me,
sem comentar o dia,
lembrava apenas isto:
há quem discuta a luz
e há quem precise dela.

Precisamos de um presidente-sol. E de cidadãos-sol também.

2026, Paulo Margalhau

25.01.2026 - 00:09

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