opinião

Não se pode nascer no Distrito de Setúbal
Por Sofia Cabral
Barreiro

Não se pode nascer no Distrito de Setúbal <br />
Por Sofia Cabral<br />
Barreiro O mês de Março chega sempre com uma promessa: a de lembrar que os direitos das mulheres não são um capítulo do passado, mas uma luta viva, diária, que exige vigilância e coragem. É o mês em que celebramos conquistas, mas também o mês em que se tornam mais visíveis as fragilidades das estruturas que deveriam proteger quem dá vida ao futuro.

No distrito de Setúbal, enquanto se assinalará o mês dedicado aos direitos das mulheres, o Governo anuncia o fecho das urgências de obstetrícia no Barreiro, um serviço que, apesar das dificuldades, tem sido porto seguro para tantas grávidas da região. A decisão é justificada pela falta de condições e pela exaustão dos profissionais, que durante meses suportaram um esforço desumano para manter três urgências a funcionar em rotatividade.

As mulheres grávidas são obrigadas a deslocar se para fora do seu território para terem acesso a cuidados essenciais. Para muitas, isto significa mais tempo na estrada, mais ansiedade, mais risco e mais dinheiro.
Para as mulheres que vivem, trabalham e criam famílias nesta região, o impacto é mais profundo do que uma reorganização administrativa. É a sensação de que, mais uma vez, as suas necessidades ficam em segundo plano. Que a distância até ao cuidado e à saúde materna aumenta.
Num mês que deveria reforçar o compromisso com a dignidade e a autonomia das mulheres, somos confrontados com a urgência de lembrar que direitos não são garantias eternas. O direito a cuidados de saúde materna gratuitos e acessíveis, humanos e seguros é um pilar fundamental da igualdade. Não é um luxo. Não é negociável. É um direito.

E por isso, este Março não pode ser apenas comemorativo. Tem de ser reivindicativo. Tem de ser um mês em que as vozes das mulheres, das famílias, dos profissionais de saúde e das comunidades se levantam para exigir políticas que cuidem verdadeiramente de quem cuida da vida.
Porque quando uma maternidade pública fecha, não fecha apenas uma porta. Fecha se um caminho. E os direitos das mulheres nunca deveriam depender da distância até ao hospital mais próximo e do dinheiro que trazem na carteira.

Sofia Cabral

25.02.2026 - 20:22

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