opinião

A propósito do encerramento da urgência de obstetrícia e ginecologia no Hospital do Barreiro.
Por André Carmo
Barreiro

A propósito do encerramento da urgência de obstetrícia e ginecologia no Hospital do Barreiro.<br />
Por André Carmo<br />
Barreiro É célebre o pequeno ensaio de Alberto Pimenta, publicado pela primeira vez em 1977, intitulado Discurso Sobre o Filho-da-Puta. Foi nele que pensei ao assistir à sessão da Assembleia Municipal realizada no passado dia 24 de fevereiro, cuja visualização recomendo.

Os representantes do consenso neoliberal tiveram ali um momento de epifania. Depois de largos anos de silêncio cúmplice no Barreiro, e das forças políticas que representam se terem alternado no governo sem nunca verdadeiramente contribuírem para reforçar o SNS e terem ajudado ao seu desmantelamento, rasgaram as vestes e, imbuídos de um verdadeiro espírito de enorme radicalismo pequeno burguês de fachada socialista (com D e sem), falaram com uma convicção e uma firmeza que não está ao alcance de todos.

Mas está ao alcance dos destinatários do ensaio de Alberto Pimenta, a quem presto uma sentida homenagem e a quem irei, despudoradamente, rapinar luminosas passagens que, julgo, traduzem aquilo que se passou na Assembleia Municipal do dia 24.

Para começar, “o filho-da-puta existe. Em todos os lugares, excepto no dicionário”. A 24 calhou existir no auditório do 31 de Janeiro “Os Celtas”. Em sequência rápida e com alternância entre pequenos filhos-da-puta e grandes filhos-da-puta. À cabeça, “o grande filho-da-puta tem uma grande visão das coisas e mostra em tudo quanto faz e diz que é mesmo o grande filho-da-puta”. Depois, é claro, porque “tudo o que é bom para o grande não pode deixar de ser igualmente bom para os pequenos filhos-da-puta”, outras vozes se ergueram. Com desfaçatez infinita. Onde ontem havia o insulto gratuito e rasteiro, a 24 de fevereiro, houve a lágrima fácil do crocodilo e de outros répteis que se insinuam, rastejantes, pelos corredores, pequenos e grandes, da baixa política.

Calhou ser ali naquele lugar, mas podia ter sido noutro. Porque “o filho-da-puta não quer sair do lugar que ocupa (a não ser para ocupar um lugar relativamente mais-valioso), nem quer que os outros saiam do lugar que ocupam (a não ser para ocupar um lugar relativamente menos-valioso), porque se os outros saem do lugar que ocupam, para ocupar um lugar relativamente mais-valioso, ele, filho-da-puta, perde o lugar relativamente mais-valioso que ocupa, e essa é um das coisas que mais o preocupam, já que é conveniente que nenhum filho-da-puta saia do lugar mais-valioso que ocupa, a fim de todos os filhos-da-puta ocuparem todos os lugares, todos os lugares mais-valiosos que os filhos-da-puta ocupam e que ocupam os filhos-da-puta”. E assim assistimos à dança das cadeiras de arrivistas e dos radicais do extremo-centro que, sem qualquer preconceito ideológico, naturalmente, se vão sucedendo nos lugares. Infelizmente, dizem eles de si para si e uns para os outros, “nem todos os lugares podem ser de top, embora todos sejam de pote (ou tacho)”.

E porque é que só agora surgem estes paladinos do SNS e do Hospital do Barreiro? Porque, é Alberto Pimenta quem o diz, “o filho-da-puta consola-se muito com o infortúnio dos outros, com a crise dos outros, com a doença dos outros” e, para além disso, “o filho-da-puta insere-se sempre no processo em curso, qualquer que ele seja, e esse é mais um traço distintivo do filho-da-puta. O filho-da-puta colabora, e está sempre no vento, sempre na maré, sempre na onda. O filho-da-puta é sempre no mais alto grau possível aquilo que “convém” ser no lugar e no momento em que vive”. Por isso é agora, quando o vento sopra de feição e quando a luta já foi travada por outros quando nada havia a ganhar, que os filhos-da-puta se juntam.

E por isso, no dia 1 de março, estarão todos junto ao Hospital do Barreiro a reclamar a uma só voz: os combatentes de sempre e os filhos-da-puta. Por isso, não posso deixar de gritar bem alto: VIVAM OS FILHOS-DA-PUTA!

André Carmo
Deputado municipal eleito pela CDU Barreiro (2021-2025)

27.02.2026 - 17:40

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