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Emprego que cresce, cidade que empobrece: o paradoxo do Barreiro
Por António Matias Lopes
Barreiro

Emprego que cresce, cidade que empobrece: o paradoxo do Barreiro<br />
Por António Matias Lopes<br />
Barreiro . Quando os números não contam a história e a política insiste em não a querer ouvir
Num momento em que o discurso político local procura afirmar uma narrativa de recuperação económica no Barreiro, os dados recentemente divulgados pelo executivo municipal introduzem uma aparente boa notícia: entre 2022 e 2024, o número de trabalhadores no concelho terá crescido 15,3%, passando de 18.305 para 21.109.

À primeira vista, o número impressiona. Num território historicamente marcado pela desindustrialização, pela perda de centralidade económica e pela dificuldade em reter investimento estruturante, um crescimento desta magnitude deveria ser celebrado como um sinal inequívoco de recuperação.
Mas não é.
E não é, porque os números, quando analisados fora de contexto, podem construir narrativas. Mas quando confrontados com a realidade socioeconómica, desmontam-nas.
A questão central não é se há mais emprego no Barreiro.
A questão é: que emprego é esse?
E sobretudo: porque é que, apesar desse crescimento, os rendimentos diminuem; como o próprio presidente da Câmara reconhece?

O paradoxo estrutural: mais emprego, menos rendimento

A contradição é demasiado evidente para ser ignorada. Por um lado, o vice-presidente do município apresenta um crescimento robusto do emprego, sustentado em dados do INE e numa leitura optimista da evolução do tecido empresarial. Por outro, o próprio presidente da Câmara tem vindo a reconhecer publicamente uma realidade oposta: a de um território onde os rendimentos médios continuam a degradar-se.

E aqui entram os dados, não como ornamento, mas como evidência.

Segundo o INE, a Área Metropolitana de Lisboa continua a concentrar os salários médios mais elevados do país, com remunerações médias mensais que, em vários setores, ultrapassam os 1.400€–1.600€. No entanto, quando se observa a realidade intra-metropolitana, percebe-se que esta média esconde profundas assimetrias territoriais.
Os municípios da margem sul, incluindo o Barreiro, apresentam níveis salariais significativamente inferiores à média da AML, com forte incidência de empregos em setores de serviços pouco qualificados, comércio, logística e atividades de apoio, áreas tradicionalmente associadas a menores níveis de produtividade e remuneração.
Mais ainda: dados recentes do INE sobre ganho médio mensal por trabalhador por conta de outrem mostram que, apesar do aumento do emprego, o crescimento salarial real tem sido limitado e, em muitos casos, absorvido pela inflação. Em termos práticos, isto significa que há mais pessoas a trabalhar, mas não necessariamente a ganhar mais e em alguns casos, a ganhar menos em termos reais.
A contradição deixa, assim, de ser política e passa a ser estrutural.
Estamos perante aquilo que a literatura económica e sociológica identifica como um fenómeno de crescimento extensivo sem qualificação, mais emprego, mas sem aumento proporcional de produtividade ou rendimento.
Ou seja: o Barreiro pode estar a criar empregos, mas não está a criar riqueza.

Produtividade: o indicador silencioso que desmonta a narrativa

Se quisermos ir ainda mais fundo, há um indicador que raramente entra no discurso político local, mas que é absolutamente determinante: a produtividade.
Portugal continua a apresentar níveis de produtividade por trabalhador inferiores à média da União Europeia, cerca de 65% a 70% da média europeia, segundo dados do INE e do Eurostat. Mas dentro do próprio país, existem diferenças territoriais relevantes.
A Área Metropolitana de Lisboa apresenta níveis de produtividade superiores à média nacional, mas essa vantagem está altamente concentrada em polos específicos, Lisboa, Oeiras, algumas zonas de Cascais, onde se localizam atividades de maior intensidade tecnológica, financeira e empresarial.

O Barreiro, pelo contrário, não integra esse núcleo de produtividade elevada.

A sua estrutura económica continua assente em setores de baixa intensidade tecnológica e reduzido valor acrescentado. E isso tem uma consequência direta e inevitável: limita estruturalmente os salários.
Sem produtividade, não há aumento sustentável de rendimentos.
E sem rendimentos, não há regeneração urbana.

O ponto cego do debate: sem planeamento não há economia
Mas há um nível ainda mais profundo nesta análise e que tem estado ausente do debate público.
O Barreiro não enfrenta apenas um problema económico.
Enfrenta um problema de planeamento urbano estrutural.

E aqui entra um dado absolutamente crítico: o Plano Diretor Municipal, o principal instrumento de organização do território, não sofreu uma evolução estrutural relevante há mais de três décadas.
• Isto não é um detalhe técnico. É, provavelmente, a raiz do problema.
• O PDM não é um documento administrativo.
• É o instrumento que define onde se pode investir, o que se pode construir, que atividades se podem instalar e como a cidade se organiza no tempo.
• Sem um PDM dinâmico, atualizado e estrategicamente orientado, não há previsibilidade.
E sem previsibilidade, não há investimento. A economia urbana não floresce no vazio.
• Precisa de enquadramento, de visão, de regras claras e de uma estratégia territorial coerente.

Quando o instrumento base do planeamento está desfasado da realidade tecnológica, económica e social, o território entra em bloqueio silencioso.
E esse bloqueio manifesta-se exatamente onde hoje o vemos:
num crescimento económico frágil, num tecido empresarial pouco estruturado, numa incapacidade de atrair investimento qualificado,
e numa cidade que cresce em números, mas não em valor.

A natureza do crescimento: precariedade, fragmentação e ausência de escala

Quando o próprio comunicado municipal identifica como desafios estruturais a digitalização das microempresas, a escalabilidade das PME e a necessidade de atrair investimento de maior valor acrescentado, está implicitamente a reconhecer aquilo que o discurso político tenta suavizar: o tecido económico local é frágil, atomizado e pouco competitivo.

Os dados do INE confirmam esta leitura.

Mais de 95% do tecido empresarial português é composto por microempresas. No caso dos territórios periféricos da AML, essa percentagem é ainda mais expressiva, com uma predominância de empresas com menos de 10 trabalhadores, baixos níveis de capitalização e reduzida capacidade exportadora.
No Barreiro, esta realidade traduz-se numa economia local fortemente dependente de serviços de proximidade, comércio tradicional e atividades pouco escaláveis.
O crescimento do número de empresas pode, neste contexto, ser enganador.
Mais empresas não significam necessariamente uma economia mais forte.
Podem significar e muitas vezes significam o contrário:
uma proliferação de micro-negócios de sobrevivência, com baixa produtividade, reduzida capacidade de inovação e forte dependência de dinâmicas locais de consumo.
Sem escala, sem internacionalização, sem integração em cadeias de valor mais amplas, estas empresas não conseguem gerar salários mais elevados nem criar trajetórias de mobilidade social.
O resultado é conhecido:
mais emprego, mas emprego mais pobre.

A falha estratégica: ausência de motores económicos, ou ausência de planeamento?

O problema do Barreiro não é novo. Há décadas que o território vive sem um verdadeiro motor económico estruturante.
Mas talvez a pergunta deva ser reformulada.
Não é apenas:
onde estão os motores económicos?
É também:
como poderiam eles existir sem um quadro de planeamento atualizado que os permita emergir?
A desindustrialização deixou um vazio.
Mas o planeamento urbano não foi capaz de o substituir por uma nova visão económica.
Sem zonas claramente definidas para inovação, sem articulação entre usos do solo e estratégia económica, sem instrumentos ágeis de atração de investimento, o território ficou suspenso entre o passado industrial e um futuro que nunca se materializa.
E assim, qualquer crescimento do emprego será sempre conjuntural, fragmentado e incapaz de alterar estruturalmente a trajetória do território.

Capital simbólico e economia urbana: o que está realmente em causa

Do ponto de vista da sociologia urbana, o que está em jogo é mais profundo do que indicadores económicos.
Como nos lembra Pierre Bourdieu, os territórios competem também através do seu capital simbólico, a sua capacidade de serem percebidos como lugares desejáveis para viver, investir e inovar.
E como argumenta Sharon Zukin, a economia urbana contemporânea é cada vez mais moldada por dinâmicas culturais, identitárias e de consumo, onde o valor não é apenas produzido, mas também representado e reconhecido.
Mas o capital simbólico não se constrói apenas com discurso.
Constrói-se com cidade real.
Com espaços, com projetos, com centralidades, com vida urbana.
E isso, mais uma vez, depende de planeamento.

O risco político: confundir indicadores com realidade
O maior risco deste momento não é económico. É político.

É o risco de confundir indicadores com realidade.
De transformar dados positivos em prova de sucesso.
De ignorar que, por detrás do crescimento do emprego, existe uma economia de baixo valor e uma cidade sem orientação estratégica clara.
Quando o discurso público se afasta da experiência vivida pelas pessoas, salários baixos, dificuldade em fixar jovens, ausência de oportunidades qualificadas, perde-se credibilidade.

E sem credibilidade, não há investimento.
E sem investimento, não há cidade.

Conclusão: sem cidade não há economia
O crescimento de 15,3% no emprego pode ser real.
Mas não é, por si só, uma vitória.
Se esse crescimento não se traduz em melhores rendimentos, maior produtividade e maior capacidade de atração, então não estamos perante um sucesso, estamos perante um alerta.

E esse alerta é ainda mais profundo:
não há economia forte sem cidade estruturada.
E não há cidade estruturada sem planeamento atualizado.
O Barreiro está a criar emprego.
Mas continua sem criar as condições para criar valor.
E enquanto o PDM permanecer como um instrumento parado no tempo,
a cidade continuará também ela suspensa, entre aquilo que foi e aquilo que nunca chega a ser.

António Matias Lopes
Abril 2026

15.04.2026 - 12:59

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