opinião
QUANDO A DESINFORMAÇÃO SE VESTE DE PEDAGOGIA
Por Sérgio Palaio.
Barreiro
À boa moda do Estado Novo, que usava os ecrãs para "doutrinar" o povo, surge-nos agora, em versão digital, a figura do "explicador" nas redes sociais. Trata-se de uma nova espécie de "educador" de cidadãos, mas que, na prática, parece mais focado em moldar a realidade à conveniência de quem governa. Um novo explicador na velha arte de omitir.
Do alto de uma suposta sapiência e numa "mentoria educacional" semanal, o “explicador” assume uma pose de quem tudo sabe.
Sob um estilo paternalista que evoca tempos que julgávamos idos, o que nos entrega é uma sucessão de omissões estratégicas. Fá-lo por conveniência pessoal e partidária, tentando condicionar a opinião de quem está menos por dentro da gestão pública.
O exemplo mais recente foca-se na reciclagem. Na sua rubrica, o “explicador” esqueceu-se de mencionar, talvez por manifesto desinteresse político, que o Parlamento Europeu aprovou, em 2018, a Diretiva 852/2018 “com um consenso entusiasta”. Esta diretiva compromete-nos com metas ambiciosas: reciclar 90% das latas e garrafas de plástico até 2029. O que o "explicador" também omite é que, até 2024, sob a tutela de sucessivos governos socialistas, a nossa taxa de reciclagem destes materiais estagnou nos 37%, muito abaixo da média da União Europeia, havendo por isso a necessidade de implementar medidas para que se façam cumprir.
Mais grave é a insinuação de que os produtores de embalagens teriam agora uma "vantagem" obscura, sem nunca explicar qual. Ou a afirmação de que a recolha se limita às grandes superfícies para as beneficiar com vales de consumo. É falso. O sistema abrange restaurantes, garrafeiras, pequenos supermercados e até talhos ou queijarias (basta consultar a rede Volta). Além disso, ninguém é obrigado a usar o sistema de depósito; o ecoponto tradicional continua disponível.
O que o “explicador” não diz é o essencial: este sistema é um incentivo real para aumentar a reciclagem, em que o cidadão tem a liberdade de trocar o seu vale por numerário (dinheiro vivo) ou doá-lo a uma instituição de solidariedade social.
No fundo, o "explicador" falhou no detalhe mais importante do seu projeto pedagógico: pela primeira vez, o consumidor será premiado e ressarcido pelo seu gesto cívico. Finalmente, foram tomadas medidas concretas para que Portugal honre os seus compromissos ambientais, em vez de se ficar apenas pelas palavras e pelas metas falhadas do passado.
Sérgio Palaio
21.04.2026 - 16:55
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