opinião
Será que sou fascista? Descubra aqui.
Por André Carmo
Barreiro
Muita gente, inclusive com responsabilidades autárquicas no Barreiro, não sabe bem se simpatiza com a extrema-direita ou não, não percebe porque é que o seu coração palpita mais forte sempre que o fascismo assoma, e tem dúvidas sobre se o partido em que milita ou em que tem votado desde 2019 é mesmo aquilo que aparenta ser.
Cultivar a ignorância pode ser projeto político ou cultural mas não é desculpa e, por isso, tomo a liberdade (e é sempre melhor aproveitá-la enquanto ela existe) de partilhar um pequeno teste cujo objetivo é ajudar o leitor a saber se é ou não fascista. Para cada uma das afirmações seguintes, deve expressar a sua concordância (1 ponto) ou discordância (0 pontos). A regra é simples, quanto mais pontos, mais fascista. Toca a jogar!
1 – “Salazar é o maior português de sempre”. Talvez por ter ganho o concurso “Os Grandes Portugueses”, em 2007, ou dar nome a um utensílio culinário indispensável em qualquer cozinha, António Oliveira Salazar continua a ser uma figura inspiradora para muita gente. Até há quem ache que eram precisos três em cada esquina porque isto agora é uma bandalheira, sem lei nem ordem, e ao sair de casa o crime ronda em cada esquina. Se é este o seu caso, some 1 ponto, caso contrário some 0. Se fica comovido sempre que ouve o nome Salazar e estremece sob o ar sisudo deste grande estadista, ou se se indigna sempre que alguém faz um xixi certeiro num certo túmulo em Santa Comba Dão, tem 3 pontos de bonificação.
2 – “O 25 de abril de 1974 foi um erro histórico”. Antes da revolução, Portugal era uma nação livre e desenvolvida, não havia água canalizada nem sanitas e as sopas de cavalo cansado eram uma iguaria gastronómica. Ler, escrever e contar era só para doutores e engenheiros que mereciam reverência, chapéu ao peito e olhos no chão. Éramos pobres descalços mas honrados. Havia meia dúzia de grupos económicos que acumulavam toda a riqueza (...se calhar há coisas que não mudam), ninguém fazia greves que perturbavam o regular funcionamento das instituições, as mulheres não votavam nem existiam fora do lar e não havia ajuntamentos superiores a três ou mais pessoas que não levassem bastonadas da GNR a cavalo. Se considera que antigamente é que era bom e que liberdade não é libertinagem some 1 ponto, caso contrário, soma 0 pontos.
3 – “A descolonização foi mal feita”. Entre 1961 e 1974 os portugueses mostraram a fibra de que eram feitos. Não havia cá frouxos e todos os rapazes iam de barco libertar as colónias, que eram propriedade lusa há quase 500 anos, dos terroristas indígenas. Saídos da província, os soldados foram ensinar os pretos a ler e a escrever. Violentar e cortar cabeças a civis era um hobby e a Operação Marosca trabalho de campo etnográfico. Se Portugal nunca de lá tivesse saído – ó como teria sido bom! –, Angola seria igual à Noruega e não havia diferenças entre o salário mínimo no Luxemburgo e o que se ganha hoje em Moçambique. E continuávamos a ser o mais tolerante e miscigenado Império colonial da história registada. Se concorda, some 1 ponto e junte-se ao ex-presidente Cavaco na próxima celebração do Dia da Raça. Se discorda, 0 pontos.
4 – “O problema deste país são os imigrantes, os monhés, os indostânicos, os pretos e os ciganos”. Porque isto de pertencer à ilustre raça lusitana dá muito trabalho. Foram milhões de anos de depuração, purificação e decantação feitas num laboratório, todos feitos no mesmo molde – fado, futebol e Fátima. Apesar de ser 99% igual ao chimpanzé, o português de bem fica incomodado com gente que tem cor de pele diferente, fala uma língua que ele não entende e veste roupa esquisita. Mas ele não é racista, porque até tem um amigo preto e aprecia kekab. Se acha que existem raças e que a igual dignidade de todos os seres humanos é um delírio de intelectuais sem contacto com o mundo real, some 1 ponto e junte-se à agremiação de eugenistas lusitanos. Se discorda, bem vindo à decência, soma 0 pontos. Naturalmente, se possuir um sapo de loiça à porta de casa tem 3 pontos de bónus.
5 – “Não, não, o problema são os paneleiros”. Porque a verdade é que isto de andar abafar a palhinha é o maior problema de Portugal. Há um cabala de bichas que estão em todo o lado a tentar desencaminhar crianças e jovens. Os balneários, por exemplo, são um problema porque a nudez pode levar a criançada a pegar de empurrão ou a lamber carpetes. Roupa cor-de-rosa ou brincar com bonecas? Isso é que não! Qualquer dia, só há maricas. Se está de acordo que a existência de gays, lésbicas e transexuais é o maior risco que existe para a integridade do território nacional, some 1 ponto e tranque bem a porta desse armário. Se discorda, pode continuar a viver a sua vida com tranquilidade, somando 0 pontos.
6 – “A família é que educa, não é a escola”. Era o que faltava, ensinar às crianças que existem pénis e vulvas que até se podem usar sem qualquer finalidade procriativa. Cruzes, credo! Que ordinarice! Sexo só depois do sagrado matrimónio. E as casas de banho únicas? Anda tudo doido!? Então agora um tipo entra numa casa de banho para mijar à macho e sai de lá efeminado? WC contra-natura. Não se podem expor as crianças a este tipo de indecências e imoralidades que atentam contra a sua liberdade de escolha e põem em causa a família como célula base da sociedade. Porque o chefe de família é que sabe se os filhos se devem vacinar ou não e se a terra é plana. Até porque se fosse redonda caíamos todos quando estivéssemos de pernas para o ar. Se desconfia que os professores são todos engenheiros de almas, marxistas culturais e que não há nada como a educação caseira, some 1 ponto; se discorda, some 0 pontos.
7 – “A esquerda destruiu o país nos últimos 50 anos”. O facto de o Partido Comunista Português ter governado o país no últimos 46 anos, com um breve interregno em que foi o Bloco de Esquerda a fazê-lo, demonstra que Portugal foi sempre liderado por partidos de esquerda. Depois de ser instaurada uma ditadura do proletariado e de o soviético passar a língua oficial, o país nunca mais foi o mesmo. Nas autarquias CDU, ainda hoje se vai buscar água ao poço e a principal fonte energética é o carvão. O marxismo tomou conta deste país, é preciso reconquistar a valente nação portuguesa e salvar os heróis do mar. Se tem pesadelos em que é perseguido por uma foice e um martelo voadores, some 1 ponto; se discorda, soma 0 pontos.
Parabéns! Chegou ao fim. Se somou 0 pontos, não é fascista nem de extrema-direita. Não vive atormentado com a vida nem obcecado com as diferenças culturais, não se enche de contentamento com a desgraça alheia, não teme ser assaltado ou morto à paulada, nem tem pesadelos que envolvem furiosa persignação, anabolizantes, algemas e transformismo.
Se somou mais de 1 ou 2 pontos, está a resvalar para o fascismo.
Se somou mais de 3 pontos, é um fascista exemplar. Um verdadeiro Kaúlza arraçado de Mussolini! Passa férias no seminário de Santa Comba Dão e a sua convicção de que todos os problemas do país residem em toda a gente menos em si é inabalável. Porque toda a gente sabe que é assim, sempre foi e sempre há de ser. Não se mete em políticas porque a sua política é o trabalho. E este, como é sabido, liberta. Segue o quarto pastorinho para todo o lado, nunca põe em causa a sua liderança nem faz perguntas, e passa os seus tempos livres a roubar malas em aeroportos, a dizer umas verdades nas redes sociais, ou a praticar abuso sexual de menores.
Aviso: em tempo de literalismo ortodoxo, importa assinalar que este texto é uma sátira destinada a ser lida por portugueses de bem que sabem que o maior símbolo da cultura lusitana, o bacalhau, não é pescado na Noruega mas sim em Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal. Ámen!
André Carmo
Deputado municipal eleito pela CDU Barreiro (2021-2025)
24.04.2026 - 13:27
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