opinião
Fazer Cidade Não é Fazer Ruído
Barreiro entre a pequena política e a grande responsabilidade
Por António Matias Lopes
Barreiro
Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade.Quando, ao longo dos últimos anos, tenho defendido publicamente uma visão exigente para o futuro do Barreiro, não o faço por impulso, nem por conveniência circunstancial.
Faço-o porque conheço profundamente o que significa construir cidade, não apenas desenhar edifícios, mas criar centralidades, gerar confiança, atrair investimento, promover mobilidade, qualificar espaço público e, acima de tudo, melhorar a vida das pessoas.
Quem conhece o meu percurso sabe que não falo de teoria abstrata. Falo da experiência concreta de décadas dedicadas ao desenvolvimento urbano, ao investimento imobiliário estruturante e à criação de projetos que transformaram territórios e economias locais. O lançamento do Forum Barreiro, há mais de quinze anos, foi precisamente uma dessas tentativas de pensar o Barreiro para além da sua circunstância imediata, como parte de uma estratégia mais ampla de reposicionamento territorial.
Por isso, quando a crítica séria e fundamentada é substituída pela tentativa de desqualificação pessoal, não estamos perante um debate político saudável. Estamos perante algo mais pobre: a tentativa de silenciar pela ofensa aquilo que não se consegue contrariar pela argumentação.
Ser chamado de ridículo por pensar a cidade não me ofende particularmente. O que verdadeiramente me preocupa é que, cinquenta e um anos depois do 25 de Abril, ainda exista quem confunda liberdade de opinião com inconveniência política.
A democracia não se protege eliminando o contraditório. Protege-se garantindo que ele existe.
Criticar o estado da cidade não é atacar a cidade. É recusar resignar-se a ela.
Há também quem confunda a exigência crítica com ingratidão política.
Como se reconhecer algumas intervenções realizadas ao longo dos últimos anos implicasse suspender o direito e até o dever de exigir muito mais.
Importa dizer com clareza: aquilo que um executivo municipal faz no exercício do seu mandato não constitui um favor pessoal aos cidadãos. Constitui a sua obrigação.
Governar não é um ato de benevolência. É uma responsabilidade institucional.
Executar obra pública, melhorar acessibilidades, investir em equipamentos, qualificar espaço urbano ou criar condições para atrair investimento não são gestos extraordinários merecedores de gratidão política automática, são precisamente aquilo para que se foi eleito.
O problema começa quando o mínimo exigível é apresentado como grande conquista e quando a ausência de visão estratégica é compensada pela narrativa da obra avulsa.
Uma cidade não se transforma pela soma de intervenções isoladas. Transforma-se por projeto, coerência e ambição.
O Barreiro precisa menos de propaganda e mais de estratégia.
Menos de autocomplacência e mais de exigência.
Menos de gestão de calendário político e mais de construção de futuro.
Reconhecer o que foi feito não impede perguntar o que ficou por fazer.
E talvez essa seja a pergunta mais importante de todas.
Porque governar não é apenas administrar o presente.
É preparar o futuro.
O Barreiro enfrenta hoje uma encruzilhada histórica que não admite gestão tímida nem respostas administrativas de curto prazo. O novo aeroporto de Lisboa, a reorganização metropolitana, a urgência da mobilidade intermunicipal, a necessidade de reconfiguração do seu tecido produtivo e a valorização estratégica dos terrenos da antiga Quimigal posteriormente Quimiparque e hoje integrados na estratégia do Arco Ribeirinho Sul, representam uma oportunidade rara de redefinição estrutural.
Mas oportunidades não se concretizam por inércia.
Exigem liderança.
Exigem negociação séria com o Estado.
Exigem uma posição clara sobre o papel da cidade na Área Metropolitana de Lisboa.
Exigem um verdadeiro concurso internacional de ideias para os grandes territórios de transformação.
Exigem uma visão que ultrapasse a lógica do mandato e pense na escala de uma geração.
A antiga Quimigal, posteriormente Quimiparque e hoje integrada na estratégia do Arco Ribeirinho Sul, não pode continuar a ser tratada como um problema administrativo ou uma promessa repetida em campanhas eleitorais. Estamos a falar de cerca de 500 hectares com potencial de redefinição económica, urbana e simbólica de todo o concelho. A sua integração com a frente ribeirinha, com o Hospital do Barreiro, com uma possível plataforma de inovação em saúde, longevidade, desporto e conhecimento, e com a futura articulação aeroportuária, pode transformar o Barreiro num verdadeiro polo metropolitano.
Mas isso exige coragem política.
E exige, também, humildade institucional para reconhecer que o que foi feito até agora está longe do necessário.
A cidade sente isso diariamente.
Sente-o no caos da mobilidade.
Nos acessos congestionados.
Na, ausência de uma ligação estrutural eficaz ao Seixal e à Ponte Vasco da Gama.
Na lentidão de decisões fundamentais.
Na degradação da experiência urbana.
Na perda de confiança de investidores.
Na frustração silenciosa de quem vive diariamente a cidade e sabe que ela pode muito mais.
Fazer cidade não é anunciar obra.
É criar qualidade de vida.
É garantir emprego qualificado.
É atrair talento.
É fixar jovens.
É integrar academia, empresas e território numa visão comum de futuro.
É transformar infraestruturas em ecossistemas.
É perceber que uma piscina, um hospital, um campus universitário ou uma nova centralidade urbana não são peças isoladas, são partes de uma estratégia de cidade.
As cidades não se constroem por impulso nem por necessidade de mostrar serviço. Constroem-se com inteligência territorial, visão política e profundo respeito pelos cidadãos.
O Barreiro precisa de uma nova ambição coletiva.
Precisa de uma estratégia metropolitana verdadeira.
Precisa de infraestruturas de mobilidade compatíveis com a sua posição geográfica.
Precisa de um sistema de transportes eficiente, moderno e competitivo.
Precisa de capacidade negocial junto do Governo central.
Precisa de liderança para reconfigurar o seu papel dentro da Área Metropolitana de Lisboa.
Precisa de uma visão que una Estado, município, academia, empresas e sociedade civil.
E precisa, acima de tudo, de deixar de aceitar a mediocridade como destino.
Talvez seja precisamente aqui que devemos recentrar o debate.
Não na ofensa fácil.
Não na pequena agressão.
Não na tentativa de descredibilizar quem pensa diferente.
Mas na pergunta essencial:
Que Barreiro queremos deixar aos próximos trinta anos?
Um território resignado à sua memória industrial, dependente de oportunidades externas e prisioneiro da pequena política?
Ou uma cidade capaz de se reposicionar como uma das grandes centralidades emergentes da Área Metropolitana de Lisboa?
Essa é a verdadeira discussão.
O resto é ruído.
Não temo a crítica.
Temo a ausência de ambição.
Não me preocupa o insulto.
Preocupa-me a resignação.
Porque quem ama verdadeiramente uma cidade não se limita a defendê-la.
Tem a obrigação de a exigir melhor.
António Matias Lopes
Investigador de Sociologia-Cidades e culturas urbanas-UC/CES
Maio de 2026
03.05.2026 - 16:29
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