opinião

A Capital da Cultura e a política da fotografia
Por André Carapinha
Barreiro

A Capital da Cultura e a política da fotografia<br />
Por André Carapinha<br />
Barreiro O anúncio foi feito e, mesmo que quem esteja por dentro do tema ache que as hipóteses talvez não sejam muitas, o alvoroço instalou-se. O Barreiro vai candidatar-se a Capital Portuguesa da Cultura, o que é, em si mesmo, uma boa ideia. Se há cidades onde a cultura não é adereço, nem ornamento, nem entretenimento para agenda municipal, o Barreiro é uma delas.

Há poucas coisas nesta cidade com tanta vitalidade como a cultura. No Barreiro, a cultura é uma marca indelével, sabem os mais avisados e conhecedores da sua história, como forma de sociabilidade, de comunidade, de classe, de bairro, de resistência. Foi a maneira como uma cidade operária se construiu a si mesma, quando outros a queriam apenas fábrica, dormitório, periferia ou, nestes novos tempos já pós-operários, terreno disponível para o próximo negócio imobiliário.

Por isso, convém começar por aqui: o Barreiro tem legitimidade para se candidatar. Não precisa de ser cidade monumental ou centro histórico de postal ilustrado (e ainda bem, que se fosse pelo centro histórico, enfim, mas adiante). O Barreiro tem outra história: feita de trabalho, associativismo, música, teatro, memória industrial, cultura popular, experimentação artística, noite, espaços ocupados, espaços salvos, espaços ameaçados, espaços devolutos e ruínas. Mas, precisamente por isso, sabemos como essa vitalidade não nasceu dos seus poderes públicos, nem destes nem de quaisquer dos anteriores (mesmo que, no final dos anos 90, a vereadora Carla Marina tenha feito a única tentativa séria de dotar a cidade de uma verdadeira política cultural. Sem sucesso, como é evidente)

O que o Barreiro é hoje, culturalmente, foi feito pelo pessoal do Barreiro. Uma curiosa fauna, merecedora de um estudo em Sociologia da Cultura que explique esta vitalidade: associações, coletivos, companhias, músicos, artistas, programadores, investigadores, pessoal muito teimoso, chato e resiliente, que insistiu quando não havia orçamento, quando havia mas era sempre para o que não interessava, quando não havia salas, quando não havia reconhecimento, quando o que saía cá para fora do Barreiro era apenas crise, declínio demográfico, desemprego e pobreza, mesmo quando a verdade era bem mais complexa do que isso. A cultura barreirense existe porque houve quem a fizesse, não porque houve quem a fotografasse.

Este ponto é decisivo, porque a confusão entre uma coisa e outra é hoje a principal operação política em curso. Uma cidade culturalmente viva não é necessariamente uma cidade com política cultural. Uma agenda cheia não é uma política cultural. Um cartaz bonito não é uma estratégia. Um vereador ao lado de artistas não é uma visão. Um presidente em vídeo a dizer as palavras certas não é uma política pública.

O que temos visto, cada vez mais, é outra coisa: a política da fotografia. A arte de aparecer ao lado do que já existe. A capacidade de chegar depois, pôr a mão no ombro, sorrir para a câmara e transformar trabalho alheio em capital político próprio. Este executivo autárquico não inventou a cultura no Barreiro, e muito menos a sua atual vitalidade. O que certamente aperfeiçoou foi a capacidade de a administrar como imagem. Os anteriores executivos não faziam melhor política cultural, e certamente que eram muito piores a encená-la. Este executivo, que se chama a si mesmo de socialista, aprendeu a lição do tempo neoliberal: o essencial não é fazer, é aparecer, estar presente quando outros fazem, e sobretudo retirar todo o capital possível da operação, seja este político ou o capital ele mesmo.

A candidatura a Capital Portuguesa da Cultura deve ser discutida sem ingenuidade. Tudo o que disse acima não significa ser contra o projeto, mas também não nos deve fazer embarcar em histerismos serôdios, bater no peito e gritar “2830” por essa Avenida das Nacionalizações fora. Se o Barreiro ganhar coisas importantes com isto, se houver recursos para os agentes culturais, se houver recuperação de património, se houver trabalho em rede, se houver equipamentos, se houver continuidade depois da festa, venha a candidatura. A cidade merece, os agentes culturais merecem, as associações merecem. Mais: a crítica sem fundamentos à candidatura revelar-se-á um erro histórico, porque alienará os agentes culturais de quem a faz. O discurso polarizado destes tempos, a reação rápida ao clique e ao clickbait, temperada com velhíssimos ódios e novos rancores, faz, quem diria, que os que antes eram injustamente acusados de em poucos anos terem tornado a cidade um deserto, hoje acusem os outros do mesmo. Uma cegueira que pagarão caro, simplesmente porque a realidade os desmente a olhos vistos. No meio de tantos problemas do Barreiro, como é possível ignorar que a sua programação cultural, regular, criada por associações, coletivos e outros agentes, muito mais do que pela sua autarquia, faz hoje inveja a qualquer cidade portuguesa da sua dimensão?

A cidade merece também que a candidatura não seja entregue à lógica a que nos habitámos ultimamente: a fotografia primeiro, a política logo se verá.
A vitalidade cultural do Barreiro é hoje, sem qualquer dúvida, maior do que era há alguns anos. Mas também aqui convém perceber o seguinte: isso não acontece porque este executivo autárquico tenha apresentado qualquer política cultural estruturada, no que, aliás, não faz melhor nem pior que os anteriores. O que sucede agora, é que as gerações que construíram tudo isto cresceram, amadureceram, encontraram meios, em alguns casos profissionalizaram-se. E porque outras gerações surgiram depois, inspiradas por essas, criando continuidade. E, é preciso dizê-lo, também devido à gentrificação em curso na cidade. Chegou alguma gente de fora com energia, que primeiro reforçou o público local e neste momento já integra estruturas de criação e de programação. Seria absurdo negar este efeito. Esta é a lógica, por demais estudada, deste processo urbano: seduzir antes de expulsar, revitalizar antes de segregar, abrir antes de fechar. Tudo isto já foi visto e revisto em incontáveis exemplos, que o executivo atual escolhe conscientemente ignorar. Sabemos como estes processos terminam: cafés fashion no lugar das tascas, chefs em vez de cozinheiros, “investimento”, aumento brutal das rendas, substituição social, inclusive e a prazo, já não tendo lugar também para estes que agora chegaram; e a cidade que parecia mais viva morre depois de expulsar quem a fez. Desculpem, falávamos da Capital da Cultura, e isto não tem nada a ver, pois não?

Já que falamos de uma candidatura a Capital da Cultura, falemos de política cultural, A propósito, mas qual política cultural? Se o património industrial continua tratado como ruína disponível ou obstáculo urbanístico; se o Barreiro continua sem um verdadeiro museu industrial à altura da sua história; se ainda não existe um museu ferroviário capaz de pensar, preservar e apresentar uma dimensão essencial da identidade da cidade; se se fala de memória operária, mas pouco se faz para a investigar; se o seu património histórico e natural continua a ser tratado como mercadoria descartável; se há muita programação mas a maior parte das estruturas continuam débeis, que tal aproveitar a candidatura a Capital da Cultura para pensar um bocadinho mais sobre política cultural e menos sobre a pose na fotografia?

Que política cultural podemos ter, quando a cultura, nos parcos momentos em que é pensada, é separada das políticas de habitação, do território ou da justiça social? Uma cidade que expulsa os seus habitantes não protege a sua cultura. Uma cidade que deixa os moradores entregues à pressão imobiliária não está a construir futuro cultural nenhum. Está a preparar um simulacro de cidade para outros que nos virão substituir. Uma cultura sem povo, sem conflito, sem memória vivida, não é cultura, é uma encenação.

Por isso, a pergunta que se coloca não é se o Barreiro se deve candidatar a Capital Portuguesa da Cultura. A pergunta é outra: capital de que cultura? Da cultura viva que nasce de baixo, dos agentes, das associações, dos coletivos, dos bairros, dos espaços de criação, da memória operária e da mistura social? Ou da cultura transformada em marca territorial, produto de comunicação, ativo turístico, instrumento de valorização imobiliária e fotografia de campanha?

Não se trata, note-se, de menorizar quem participa, apoia ou integra este processo. Pelo contrário. Muitos dos nomes e estruturas já associados à candidatura representam o melhor que o Barreiro tem produzido, apesar de, no meu singelo ponto de vista, o processo representar, para já, também de algum modo um sintoma da elitização e mercadorização que acima tentei explicar. A questão é simplesmente não passar cheques em branco (e porque havíamos de o fazer? Não é isto participar? Não é esta a boa tradição das velhas ágoras democráticas, que os verdadeiros políticos saúdam, mas que tanto incomodam os pequenos reizetes?). A candidatura a Capital Portuguesa da Cultura, caso seja vencedora, trará financiamento, visibilidade, redes, debate, recuperação de espaços e reconhecimento. Pode ser um momento fundamental para a cidade, que consolide definitivamente o Barreiro no mapa das grandes cidades culturais do país. Mas para isso, e numa primeira avaliação, são precisas algumas coisas: é preciso que a candidatura se abra à multiplicidade de agentes culturais da cidade e não se esgote em duas ou três vacas sagradas. Tem de responder a perguntas simples: que equipamentos ficarão? Que património será protegido, e como? Que arquivos serão organizados? Que estruturas terão financiamento estável, e como será este garantido? Que espaços de criação serão impulsionados? Que políticas impedirão que a cultura seja usada para financeirizar a cidade e expulsar quem a construiu?
Sem estas respostas, tudo se reduzirá ao costume: programação, comunicação, fotografias, discursos e uma cidade usada como fundo cénico da ambição política de quem a governa.

A candidatura será boa para o Barreiro. Mas só o será se a cidade não aceitar ser figurante na fotografia do poder. Porque a cultura do Barreiro não nasceu nos gabinetes, nos discursos de circunstância nem nas suas inexistentes políticas culturais. Nasceu onde nasce quase tudo o que importa nesta cidade: no trabalho, na teimosia, nas associações, nas discussões pela noite fora, nas amizades, nos palcos improvisados, nos ensaios às tantas da manhã, na fábrica abandonada ocupada para uma rave, na rua, no bairro. Se daqui puder nascer e permanecer, finalmente, uma política cultural para esta cidade, terá este executivo, talvez sem ter plena consciência disso, deixado a sua grande marca na história do Barreiro.

André Carapinha

19.06.2026 - 13:08

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2026 Todos os direitos reservados.