opinião
O Timoneiro do Retalho
Por António Matias Lopes
Barreiro
Há novidades no Barreiro: temos um novo especialista em gestão de centros comerciais. Não fez carreira na Sonae Sierra, não passou pela Multi Development, não geriu um único metro quadrado de retalho em toda a sua vida, mas fala de tenant mix com a segurança de quem inaugurou o conceito. É o senhor presidente da Câmara, que descobriu recentemente a sua vocação tardia: corrigir lojas.
Corrigiu o Forum Barreiro, diz ele, com a inserção de uma Loja de Cidadão. Uma proeza. Há décadas que os gestores imobiliários de todo o mundo procuram a âncora perfeita; a Zara, o hipermercado, o cinema multiplex e afinal a resposta estava ali, ao alcance de qualquer executivo municipal: um balcão de renovação do Cartão de Cidadão. Imagino já os congressos internacionais do sector a estudar o "modelo Barreiro": substitua-se o comércio por repartições públicas e o sucesso está garantido. As filas, pelo menos, estão.
Há só um pormenor, pequeno, quase insignificante: o Forum Barreiro já não se chama Forum Barreiro. O centro mudou de nome, de mãos e de estratégia, e o seu ilustre "correctør" nem deu por isso. É como gabar-se de ter afinado o piano de um prédio que já foi demolido. Mas não sejamos picuinhas, quem corrige um centro comercial que já não existe com esse nome está claramente acima destas minudências toponímicas.
Corrigiu também, orgulha-se, a ocupação do Mercado 1.º de Maio. Aumentou-a. Não nos diz de quanto para quanto, nem com quê, nem por quanto tempo, mas aumentou. Na gestão imobiliária a sério, ocupação sem qualidade de ocupação chama-se maquilhagem; na política municipal, chama-se conferência de imprensa.
E agora, embalado por tão retumbantes sucessos, o nosso timoneiro anuncia a próxima cruzada: vai corrigir as lojas da Rua Miguel Bombarda, os seiscentos metros que a imaginação autárquica já baptizou de croisette. A Croisette de Cannes tem o Carlton, o Martinez e o Festival de Cinema; a nossa tem cada vez mais lojas de euro e meio. Porque é preciso dizê-lo com todas as letras: a Inditex foi-se embora, o comércio de classe média foi atrás, e o que abre no lugar deles são as herdeiras diretas das velhas lojas dos 300, devidamente actualizadas pela inflação. Chamar-lhe croisette é um acto de fé ; corrigi-la por decreto será um milagre.
Qualquer gestor de retalho com meia dúzia de anos de tarimba sabe uma coisa elementar, que se ensina na primeira semana e se confirma nos trinta anos seguintes: o mix comercial não se decreta, lê-se. As lojas que abrem e fecham numa rua são o electrocardiograma da cidade. Quando as marcas médias fogem e o low-cost ocupa o terreno, o mercado está a dizer, com uma frieza que nenhum discurso disfarça, que aquela cidade perdeu poder de compra, perdeu residentes qualificados, perdeu razões para se estar nela. O comércio é o termómetro. E não há memória de febre alguma ter baixado por se corrigir o termómetro.
O que verdadeiramente assusta não é a ignorância técnica, essa é desculpável, ninguém nasce ensinado e há excelentes consultores no mercado. O que assusta é a inversão de missões. A um presidente de Câmara não compete negociar contratos de arrendamento comercial; compete fazer cidade. Compete regenerar o tecido urbano, destravar o gigantesco adormecido que é a Quimiparque, abrir a frente ribeirinha, fixar habitação e gente nova, bater-se por mobilidade digna. Feito isso e só feito isso, o mix comercial corrige-se sozinho, porque os operadores vão atrás das cidades vivas com o mesmo instinto com que fogem das moribundas. Um autarca que se entretém a fazer de leasing manager amador enquanto a cidade real definha é como o comandante do navio que, com água pelos joelhos na casa das máquinas, decide reorganizar a carta de vinhos do restaurante de bordo.
A menos, claro, que haja método nesta distracção. Tanta paixão súbita pelo retalho quase sugere um homem a preparar o portefólio para a vida depois da política. Se for esse o caso, fica desde já o meu conselho de colega mais velho, com algumas décadas de shoppings às costas em três continentes: no sector privado, senhor presidente, os resultados contam-se, não se anunciam. E gabar-se de ter corrigido um centro cujo nome já nem se conhece seria, numa entrevista de emprego, aquilo a que tecnicamente se chama uma inabilidade.
O Barreiro não precisa de um curador de montras. Precisa de um timoneiro que saiba o rumo e que perceba, de uma vez por todas, que uma mão cheia de nada, por mais vezes que se levante ao alto, continua a ser exatamente isso: nada.
António Matias Lopes
Julho de 2026
02.07.2026 - 15:18
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