opinião
PENSAR O PAÍS
Por Paulo Margalhau
Barreiro
A inspiração para este artigo surgiu esta semana, ao escutar o Debate do Estado da Nação. A ironia está no próprio nome. Esperava-se uma discussão sobre o estado do país, mas ouviu-se sobretudo o estado da política: declarações; acusações; episódios; responsabilidades passadas e cálculos futuros. Muito sobre os protagonistas. Pouco sobre o caminho.
Portugal enfrenta uma escolha simples. Pode continuar a administrar a trajetória existente, corrigindo problemas à medida que surgem, distribuindo recursos por prioridades sucessivas e adaptando as decisões ao ciclo político. Ou pode definir uma direção económica clara, concentrar capacidades e procurar alterar deliberadamente a sua posição no mundo.
A primeira opção permite manter equilíbrios, evitar ruturas e assegurar algum progresso. Não tem sido suficiente, contudo, para aproximar Portugal, de forma consistente, das economias europeias mais desenvolvidas. O país melhorou em termos absolutos, mas a sua posição relativa pouco se alterou em áreas fundamentais como a produtividade, os salários, a capacidade empresarial e a qualidade das instituições.
Portugal não será uma nova Irlanda, nem deve procurar reproduzir o modelo dos Países Baixos. As condições históricas, económicas, institucionais e geográficas são diferentes. O que importa retirar desses exemplos é a disciplina com que escolheram prioridades, criaram condições para as desenvolver e mantiveram essa orientação durante tempo suficiente.
Portugal precisa de encontrar um espaço próprio na economia mundial.
Uma economia com a nossa dimensão não pode procurar ser competitiva em todos os setores. Tem de identificar atividades nas quais possua conhecimento, experiência, recursos ou condições para alcançar relevância internacional. Essa escolha não deve depender da disponibilidade momentânea de fundos, de uma preferência governativa, daquilo que sempre fizemos ou da capacidade de influência dos interesses mais organizados. Deve resultar de uma avaliação objetiva das competências existentes e das oportunidades futuras.
O desígnio deve ser aumentar de forma sustentada o valor criado em Portugal, especializando a economia em atividades capazes de alcançar projeção internacional, pagar melhores salários e conservar no país conhecimento, empresas e centros de decisão.
O turismo e o imobiliário têm atualmente um peso importante. Criam emprego, atraem investimento, geram receitas e contribuem para a projeção externa. Seria errado diminuir o seu valor. Não podem, porém, definir o limite da nossa ambição económica.
São atividades expostas a fatores externos e, em muitos segmentos, produzem menor valor acrescentado do que setores assentes em tecnologia, conhecimento, capacidade industrial ou serviços especializados. Devem integrar uma economia mais diversificada, e não substituir essa diversificação.
Portugal também não precisa de apresentar mais uma lista extensa de setores estratégicos. Quando tudo é prioritário, nada é verdadeiramente prioritário. Deve selecionar duas ou três plataformas económicas nas quais possa reunir investigação, formação, investimento, produção e capacidade exportadora. A tecnologia, a saúde, a indústria especializada, a energia ou a economia do mar poderão fazer parte dessa escolha. O critério deverá ser a existência de competências reais e a possibilidade de construir vantagens duradouras.
Uma economia pequena afirma-se quando consegue fazer algumas coisas particularmente bem.
Portugal dispõe de excelentes técnicos, engenheiros, profissionais de saúde, investigadores, operários especializados e trabalhadores capazes de executar com rigor. Em muitos setores, a qualidade do trabalho é superior à organização que o enquadra. O país revela frequentemente maior competência na execução do que na decisão.
Sabemos construir, produzir, reparar, adaptar e resolver. Começamos, por vezes, a estragar o resultado quando abrimos a boca. Substituímos o conhecimento pela opinião, a execução pelo protagonismo e a responsabilidade pela interferência permanente. Valorizamos pouco a competência discreta e demasiado a capacidade de ocupar o espaço público. Confundimos visibilidade com mérito e comunicação com resultado.
Uma estratégia nacional deve proteger e valorizar a capacidade que já existe. A educação, a formação profissional e a investigação devem aproximar-se das áreas escolhidas, permitindo que o conhecimento se transforme em empresas, produtos, serviços e emprego qualificado.
Os fundos nacionais e europeus devem servir essa orientação. O objetivo não pode limitar-se a executar verbas ou apresentar taxas elevadas de realização financeira. O resultado deve ser medido pelo aumento da produtividade, pela incorporação de conhecimento, pelo crescimento das exportações e pela capacidade das empresas portuguesas para ganhar escala.
O investimento estrangeiro continuará a ser necessário, mas deve ser avaliado também pela capacidade de fixar conhecimento, desenvolver fornecedores nacionais, instalar centros de investigação e manter funções de decisão no país. Atrair atividades sustentadas sobretudo por salários inferiores pode criar emprego no curto prazo, mas dificilmente constitui uma vantagem duradoura.
As empresas portuguesas precisam igualmente de condições para crescer. A pequena escala empresarial não deve ser aceite como inevitável. O sistema fiscal, financeiro e administrativo não pode transformar o crescimento numa acumulação de obrigações, custos e complexidade. Uma empresa deve crescer porque produz melhor, exporta mais e aumenta o valor do trabalho, e não permanecer pequena para evitar o peso do sistema.
Esta direção exige um Estado capaz de decidir e executar. Não é necessário criar continuamente novos organismos, programas e estruturas de coordenação. É necessário que as instituições existentes funcionem, disponham de objetivos claros e respondam pelos resultados.
Legislação estável, justiça mais célere, fiscalidade previsível, licenciamentos proporcionais e decisões administrativas dentro de prazos razoáveis não são reformas laterais. São condições básicas para qualquer estratégia económica.
Cada política pública deve identificar o problema que pretende resolver, os recursos que utiliza, o prazo de execução e os resultados esperados. O que não funcionar deve ser corrigido ou terminado. O que produzir resultados deve continuar, mesmo quando tenha sido iniciado por outro governo.
Os partidos continuarão a divergir sobre impostos, despesa, organização dos serviços públicos e distribuição dos recursos. Essa diferença é própria da democracia. O que não deve mudar em cada legislatura é a orientação fundamental do país.
Essa orientação deve ser acompanhada através de indicadores simples e estáveis, como a produtividade, exportações, investimento, salários, crescimento empresarial, inovação e retenção de profissionais qualificados. Os resultados devem ser avaliados com independência e apresentados sem propaganda.
A comunicação social também tem uma responsabilidade. O debate público precisa de menos declarações, intrigas, pequenas manobras partidárias e disputas pessoais. Precisa de maior escrutínio sobre decisões, custos, execução e resultados.
As politiquices e politiquinhas ocupam demasiado espaço num país que ainda não decidiu suficientemente bem o que pretende ser.
Talvez o próximo Debate do Estado da Nação possa começar por aí. Menos tempo a discutir quem ganhou o debate e mais tempo a decidir como pode o país ganhar alguma coisa.
Portugal pode continuar a administrar o presente, esperando que a acumulação de pequenas melhorias altere uma trajetória conhecida. Pode também escolher aumentar o valor criado no país, especializar a economia e organizar as instituições em função desse objetivo.
Continuar exige apenas gerir o que existe. Alterar o destino exige um desígnio nacional, competência na execução e continuidade suficiente para transformar uma escolha num resultado coletivo.
Se conseguirmos dedicar ao futuro do país metade da energia que dedicamos a discuti-lo, talvez ainda nos surpreendamos com os resultados.
2026, Paulo Margalhau
19.07.2026 - 14:29
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