opinião
Pelos jovens, pelo Barreiro, peço-vos que façam mais e melhor.
Por Diogo de Oliveira Martins
Barreiro
Governar não é sinónimo de gerir. Gerir é resolver os problemas do dia a dia e planear os recursos para o dia de amanhã. Governar implica ter uma visão, uma estratégia e saber para onde se quer ir. Só depois de se saber para onde se quer ir, é que se pode fazer a gestão dos recursos disponíveis para se lá chegar.
Dito isto, creio que se a gestão do Barreiro levanta dúvidas quanto à sua eficiência, não há margem para dúvidas de que não há ninguém a governar o Barreiro.
Vejamos, os mais recentes dados do INE sobre população apontam que o Barreiro tinha no final de 2025, 91 766 habitantes. Isto é, mais 10 724 habitantes que em 2021 [mais 11 459 estrangeiros e menos 735 portugueses], um crescimento de 13,2% que evidencia uma mudança estrutural no tecido social do concelho. Se o Barreiro tivesse bons gestores autárquicos teríamos visto um aumento igual ou superior a 13,2% nos serviços prestados no nosso concelho. Deixo à análise do leitor: observa-se um aumento na recolha de resíduos igual ou superior a 13,2%? E vagas no pré-escolar ou nos outros estabelecimentos de ensino?
Se as respostas às perguntas anteriores podem não ser clarividentes, há 2 áreas em que houve aumentos claramente superiores a 13,2% (mérito seja dado), estas são: o preço do m^2 no Barreiro, que aumentou em torno de 104% entre outubro de 2021 e junho de 2026, ou seja, mais que duplicou; e a fatura de água que agora chega com um aumento em torno de 78% a casa dos barreirenses.
No entanto, aquilo que mais me atormenta enquanto barreirense é mesmo a falta de visão para a nosso concelho. Depois de 9 anos de presidência socialista na câmara (e em todas as juntas), ainda não consigo perceber que modelo de cidade quer o nosso executivo. Fico com a sensação de que o Barreiro continua agarrado à lógica de cidade-dormitório, um modelo que não promove a criação de emprego na nossa cidade e que só tem sobrevivido no pós-CUF porque o preço da habitação no Barreiro é inferior ao dos outros concelhos. O problema é que isso começa a deixar de ser verdade…
A prova cabal de que o Barreiro está amarrado a estratégias do passado, ultrapassadas pelo tempo, é mesmo o facto do Plano Diretor Municipal (PDM) do Barreiro não ter sofrido alterações de fundo desde que foi aprovado, isto em 1994… E o PDM não é um mero documento técnico, é mesmo a mais importante e central peça na definição do modelo de uma cidade. E, se o tecido social do Barreiro, como já referido, transformou-se de forma profunda de 2021 para 2025, então o que não terá mudado de 1994 para cá? Ora, um concelho que não revê o seu principal instrumento de planeamento durante mais de três décadas não está a construir o seu futuro, está apenas a deixar que este aconteça.
Se o PDM em vigor já não serve para os dias de hoje, então certamente que não servirá para acomodar as transformações anunciadas para as próximas décadas. Logo à cabeça, espera-se (ou pelo menos anuncia-se) que em 2034, daqui 8 anos, a nova travessia do Tejo esteja em funcionamento. Depois, associada à terceira travessia do Tejo, o Barreiro passará estar no corredor da alta velocidade, nomeadamente aquele que ligará Lisboa a Madrid em 3 horas. Além disso, o governo apresentou o projeto “Parque Cidades Tejo” que pretende revitalizar os terrenos da CUF e dar uma nova vida àquela zona adormecida do nosso concelho. A estes projetos, somam-se ainda a expansão do metro de superfície a sul do Tejo, a ponte Barreiro-Seixal e a deslocalização do terminal Rodo-Ferro-Fluvial, que permitirá, não só o fim do túnel, mas também a criação de uma nova avenida central.
Estes projetos, por si só, não resolverão os problemas do Barreiro, mas serão tanto mais benéficos para o concelho quanto melhor planeamento houver. E o Barreiro terá sempre de estar pronto para os receber, sejam estes concretizados nestes prazos ou não. Contudo, se o grande desígnio do Barreiro for continuar a ser uma cidade-dormitório, então estes projetos só causarão mais pressão no mercado imobiliário e mais jovens barreirenses serão levados a sair do concelho. Se, por outro lado, a estes projetos for tido em conta que o Barreiro tem todas as condições para ser um polo de desenvolvimento, de criação de emprego e fixação de talento, tal como Oeiras provou ter, então o nosso concelho deixará de ver os seus jovens partirem e verá os jovens de outros concelhos a desejarem vir para cá! Se aliado a isto, for entendido ainda que o Barreiro tem potencial para crescimento e desenvolvimento não só no centro do Barreiro e na Verderena, mas em toda sua extensão territorial: desde o esquecido Lavradio até à esquecidas Covas de Coina, então haverá mais coesão e bem-estar para todos.
O planeamento a longo prazo não dá votos, requer muito investimento e um controlo financeiro que não se coaduna com os ciclos eleitorais. Sendo, ao mesmo tempo, ingrato porque serão os dirigentes do futuro a colher os frutos que se plantarem agora. Mas, sem planeamento de longo prazo, as cidades primeiro estagnam, depois declinam e, por fim, morrem ao verem os seus jovens partir.
Por fim, se pudesse deixar um apelo ao executivo, pediria para pararem de pensar em quem será o sucessor do atual presidente, e se focassem realmente em governar o Barreiro. Deixaria, se pudesse, também o apelo ao presidente para que, caso deseje ficar na História do nosso concelho, tivesse a coragem de pensar a nossa cidade para os próximos 30 anos, revisse o PDM, com serenidade e com total abertura democrática e cívica, e que em vez de mais vídeos fizesse mais loteamentos. Para além disso, pediria ao vice-presidente, que há tempos escrevia no Público que “Sem uma estratégia pública robusta, o Barreiro corre o risco de se transformar apenas num território de pressão imobiliária pendular”, para que passe dos artigos aos atos. Pois, se é ele que detém o pelouro do “planeamento e gestão territorial” no nosso concelho, e se é o Frederico também presidente da Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal, então o que é que há de impeditivo para que se desenhe a tal “estratégia pública robusta” que o Barreiro necessita?
Pelos jovens, pelo Barreiro, peço-vos que façam mais e melhor.
Diogo de Oliveira Martins
Mestrando em Engenharia Aeronáutica
Post scriptum: Faz-me particular confusão o PDM não ser revisto desde 1994, porque se em 1994 estava a minha mãe a terminar o ensino secundário, hoje, eu, nascido em 2004, sou licenciado e encontro-me a frequentar o mestrado. Duas gerações, o mesmo PDM.
20.07.2026 - 11:49
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