opinião
Quando a confiança falha, todos chumbamos
Por Rui Pedro Pereira
Barreiro
Os exames nacionais representam muito mais do que um momento de avaliação. Para milhares de estudantes e respetivas famílias, constituem o culminar de anos de trabalho, dedicação e sacrifício. São também a porta de entrada para o ensino superior e, muitas vezes, para o projeto de vida que cada jovem construiu ao longo do seu percurso escolar.
É precisamente por isso que qualquer falha neste processo tem consequências que vão muito além da dimensão administrativa.
Infelizmente, foi isso que aconteceu.
A atuação do Sr Ministro da Educação Fernando Alexandre, revelou uma preocupante falta de coordenação política e institucional. O Ministro da Educação prestou declarações públicas que deixaram inúmeras dúvidas por esclarecer. Dias depois, o Secretário de Estado apresentou uma versão diferente dos acontecimentos, gerando a percepção de que nem dentro do próprio Ministério existia uma narrativa coerente sobre aquilo que efetivamente se passou.
Quando um Governo transmite informações contraditórias, instala-se a desconfiança. E quando essa desconfiança surge num processo tão sensível como o acesso ao ensino superior, os prejuízos são inevitáveis.
Uma das afirmações mais surpreendentes foi a do Ministro da Educação, ao referir que não teve acesso aos procedimentos adotados no ano anterior. Se assim foi, importa perguntar: como se altera tudo num modelo que influencia a vida de milhares de jovens sem antes conhecer profundamente o funcionamento do sistema existente? A experiência acumulada da Administração Pública existe precisamente para garantir continuidade, aprendizagem e melhoria. Reformar não significa começar do zero.
O problema, porém, não se limitou à gestão técnica do processo. Foi também uma questão de liderança política.
Ao longo desta crise assistimos a sucessivas tentativas de deslocar responsabilidades para terceiros. Os Pais, os professores, os auxiliares de educação e toda a comunidade escolar, incluindo as direções escolares que foram sendo envolvidos num discurso onde parecia existir sempre um responsável diferente, menos o próprio Ministério e o Sr Ministro. Entretanto, escolas reorganizaram serviços, trabalhadores alteraram férias e milhares de famílias viveram dias de enorme ansiedade.
Num Estado de direito democrático, governar significa assumir responsabilidades, sobretudo quando as decisões produzem consequências negativas. Os cidadãos não exigem governantes infalíveis. Exigem governantes capazes de reconhecer erros, corrigi-los e comunicar com transparência.
Essa transparência tornou-se hoje um valor político essencial.
Vivemos tempos em que a desinformação circula com enorme rapidez. Multiplicam-se conteúdos falsos nas redes sociais, notícias manipuladas e discursos que procuram desacreditar as instituições democráticas. A melhor resposta não passa por mais ruído, mas por mais Verdade.
Tenho defendido precisamente esse princípio na minha intervenção política. A experiência do Partido Socialista no Barreiro demonstra que é possível conquistar a confiança das pessoas falando com frontalidade, mesmo quando isso implica assumir decisões difíceis ou impopulares. A verdade pode, por vezes, ter um custo político imediato, mas é sempre o melhor investimento na confiança dos cidadãos.
Por isso, considero igualmente importante reconhecer a postura do Secretário-Geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, que tem assumido uma intervenção responsável, consistente e equilibrada perante este e outros dossiês que têm marcado a atual governação.
Mas o centro deste debate não são os partidos políticos.
São os Estudantes.
Esta geração ficará inevitavelmente marcada pelos acontecimentos deste ano. Muitos jovens prepararam-se durante anos para alcançar uma média que lhes permitisse entrar no curso desejado. Para alguns, uma décima pode fazer toda a diferença entre concretizar um sonho ou adiá-lo durante um ano.
É impossível ignorar o impacto psicológico desta situação. A ansiedade, a incerteza e a perda de confiança num sistema que deveria oferecer segurança são danos difíceis de quantificar.
Também importa olhar para todos aqueles que sustentam diariamente a escola pública. Professores, auxiliares de educação, assistentes operacionais e direções escolares foram novamente chamados a responder a uma crise que não provocaram, vendo alteradas férias, horários e planeamentos familiares para garantir que o sistema continuasse a funcionar.
A escola pública portuguesa conquistou, ao longo de décadas, um enorme prestígio. É um dos maiores instrumentos de igualdade de oportunidades que o país construiu depois do 25 de Abril. Precisamente por isso, qualquer decisão que fragilize a confiança no seu funcionamento deve preocupar todos os democratas, independentemente da sua filiação partidária.
A escola pública tem ainda uma missão que nunca podemos esquecer: não escolher os seus alunos pelo rendimento da família nem pela sua condição económica. Recebe todos por igual e oferece a cada um a oportunidade de construir o seu futuro através do conhecimento, do mérito e do trabalho. Foi um dos maiores elevadores sociais da democracia portuguesa, permitindo que milhares de jovens, independentemente da sua origem, chegassem à universidade e concretizassem projetos de vida que antes pareciam impossíveis. Defender a escola pública é, por isso, defender a igualdade de oportunidades e um dos maiores fatores de desenvolvimento e progresso de Portugal nas últimas décadas.
Não acredito que haja futuro para Portugal sem uma escola pública forte, credível e respeitada.
Quem hoje frequenta o ensino secundário não pode ficar conhecido como a geração que viu o seu percurso académico condicionado por falhas de organização e de liderança política. O Estado tem o dever de garantir que cada estudante seja avaliado com rigor, justiça e absoluta confiança no processo.
Ainda vamos falar durante muitos anos sobre aquilo que aconteceu neste acesso ao ensino superior. A verdadeira questão é saber se o Governo retira as devidas lições ou se tudo ficará reduzido a mais uma crise política ultrapassada pelo ciclo noticioso.
Porque quando a confiança no sistema educativo é colocada em causa, não são apenas os estudantes que ficam prejudicados.
É o próprio país que chumba.
Rui Pedro Pereira
Presidente do PS Barreiro
Vereador na Câmara Municipal do Barreiro
Trabalhador dos SMTCB
Filiado no STAL/CGTP-IN
27.07.2026 - 21:48
imprimir
PUB.
Pesquisar outras notícias no Google
A cópia, reprodução e redistribuição deste website para qualquer servidor que não seja o escolhido pelo seu propietário é expressamente proibida.
Fotografia e Textos: Jornal Rostos.
Copyright © 2002-2026 Todos os direitos reservados.
RSS
TWITTER
FACEBOOK