opinião
Lisboa Tem Duas Margens: Uma reflexão estratégica sobre o futuro da Área Metropolitana de Lisboa.
Por André Carmo
Barreiro
.«Quando fomos colocados perante este desafio, não nos apequenámos». Rui Miguel Braga, vice-presidente da Câmara Municipal do Barreiro e putativo candidato às eleições autárquicas de 2029, “escreveu” um livro. E isso é um acontecimento literário pois raramente um eleito no activo o faz.
Para além disso, é importante porque, mesmo depois de uma década de exercício de funções, continuamos sem saber o que pensa. Por isso, o objetivo é descobrir o pensamento deste edil, respondendo ao desafio por si lançado – “Espero que inspire ou que, pelo menos, suscite reflexão”. Vamos a isso.
Intitulado “Quando o mapa deixa de explicar o território”, o primeiro capítulo gravita em torno da seguinte ideia-força: “a forma como interpretamos um território condiciona inevitavelmente a forma como o planeamos, investimos nele e definimos as políticas públicas que orientam o seu desenvolvimento. Quanto utilizamos um modelo de interpretação desajustado da realidade, dificilmente conseguiremos produzir respostas adequadas aos desafios que essa realidade coloca”. Portanto, temos como trave-mestra desta obra uma banalidade. Isso não augura nada de bom mas, ainda assim, vale a pena continuar.
Logo a abrir, encontra-se uma das formulações mais vulgares desde que a inteligência artificial democratizou a preguiça meta-cognitiva: “A literatura sobre economia urbana, geografia económica e estudos metropolitanos tem demonstrado que as regiões mais competitivas deixam de depender exclusivamente da concentração de população ou de atividades económicas num único centro urbano”. Recorre-se a um argumento de autoridade, e isso é feito inúmeras vezes ao longo da obra, porque “a literatura demonstra”, ou seja, pretende-se que o leitor acredite no que está escrito sem que lhe seja dada qualquer possibilidade de ler a fonte original, impedindo-o de a poder contestar, problematizar, ou situar no seu contexto histórico, geográfico ou epistemológico. De resto, num livro que pretende apresentar uma reflexão fundamentada sobre a Área Metropolitana de Lisboa, não existe uma única fonte bibliográfica citada no corpo do texto. Notável exercício de superficialidade transcendental, uma ode à falta de integridade. Não surpreende mas, ainda assim, impressiona.
Mais do que rigor e evidência, privilegia-se um estilo profético assente em aforismos. Os exemplos abundam: “as infraestruturas criam possibilidades”, “o território mudou”, “não basta investir”, “o potencial existe”, “durante demasiado tempo discutimos projetos”, “talvez o seu maior desafio seja, simplesmente, começar a pensar-se como aquilo que já é”, “a geografia oferece oportunidades”, “a competitividade constrói-se em rede”, “não basta atrair investimento”, etc. É espantoso o volume de banalidades escritas por parágrafo2. Parafraseando um dos nossos poetas maiores, poder-se-ia dizer que se põe tudo quanto se é em tudo aquilo que se escreve.
No segundo capítulo, “As forças que moldam uma metrópole”, Rui Miguel Braga descobre que “a geografia continua a importar”. E isso comove e enternece. Por outro lado, causa estranheza, dado trata-se do mais acérrimo defensor da construção de uma luxuosa urbanização na Quinta do Braamcamp que, como é sabido, irá ceder, mais cedo ou mais tarde, à sua própria geografia. Dentro de algumas décadas, todos os modelos apontam para a subida do nível médio do mar e uma parte Braamcamp irá ficar submersa. Que o principal paladino desta solução urbanística escreva agora que “as grandes regiões metropolitanas continuam profundamente condicionadas pelas características físicas do território onde se desenvolvem”, é, no mínimo, um exercício de amnésia. Na pior das hipóteses, mera hipocrisia e cinismo.
E eis que chega o terceiro capítulo, “A década que pode mudar Lisboa”, onde se coloca a tónica na terceira travessia do Tejo e no “novo” aeroporto. Se, no que toca à primeira, se pode ler que “uma ponte não aproxima duas margens. Aproxima mercados. Aproxima talento. Aproxima investimento. Aproxima oportunidades”, e isso é tudo muito bonito porque ficamos todos mais próximos e a proximidade é muito linda, quanto a aeroportos, fica a saber-se que “são portas de entrada de investimento, turismo, talento, conhecimento e atividade empresarial”. No final do capítulo, o auto-denominado “Explicador” não resiste a incluir uma rubrica designada “para pensar” (não fosse alguém esquecer-se de o fazer), onde se pode ler: “as grandes infraestruturas não mudam, por si só, um território. Mudam a história quando deixam de ser obras isoladas e passam a fazer parte de uma visão comum de futuro”. Como diria Galileu, enquanto dava uma voltinha de roda gigante: ainda assim, ela move-se.
Intitulado “o diagnóstico”, o capítulo seguinte pretende ganhar contacto com “o que nos dizem a ciência e os especialistas”, isto é, perceber “como é que aqueles que estudam, planeiam e transformam o território interpretam o momento que a metrópole atravessa?”. Pelos vistos, até aqui não havia nem ciência nem especialistas e tudo não passava de um exercício de escrita criativa. Depois, sem que nada o fizesse prever, o leitor é metralhado pelo “name-dropping” e, em rápida sequência, Edward Glaeser demonstra, Michael Porter sublinha, Manuel Castells descreve e Michael Storper acrescenta. Ufa! Sem saber como nem porquê, entra-se numa espécie de beberete egocêntrico a surripiar croquetes com a fina-flor do pensamento territorial contemporâneo.
Mas as surpresas não ficam por aqui. Era o que faltava! Num sublime passe de magia, diz-se terem sido feitas entrevistas durante esta investigação e que os resultados até parecem ser interessantes. Mas nada é dito acerca da metodologia utilizada para o tratamento dos dados ou sequer daquilo que foi perguntado. Um enigma. Afinal, um mágico nunca revela os seus segredos. Por outro lado, o seu cuidado pedagógico é uma constante e isso vê-se quando ensina que “a metrópole já mudou”, “o território é mais importante do que cada infraestrutura”, “o planeamento continua a fazer a diferença”, “o verdadeiro risco não é construir”, “o consenso não elimina as diferenças. Torna-as mais claras”, “o desenvolvimento não pode ser apenas residencial”, e por aí afora. Entretanto, já Glaeser voltou a demonstrar e Porter a acrescentar. Mais adiante, num segmento designado “o ponto onde termina o diagnóstico”, revela-se a existência de “uma pergunta que atravessou silenciosamente todos os capítulos anteriores”. Isto já não é bem um livro; é um estojo de magia.
No quinto capítulo, coloca-se uma pergunta que inquieta: “Portugal pode voltar a ser a porta atlântica da Europa?”. Por momentos, até parece que se vai embarcar numa caravela rumo a um tempo onde a gloriosa gesta dos Descobrimentos deu novos mundos ao mundo. Mas afinal não; fala-se de comboios de alta velocidade e do porto de Sines. Depois, faz-se um InterRail porque a “a verdadeira concorrência de Sines não é Lisboa. Nem Leixões. Nem Setúbal. A verdadeira concorrência chama-se Roterdão. Antuérpia. Hamburgo. Valência. Algeciras (…) A verdadeira concorrência [de Portugal] situa-se nos grandes corredores logísticos europeus. Roterdão. Antuérpia-Bruges. Hamburgo. Valência. Algeciras (…) Foi assim em Londres. Foi assim em Paris. Foi assim em Frankfurt. Foi assim em Roterdão”. A dada altura, porém, o Willy Fog que criou esta obra-prima da rima emparelhada lembra-se de regressar à base e perguntar “que papel deverá desempenhar o Barreiro na nova geografia económica da Península Ibérica?”. Mas seria ingénuo pensar que Lisboa Tem Duas Margens responde a alguma coisa. Isso nunca acontece. Serve, sobretudo, para explicar a qualquer leitor porque é que nunca faz a pergunta certa, porque é que nunca está a olhar para o momento onde tudo se torna decisivo ou crítico, porque é que negligencia aquilo que é verdadeiramente importante e porque é que nunca estabelece as relações necessárias. Tudo muito modernaço, tudo muito artificialmente inteligente.
No capítulo seguinte, “O maior bloqueio ao desenvolvimento”, fica ainda a saber-se, na esteira de um qualquer podcast de Gustavo Santos, que “o sucesso também cria problemas”, “porque nenhuma economia cresce apenas com investimento. Cresce com pessoas. São elas que investigam. Que empreendem. Que ensinam. Que cuidam. Quem produzem. Que inovam”. Parece que, afinal, o melhor do mundo já não são as crianças mas sim as pessoas. Um hino ao vazio.
Depois, nesta magnum opus, galopa-se para uma “reflexão” sobre habitação e financiamento, apresentando-se como solução original, pasme-se! uma “terceira via”. Com paciente sageza, explica-se que “em vez de concentrar os recursos públicos na construção, o Estado poderá concentrá-los na criação de condições que permitam mobilizar capital privado para objetivos públicos”. Num país com menos de 2% de habitação pública, o que o Estado tem de fazer é reduzir-se à condição de regulador e deixar o privado fazer aquilo que, nas palavras do autor, sempre fez bem: “projetar. Construir. Gerir. Inovar”. Notável. Como é que nunca ninguém pensou nisto!? Felizmente, no Barreiro, temos o privilégio de poder contar com genialidade financeira de elevado calibre.
E ao sétimo capítulo – “A liderança que ainda não existe” – o livro acaba e fica a saber-se que “a Área Metropolitana precisa de um projeto” porque “cresceu mas raramente foi pensada”. Mas não há nada a temer, Lisboa Tem Duas Margens foi escrito para nos salvar. Ao cair do pano, melancolicamente, assegura-se que “ao longo destas páginas procurámos responder a muitas questões”. Só que não. Não é possível encontrar nenhuma resposta e nem sequer se pode dizer que isso diminua a qualidade geral da obra. Pelo contrário, é até reconfortante. Porque há coisas que permanecem sempre iguais, perenes, imutáveis. Com, por exemplo, a robustez de um calhau.
Lisboa Tem Duas Margens é um livro medíocre, onde nenhum argumento é desenvolvido e tudo é trivial. Um exercício de narcisismo e indigência intelectual que revela uma compreensão paupérrima daquilo que se propõe explicar, numa magistral demonstração de atrevimento da ignorância. Um insulto primário à inteligência de qualquer leitor. Isto não é um livro para ser lido, apenas para ter sido escrito. Não cumpre critérios mínimos de qualidade enquanto trabalho de investigação e, enquanto manual de auto-ajuda, seria preferível ler a obra completa de Dale Carnegie. Apesar disso, apresenta vantagens para o leitor que se encontra agora de férias. É um conjunto de folhas tão desorganizado, ilógico e confuso que se pode começar a ler em qualquer página e, eventualmente, até da direita para a esquerda ou de pernas para o ar. Aprende-se o mesmo, isto é, nada. É um desperdício de papel.
O problema maior é o facto de esta incompreensível sopa de letras ter sido produzida pelo actual vice-presidente da Câmara Municipal do Barreiro, principal responsável pelas suas políticas de base territorial. Tudo espremido, uma mão cheia de nada. Infelizmente, sendo válido o Princípio de Peter, o céu é o limite!
André Carmo
Deputado municipal eleito pela CDU Barreiro (2021-2025)
31.07.2026 - 13:27
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