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CIDADE SEGURA
Por Paulo Margalhau
Barreiro

CIDADE SEGURA<br />
Por Paulo Margalhau<br />
Barreiro Durante algumas semanas, tenho vivido numa cidade onde a segurança ocupa uma parte significativa do quotidiano. A presença policial é ostensiva, os edifícios dispõem de porteiros e vigilantes, os acessos são controlados, os muros são altos e a videovigilância está presente em todo o lado, inclusive em cada esquina da cidade.

Entrar num condomínio, num prédio de escritórios ou num estabelecimento comercial implica frequentemente identificação e autorização. No entanto, apesar de todos estes meios, o sentimento de insegurança permanece profundamente instalado nas pessoas.

Não pretendo transpor esta realidade para o Barreiro, porque as condições sociais e os níveis de criminalidade não são comparáveis. A experiência permite, contudo, compreender uma diferença essencial. Segurança e perceção de segurança não são exatamente a mesma coisa. Uma cidade pode reforçar os seus meios policiais e tecnológicos sem conseguir reduzir, na mesma proporção, o medo sentido pelos seus habitantes.

A insegurança tem uma dimensão objetiva, que pode ser medida através do número, da natureza e da localização dos crimes. Mas tem também uma dimensão emocional, construída a partir daquilo que vemos, ouvimos, recordamos e partilhamos. Um crime ocorrido perto de casa altera mais a nossa perceção do risco do que muitos meses durante os quais nada aconteceu. Um episódio particularmente grave pode ser rapidamente extrapolado para um bairro inteiro e, depois, para toda a cidade.

Este mecanismo é humano e compreensível. Não avaliamos diariamente os riscos através de estatísticas. Avaliamo-los através das histórias que ouvimos, das imagens que vemos e das experiências das pessoas em quem confiamos. Quando uma comunidade começa a falar repetidamente de insegurança, cada novo acontecimento passa a confirmar uma convicção que já estava formada. A preocupação transforma-se em ansiedade e a ansiedade começa a condicionar a forma como utilizamos a rua, os transportes, os jardins e os espaços públicos, fenómeno que as redes sociais vieram intensificar significativamente.

É neste ponto que a insegurança deixa de ser apenas uma questão policial e passa a ser também uma questão social e política. O medo mobiliza, simplifica a leitura da realidade e cria a necessidade de respostas imediatas. Perante uma população preocupada, torna-se tentador apresentar soluções facilmente reconhecíveis. Mais polícia nas ruas, mais câmaras, penas mais pesadas e maior controlo.

Algumas destas medidas são necessárias. Uma sociedade democrática precisa de forças de segurança eficazes, de capacidade de investigação, de meios tecnológicos adequados e de uma justiça capaz de responsabilizar quem pratica crimes. A videovigilância pode ser útil em locais devidamente identificados, tal como o policiamento de proximidade pode prevenir situações de risco e reforçar a relação com a população.

O problema surge quando estas medidas deixam de integrar uma estratégia mais ampla e passam a constituir, por si só, a política de segurança. A presença ostensiva pode transmitir uma sensação inicial de proteção, mas também pode recordar permanentemente às pessoas que existe alguma coisa de que se devem defender. Uma câmara pode ajudar a esclarecer um crime, mas não elimina as condições sociais que contribuíram para que ele acontecesse. Uma pena mais pesada pode satisfazer uma exigência imediata de punição, mas não substitui a prevenção nem garante, isoladamente, uma menor reincidência.

Podemos instalar mais câmaras e continuar a ter jovens sem perspetivas. Podemos aumentar o policiamento e continuar a ter bairros onde as pessoas não se conhecem. Podemos elevar muros, restringir acessos e multiplicar mecanismos de controlo, descobrindo depois que construímos uma cidade onde todos se protegem de todos.

A resposta à insegurança depende também da confiança nas instituições. Quando a polícia, a justiça, a escola e o poder público são reconhecidos como competentes, próximos e imparciais, os cidadãos aceitam que os conflitos sejam resolvidos através de regras comuns. Quando essa confiança se perde, cresce a tentação do justiceirismo e torna-se mais fácil transformar o medo num instrumento político, substituindo problemas complexos por culpados imediatos e soluções aparentemente simples.

Uma cidade segura necessita naturalmente de polícia e de justiça, mas precisa igualmente de escolas capazes de acompanhar os seus alunos, associações abertas, clubes ativos, bibliotecas frequentadas, cultura, desporto e espaços públicos utilizados. Precisa de pessoas que se conheçam, que reconheçam os vizinhos e que sintam que fazem parte da comunidade onde vivem.

A segurança também se constrói através de objetivos comuns. Quando pessoas de idades, origens e condições económicas diferentes participam nos mesmos projetos, a desconfiança perde espaço. Uma criança que pratica desporto com outras crianças, um jovem que participa numa associação, uma família que utiliza regularmente um jardim e um idoso que conhece os comerciantes da sua rua integram redes informais de proximidade e cuidado que nenhuma câmara consegue substituir.

É neste sentido que a equidade constitui também uma política de segurança. A pobreza não determina a criminalidade e qualquer associação automática entre ambas seria injusta. No entanto, o abandono escolar, a exclusão, a ausência de perspetivas e a sensação de não pertença aumentam a vulnerabilidade das pessoas e das comunidades. Uma cidade profundamente desigual terá sempre maior dificuldade em construir confiança.

Também a empatia social nasce da convivência. Não resulta de campanhas ocasionais nem pode ser decretada. Desenvolve-se quando as pessoas partilham espaços, colaboram e percebem que os problemas dos outros não lhes são completamente estranhos.

O espaço público tem, neste contexto, uma importância central. Uma praça ocupada, um jardim utilizado, uma rua com comércio, uma biblioteca frequentada e uma coletividade ativa criam presença humana e sentimento de pertença. Não se trata de transformar cada cidadão num vigilante, mas de construir lugares onde as pessoas não sejam indiferentes ao que acontece à sua volta.

O Barreiro deve discutir a segurança com seriedade, conhecer os seus indicadores, identificar os problemas concretos e reforçar os meios sempre que estes sejam necessários. Ignorar acontecimentos reais seria tão errado como utilizar episódios isolados para criar a imagem de uma cidade dominada pelo crime.

A prevenção é menos visível e politicamente menos imediata. Os seus resultados surgem lentamente, por vezes apenas décadas depois das primeiras decisões. Exige continuidade, avaliação e capacidade para trabalhar para além dos calendários eleitorais. Mas é precisamente essa diferença que separa uma medida de segurança de uma verdadeira estratégia de cidade.

A cidade mais segura não será necessariamente aquela onde existe uma câmara em cada esquina. Será aquela onde as pessoas continuam a sentir que essa esquina também lhes pertence.

2026, Paulo Margalhau

24.08.2026 - 23:48

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