opinião

Quando Senna se esqueceu de si próprio
Por Cláudio Anaia
Barreiro

Quando Senna se esqueceu de si próprio<br />
Por Cláudio Anaia<br />
Barreiro Nem todas as conquistas cabem em troféus, as maiores acontecem quando deixamos de ser o centro da nossa própria história. Ainda sou do tempo em que havia apenas dois canais de televisão: a RTP 1 e a RTP 2. Não havia centenas de canais, plataformas de streaming, redes sociais ou telemóveis capazes de nos trazer o mundo inteiro para a palma da mão.

Havia muito menos para ver e talvez, precisamente por isso, aquilo que víamos ficasse guardado de forma mais profunda.
Quando era criança e adolescente, uma das coisas que me prendia ao ecrã era a Fórmula 1. Esperava pelos Grandes Prémios, vibrava com as ultrapassagens, sofria com os acidentes e, como tantos outros da minha geração, tinha o meu piloto preferido: Ayrton Senna.

Durante anos, guardei a memória das suas vitórias, dos campeonatos e daquela forma extraordinária de conduzir. Mas hoje percebo que a imagem que mais marcou a minha memória não foi a de uma vitória. Foi a de uma paragem.
Spa-Francorchamps, 1992. Érik Comas tinha sofrido um violento acidente e encontrava-se inconsciente dentro do seu monolugar.

Senna aproximou-se e, perante aquele cenário devastador, fez o impensável, travou o carro em plena pista, saltou do cockpit e correu entre os outros monolugares em alta velocidade. Desligou o motor do carro acidentado para evitar uma explosão e segurou com firmeza a cabeça de Comas, mantendo as suas vias respiratórias desimpedidas até à chegada da assistência médica.
Érik Comas viria a dizer que Senna lhe salvou a vida. Mas o que mais me marcou não foi apenas o gesto de coragem, foi a razão pela qual ele parou. Naquele instante, Senna deixou de lado tudo o que o definia como piloto. Esqueceu a corrida, os pontos, o campeonato, os adversários e a classificação. Por alguns momentos, deixou de ser o campeão do mundo para ser simplesmente um homem perante outro homem em perigo.

Senna não parou para aparecer. Não havia redes sociais para colecionar gostos, equipas de comunicação a preparar discursos ou câmaras transformadas em instrumentos de autopromoção. Havia apenas uma pessoa a precisar de ajuda e outra que decidiu agir. E isso bastou.
É aqui que aquele episódio se cruza com o tempo em que vivemos.
A nossa sociedade tornou-se cada vez mais centrada no indivíduo. O “eu” ganhou um espaço enorme na forma como nos apresentamos e nos relacionamos. Importa o que temos, o que fazemos, onde estamos e como somos vistos. Até a solidariedade corre o risco de se transformar numa extensão dessa necessidade de reconhecimento, a boa ação parece só ganhar valor se for fotografada, publicada e validada pelos outros.

As redes sociais amplificaram este fenómeno. Nunca tivemos tantas possibilidades de comunicar e, no entanto, raramente estivemos tão desatentos a quem está ao nosso lado. Podemos acompanhar acontecimentos do outro lado do mundo em tempo real e, ao mesmo tempo, passar por alguém que sofre sem sequer perguntar se precisa de ajuda. Por vezes, antes de estender a mão, o impulso é levantar o telemóvel para filmar.

Não é a tecnologia que me incomoda, ela trouxe-nos possibilidades extraordinárias. O que me inquieta é a tendência para transformar tudo em espetáculo, incluindo aquilo que deveria permanecer apenas como um gesto humano.
É por isso que a atitude de Senna me parece hoje ainda mais simbólica. Num circuito construído para a velocidade e para a vitória, ele fez uma escolha que nada tinha a ver com vencer. Não pensou na posição que ocupava nem no que poderia perder. Interrompeu a sua própria trajetória para salvar alguém.

Pode parecer um gesto simples, mas não é. É cada vez mais difícil abrandar numa sociedade que nos empurra para a frente, a competir, a produzir e a chegar primeiro.
Não acredito que a solução passe por rejeitar o presente ou idealizar o passado, hoje temos acesso a um conhecimento e a ferramentas que a minha geração nem imaginava. A questão é outra: será que o progresso técnico e material foi acompanhado por um progresso interior? Uma sociedade desenvolvida não é apenas aquela em que cada indivíduo consegue chegar mais longe, mas também aquela em que ninguém é deixado para trás.

Ayrton Senna conquistou três campeonatos do mundo, mas aquela imagem em Spa-Francorchamps continua a ser uma das suas maiores conquistas. Uma vitória sem troféu, sem pontos e sem registo nas estatísticas, a vitória de um homem que, em plena corrida, se esqueceu de si próprio para acudir a quem precisava.
Numa época dominada pelo culto do "eu", a maior lição de Senna, seja mesmo esta: não perder de vista o valor sagrado do "outro".

Cláudio Anaia
Militante da Justiça e Direitos Humanos

31.08.2026 - 11:44

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2026 Todos os direitos reservados.