associativismo
Barreiro – Casa dos Rapazes em Santo André
Uma instituição com sessenta anos
A instituição de solidariedade social conta já com sessenta anos de vida e mantém-se como uma referência em Santo André.Há que recuar quase um século para se perceber o contexto da fundação da Casa dos Rapazes no Barreiro.
A história desta instituição é bastante rica, e só por isso mereceria uma investigação de peso. Explicá-la em poucas palavras acaba por ser algo injusto, e arrisco-me a isso. A existência de grupos de crianças e jovens em situação de exclusão a vaguear pelas ruas foi sempre um problema que se arrastava desde longa data. Já no século XX o regime republicano português procurou resolvê-lo, lançando várias iniciativas para abrandar esses ritmos de deambulação juvenil. Mesmo assim foi pouco. O tempo passou, e somente no decurso da Segunda Guerra Mundial, quando por toda a Europa se viviam tempos de escassez alimentária e índices alarmantes de desemprego, o padre Américo (1887-1956) lançara os alicerces da “Obra da Rua” materializando-os nas “Casas do Gaiato” em 1940 na cidade de Coimbra. Esta experiência-piloto seria o ponto zero para outras iniciativas semelhantes um pouco por todo o país, e umas com mais impacto que outras, mas todas com o objetivo de transformar esses jovens pobres em cidadãos com direito a uma profissão que lhes permitisse uma emancipação com dignidade.
O Barreiro não seria uma exceção a esse panorama desumano, e a ocasião aconteceu na década de 1960. Foram anos marcados pelas cicatrizes da Guerra Colonial, do silencioso consumo de droga, e em que cada vez mais se observava jovens a mendigarem pelas ruas do Barreiro. Foi nesse contexto que o padre Fernando Sousa tomou a iniciativa de avançar com um projeto em tudo semelhante às Casas do Gaiato. Seria algo único no concelho. Ainda se sabe pouco de como tudo começou, qual o envolvimento efetivo do município neste projeto, ou até qual o impacto que a obra teve nos concelhos vizinhos. No entanto, foi uma ideia que suscitou interesse na imprensa local, e mesmo sob a censura do lápis azul, o histórico Jornal do Barreiro dedicou-lhe vários artigos. Folheando essas páginas poderemos saber que no Verão de 1965 o perímetro a construir entre a Quinta da Maceda (hoje Parque da Cidade) e as Quintas da Lomba e Nova da Telha começou a ser delineado. A Companhia União Fabril e o empresário José Maria Duarte Júnior doaram algumas parcelas de terreno para que a obra chegasse a bom porto, e assim ficou decidido a localização definitiva do edifício atual. Pouco depois seriam preenchidos os requerimentos necessários para a mesma, e oficialmente a Casa dos Rapazes seria constituída como associação no dia 01 de janeiro de 1966 pelo Governo Civil de Setúbal.
Apesar da benevolência social, a instituição sempre viveu com níveis financeiros regulares, sobrevivendo através de atividades de angariação de fundos que lhe permitiam alguma estabilidade pontual. As célebres festas e bailes de Carnaval e Santos Populares acabaram por ser uma fonte de ingressos bastante útil para a manutenção da pedagogia profissional e respaldo quotidiano dos jovens carenciados. Talvez isso também explique parcialmente a célebre resistência de 1973, quando a empresa Granadeiro propôs a construção de um grande paiol de pólvora na Quinta da Maceda, gerando um receio silencioso na população do hoje Bairro 25 de Abril. Mas o pior de tudo, e caso algo corresse mal, as primeiras vítimas seriam os rapazes da casa. Veio o 25 de abril, o assunto adormeceu, e seria definitivamente encerrado nos finais de 1974.
Em 1977 fechou-se um ciclo e iniciou-se outro. O padre Fernando saiu e fora substituído pelo padre Armando Azevedo. Algumas obras foram acabadas, como a construção dos dormitórios, e ao longo dos anos foram abraçados outros projetos sociais externos e anexados à Casa dos Rapazes, como as aulas de Karaté, as Atividades de Tempo Livre para crianças do 1º ciclo, o Centro de Formação Profissional com fundos da Comunidade Económica Europeia, entre outros. Os ciclos continuaram, e ainda continuam, pois o mundo não pára.
A data do assentamento da primeira pedra talvez tenha sido em abril de 1966. Talvez, não se sabe ao certo, e a dúvida ficará para ser resolvida no futuro. De momento fiquemos com a generosidade de felicitar a Casa dos Rapazes pelos sessenta anos de vida, assim como a todos aqueles e aquelas que pugnaram e pugnam todos os dias do ano pelo seu útil serviço à sociedade. Haveria muito mais para se dizer, é certo, muito mesmo, porque foi e é uma instituição que marcou várias gerações de jovens que por ali passaram, e um marco histórico da freguesia de Santo André.
Gonçalo Brito Graça
Foto: Jornal do Barreiro, 06 abril 1967
18.04.2026 - 06:28
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