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Conferência no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro
Inscrever as Bandas Filarmónicas como Património Imaterial da Humanidade

Conferência no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro<br />
Inscrever as Bandas Filarmónicas como Património Imaterial da Humanidade Realizou-se na passada sexta-feira, 23 de Outubro, uma conferência na Biblioteca Municipal do Barreiro, subordinada ao tema Bandas filarmónicas: um património onde o local se cruza com o global, tendo como orador convidado o Antropólogo Paulo Lima.

O orador esclareceu que a candidatura que estava ali em apreço na sessão tinha por fim dar visibilidade a uma instituição de uma importância maior, possuidora de uma história incontornável, através da qual a música e a sociedade se tornaram indissociáveis.

Inscrever as Bandas Filarmónicas como Património Imaterial da Humanidade
Conferência no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro

Realizou-se na passada sexta-feira, 23 de Outubro corrente, pelas 21h30, uma conferência na Biblioteca Municipal do Barreiro, subordinada ao tema Bandas filarmónicas: um património onde o local se cruza com o global, tendo como orador convidado o Antropólogo Dr. Paulo Lima.

Paulo Lima é uma autoridade em preservação e transmissão do património histórico popular. Por isso é já apelidado “o nosso homem da Unesco”. A sua formação em Antropologia favorece a sua predilecção pelo trabalho de campo, a proximidade com as pessoas, estas, afinal, objecto de toda

a sua rica e intensa actividade. Sem prejuízo, obviamente, do trabalho silencioso de gabinete, vasculhando arquivos e pesquisando informação nas fontes. Integrou activamente as comissões que levaram a UNESCO a inscrever o Fado, O Cante Alentejano, A Arte Chocalheira e a Morna cabo-verdiana como Património Imaterial da Humanidade. Trabalha actualmente para o mesmo fim relativamente à materialização de um “Plano de Salvaguarda” das Bandas Filarmónicas, no âmbito geográfico de dois países, Portugal e Cabo Verde, tendo como promotores o Município de Alcácer do Sal e a Fundação INATEL.

Paulo Lima tem 54 anos, nasceu em Sines, passou a sua meninice e juventude em Portel, no Alentejo, e residiu nos anos 80, bem próximo do Barreiro, na cidade de Setúbal. Reparte hoje, predominantemente, a sua frenética e errante actividade por todo o país e, particularmente, entre Alcáçovas, no Alentejo, e Alcobaça, no Distrito de Leiria, localidades onde possui residência. É autor de uma já vasta obra, com especial realce para o volume monumental O Fado Operário no Alentejo /Séculos XIX e XX, com produção editorial da TRADISOM, em 2004, liderada pelo Editor José Moças, e a Filmografia Completa de Michel Giacometti, da qual foi responsável pela respectiva edição.

Esta conferência foi organizada pela associação informal VULTOS DA NOSSA TERRA com a colaboração activa do departamento de Cultura da Câmara Municipal do Barreiro. Na Mesa da Conferência estiveram, Luís Victorio, a presidir, o orador convidado, Paulo Lima, e Carlos Bicas, da VULTOS.

Abriu a sessão, Luís Victorio que anunciou, em breves palavras, os motivos que tinham levado a VULTOS DA NOSSA TERRA a convidar o Dr. Paulo Lima para nos visitar com um programa intenso, de dia inteiro, cujo roteiro foi o seguinte: partilha, durante a manhã e tarde do dia 23 de Outubro de 2020, de uma visita guiada à Biblioteca Municipal do Barreiro, onde, em particular, lhe foi mostrada pela Dr.ª Jocélia Gomes a colecção dos espécimes reservados respeitantes ao Barreiro, seguindo-se depois uma visita ao Barreiro Industrial, através de um périplo pelas áreas urbanas marcadas pelas diferentes idades industriais do Concelho, e ao Barreiro Antigo, com passagem pelas principais colectividades do casco histórico da cidade, “Os Franceses”, onde foi recebido pela Vice-Presidente da Direcção Isabel Silva e por Florinda Silva, e “Penicheiros”, onde foi recebido pelo Presidente da Direcção Eng.º Carlos Antunes, dado terem existido em actividade em ambas as colectividade, no passado, conjuntamente com uma outra banda filarmónica excepcional, a da SFAL, do Lavradio, algumas das melhores Bandas Filarmónicas do País; e proferir, à noite, uma conferência sobre o projecto que tem actualmente em desenvolvimento de candidatura da inscrição das Bandas Filarmónicas a Património Imaterial da Humanidade. Projecto relativamente ao qual o Barreiro, com as suas ricas e diversificadas tradições associativas e musicais, não poderia ficar insensível e, por conseguinte, deixá-lo passar ao lado. Fez seguidamente uma breve resenha da actividade que a VULTOS tem vindo a desenvolver, no presente, tendo como fim a recuperação da Memória histórica de alguns dos mais ilustres cidadãos do Barreiro e do contributo, em exemplaridade de conduta e entrega aos outros, que estes deram ao Barreiro, terra que tem sido marcada, nas vicissitudes da História, pelo anseio de Liberdade, defesa da Cidadania e pelos superiores valores humanistas da Solidariedade.

O orador convidado, no uso da palavra, começou por salientar que uma candidatura a Património Imaterial da Humanidade não tem por intenção acrescentar valor ao objecto alvo da pretensão da sua inscrição na lista da UNESCO. “O que se pretende, efectivamente, afirmou, é o desenho de uma estratégia que culmine num “plano de salvaguarda”, que contemple: a sua manutenção; conservação; transmissão sem perda de valor; e sustentabilidade”.

No que respeita às Bandas Filarmónicas, o orador referiu, ao analisar e cruzar a informação disponível, que lhe foi possível concluir pela existência actualmente em Portugal de cerca de 600 bandas activas. Na Ilha da Madeira existem algumas dezenas. No Açores, porém, o movimento filarmónico tem uma grande expressão numérica: existem cerca de 100 bandas. A região de Aveiro é a zona do País onde o movimento filarmónico tem maior pujança. “Se tivermos em conta”, acrescentou o orador, “o número de executantes, os sócios das agremiações, os corpos directivos e outros protagonistas associados à actividade das bandas, somos forçados a concluir que o movimento filarmónico tem uma representação demográfica muito expressiva: da ordem das 100.000 pessoas. Do ponto de vista geográfico, a mancha de distribuição actual mais significativa e densa das Bandas Filarmónicas no Continente é de Alcácer do Sal para cima e no Litoral Norte e Centro. No Algarve há poucas Bandas. E no Alentejo não é muito expressivo o número de bandas.”

“As Bandas Filarmónicas”, continuou o orador, “tiveram a sua grande expansão em Portugal no século XIX, a partir do fim do fim das guerras civis entre liberais e absolutistas, sobretudo a partir da Regeneração. De há 50 ou 60 anos a esta parte, as bandas foram objecto de alterações profundas. A sociedade e a economia mudaram e as bandas filarmónicas não poderiam ficar imunes ao impacte dessas transformações, a saber: a igualdade de género chegou a um universo até então só habitado e dominado por homens (existem bandas com equilíbrio na sua composição entre homens e mulheres); o ferreiro e o sapateiro, ou seja, os operários, já não são predominantes na composição das bandas (hoje os músicos filarmónicos são, em geral, jovens com formação superior em Música); a antiga delimitação geográfica de recrutamentos de músicos para o corpo das bandas deixou de existir (hoje os membros das bandas filarmónicas são oriundos e residentes em localidades geograficamente por vezes muito afastadas do lugar sede e de ensaio da banda a que pertencem); assim como a mobilidade é hoje muitíssimo maior: há músicos que integram, num dia, uma Banda Filarmónica que actua numa pequena localidade e no dia seguinte rumam a Berlim para tocarem numa orquestra sinfónica (reflexo da profissionalização dos jovens músicos actuais); e a antiga fidelidade à “sua” filarmónica, e por acréscimo ao simbolismo sectário e às rivalidades locais, que essa lealdade então significava, não faz hoje sentido: há, por outro lado, hoje, músicos que por razões de sobrevivência económica tocam em várias bandas. Portanto, muito coisa mudou ou está em mudança”.

Paulo Lima destacou ainda a importância que a genealogia tem na relação de transmissão e continuidade do movimento filarmónico: é muitíssimo frequente encontrarem-se músicos pertencentes a árvores genealógicas de famílias com ligações profundas ao movimento filarmónico. É uma chama que atravessa gerações de avós para pais e de pais para filhos e que adicionalmente arrasta outros elementos da mesma família.
“Todavia”, alertou o orador, “actualmente, um músico já não aceita um instrumento qualquer para tocar numa banda. E os instrumentos são muito caros. As partituras igualmente, sobretudo se forem encomendadas obras originais. Tal como a manutenção dos instrumentos. Por isso, há bandas que não fazem serviços por menos de 10.000, 00 €, embora existam outras, mais modestas, que o fazem por 300,00 €. Há bandas que só actuam localmente. Em contrapartida, há outras que vão a concursos internacionais. Como se pode constatar, o panorama é muito diverso. No que respeita às deslocações das bandas, haverá que ter em conta que ao tempo dispendido e os encargos suportados pelos músicos com os serviços se deverão acrescentar os relativos às deslocações para ensaios. Existem diversas modalidades de transporte das bandas: em alguns caso os elementos da banda transportam-se por grupos em carros dos próprios. Noutros casos, as autarquias facilitam, e reduzem custos de deslocação das bandas, oferecendo um plafond limite de, por exemplo, 2.000 km em transporte colectivo para a comitiva da banda.

Um outro factor de perturbação adicional, numa época em que o financiamento da actividade das bandas filarmónicas é limitado, é a concorrência que grupos informais de músicos, alguns destes membros de Bandas Filarmónicas, fazem às próprias bandas. Estes agrupamentos informais, ou minibandas, de músicos não têm, em geral, encargos com instalações, electricidade, água, pagamento dos honorários do maestro, apoio de secretariado, manutenção do instrumento, etc., podendo assim baixar consideravelmente os preços dos serviços. Estas minibandas parece começarem a ter alguma expressão orgânica, dado que reuniram recentemente em Penacova num encontro de modalidade. Fazem arruadas, serviços religiosos e bailes pela reduzida quantia de 400,00 €”.

“ Algo imutável”, acrescentou o orador, “é, contudo, a importância das instalações físicas, das sedes, das bandas e a relevância dos coretos como representação icónica de uma arquitectura e de uma forma de expressão musical que teve, e continua a ter, a rua, o ar livre, como meio privilegiado de manifestação e animação. Não é, por vezes, relevante se as instalações são modernas, generosas, antigas ou acanhadas: em Moção, acrescentou o orador, tive oportunidade de constatar que a banda que tinha as instalações mais modernas não era a que tinha maior número de músicos na sua composição; uma outra, com instalações que poderemos considerar precárias contava com cerca 90 de músicos! Todavia, não podemos minimizar a importância fundamental de um lugar físico permanente e fixo de sedição das bandas. Por seu turno, os coretos não estão adaptados à dimensão e necessidades actuais de espaço requerido pelas bandas filarmónicas. Não obstante, têm sido desenvolvidas pelas Câmaras Municipais soluções muito criativas que passam pela ampliação da plataforma de actuação ou a construção de estruturas amovíveis, facilmente transportáveis de um sítio para outro, até mesmo para poderem dar corpo ao despique entre bandas”.

Paulo Lima, a propósito dos coretos, resolveu partilhar com a audiência um episódio, ocorrido em Alcáçovas, o qual, afirmou, muito o sensibilizou. Por ocasião do aniversário da inauguração do coreto local, executado em 1930 por mestres ferreiros de Alcáçovas, foi interpelado por gente da terra que lhe pediu para os ajudar numa homenagem a algo que, em princípio, lhe pareceria inesperado: pretendiam homenagear… os ferreiros locais construtores do coreto! E assim, conjuntamente com a banda de Setúbal, convidada para o evento, a homenagem realizou-se com a actuação animada das duas Bandas Filarmónicas (de Alcáçovas e Setúbal) “.

“Uma palavra sobre os arquivos das bandas”, prosseguiu o orador, “ou são inexistentes, ou maltratados, ou não se sabe onde param. Trata-se, por um lado, de um instrumento importante de identidade e de informação sobre a vida e a memória das bandas e, por outro lado, de uma ferramenta de trabalho para os investigadores tornando-se, por conseguinte, necessário encontrar para eles uma estratégia para a sua classificação, manutenção e conservação”.

“Nunca será demais realçar”, acrescentou Paulo Lima quase a terminar a sua primeira intervenção, “o importante papel que as escolas de músicas têm na renovação geracional das bandas e no aprimoramento permanente dos seus músicos”.
Paulo Lima chamou, mais adiante, a atenção para o facto de o INATEL se encontrar hoje, por razões de incapacidade orçamental, impossibilitado de financiar o movimento filarmónico e, consequentemente, por recaírem sobre as Câmaras Municipais quase exclusivamente os encargos financeiros que têm permitido que as Bandas Filarmónicas se mantenham vivas.

Ao terminar a sua primeira intervenção, o orador esclareceu que a candidatura que estava ali em apreço na sessão tinha por fim dar visibilidade a uma instituição de uma importância maior, possuidora de uma história incontornável, através da qual a música e a sociedade se tornaram indissociáveis, produto, antes de mais, da generosa contribuição de várias gerações que com amor e partilha se empenharam na construção conjunta de uma vida melhor e mais feliz. Fez notar que num projecto desta natureza é incontornável o trabalho de campo, a audição directa das pessoas, a auscultação de sensibilidades, condição para um diagnóstico correcto do objecto que se está a ser tratado, em prejuízo de ideias pré-concebidas.

Dada a palavra à assistência, interveio o Presidente da Banda Municipal do Barreiro, Paulo Madrugo, que traçou, em linhas gerais o panorama da banda municipal. Paulo Madrugo revelou ser neto e bisneto de músicos, ter um irmão na banda e por lá andarem mais 6 ou 7 familiares seus…. Afirmou, a propósito, ter a pretensão de trazer para a banda elementos de outras famílias, à semelhança do que acontece com a sua. A banda municipal tem uma composição na qual o número de mulheres é igual ao dos homens.

Como ambição, sublinhou Paulo Madrugo, a banda tem no futuro próximo a intenção de criar parcerias com outras entidades com o objectivo de chamar a ela novos músicos, criar laços mais sólidos e estreitos com as populações e famílias locais e desenvolver estratégias de dinamização que se contraponham ao domínio que as novas tecnologias têm actualmente sobre as pessoas, retendo-as em casa e inibindo-as de saírem para a rua assistir a, por exemplo, um concerto ao ar livre proporcionado por uma banda num coreto ou num outro espaço apropriada. No plano das dificuldades, segundo Paulo Madrugo, a banda carece de recursos financeiros que lhe permita ter uma sede própria e estável (ensaia actualmente em instalações cedidas pelo Luso Futebol Clube), o IVA de aquisição dos instrumentos continua a ser elevado e o preço dos instrumentos é quase incomportável (um bombardino custa, por exemplo, cerca de 3.000,00/4.000,00 €; um saxofone 2.000,00 €; e um clarinete 1.000,00 €), tal como os elevados custos da sua manutenção. O financiamento da banda, é actualmente garantido por um protocolo celebrado com a Câmara Municipal do Barreiro. Outras receitas às quais a banda não tem acesso impedem-na de voos mais ambiciosos, designadamente a aquisição de novos instrumentos.
DE acordo ainda com Paulo Madrugo, a Banda Municipal do Barreiro tem em funcionamento uma escola de música, ministrando aulas de cordas e piano.

Seguiu-se, da parte da assistência, a intervenção de Fernando da Motta, do Espaço Memória do Barreiro, que optou por fazer uma pergunta ao orador, a saber: “Se assumirmos que nas anteriores candidaturas a património histórico imaterial estas teriam tido o “como fazer” como a sua espinha dorsal, como se integrará o actual projecto de candidatura nesse contexto?”.

Dado tratar-se de uma questão posta directamente ao orador, a Mesa deu de novo a palavra a este. Paulo Lima começou por afirmar que, em sua opinião, o património imaterial não é definível. Acrescentando, “a grande razão de ser do património imaterial é a sua identidade e sustentabilidade, não tendo somente a ver com a tradição popular (como o demonstra, por exemplo, o caso da alta cozinha francesa). Tomemos como exemplo o Cante Alentejano. Ele é em muitos lugares o veículo único através do qual é possível a reunião das pessoas, sendo secundário se as instalações onde se canta e convive são boas ou más (geralmente edifícios públicos abandonados, antigas escolas primárias, postos dos CTT, etc.). Já no caso dos Chocalhos o que esteve em jogo fundamentalmente foi o risco de extinção de animais para uso dos quais os chocalhos são produzidos por artesãos. Finalmente, naquilo que para agora e aqui nos interessa, a candidatura das Bandas Filarmónicas, o que é efectivamente importante será, resumidamente: a música, a igualdade de género, a inclusão de deficientes, o ensino, a viagem, e por aí fora…

Foi dada, de seguida, a palavra ao jovem músico Jorge Costa, filho de Fernando Santos Costa, membro da VULTOS, e neto de Carlos Costa, prestigiada personalidade do associativismo barreirense que durante muitos anos foi Presidente da Assembleia Geral de “Os Franceses”.

Jorge Costa começou por informar os presentes ser membro de duas bandas filarmónicas distintas, nenhuma delas sediadas no sítio onde reside, uma vez que, segundo informou, é “alfacinha de gema”, ou seja, natural de Lisboa. Essa bandas são: a da Cova da Piedade e do Samouco, ambas da Margem Sul do Tejo. Na continuação do relato da sua experiência pessoal como jovem músico filarmónico, Jorge Costa realçou o facto de a manutenção dos instrumentos ser muito cara, tanto quanto a aquisição das partituras, embora tenha a felicidade de nas bandas onde toca o maestro ser militar e, por conseguinte, ter facilidade na obtenção das partituras sem encargos para a banda. Porém, no respeitante aos repertórios, há bandas que dispõem de recursos financeiros suficientes para encomendarem a compositores profissionais partituras originais as quais poderão custar entre os 500 ou 600 euros. Jorge Costa, que está integrado no movimento filarmónico como músico há 10 anos, lembrou que, contudo, as bandas têm jovens executantes que se iniciaram na música aos 4 anos de idade, quando ainda eram, portanto, muito meninos. Do ponto de vista dos serviços prestados pelas bandas às quais pertence, revelou que há alturas em que passam 2 ou 3 anos sem que as bandas actuem fora do Concelho ao qual pertencem. Os custos significativos de deslocação e de estadia de uma banda são, em geral, sempre elevados, em face do expressivo número de elementos que formam a comitiva. Por essa razão, é frequente as bandas actuarem exclusivamente no próprio concelho sede ou nas proximidades deste. No seu caso concreto, Jorge Costa revelou que a banda de que faz parte, tem tido, porém, o privilégio de ser convidada anualmente para abrilhantar as festas da cidade fronteiriça espanhola de Ayamonte.

O barreirense Álvaro Monteiro pediu a palavra para dar a conhecer aos presentes o seu fascínio pelas bandas filarmónicas e a emoção que estas lhe provocam sempre que saem para a rua a tocar. Acrescentou, ainda, que o prazer de as ouvir é tanto que só abandona os concertos quando se sente saciado. As suas recordações levaram-no até à memória, que ainda hoje se mantém viva, do coreto da antiga banda filarmónica da CUF, hoje também extinta, entretanto demolido, que ficava localizado em frente das fábricas.

Manifestou a sua convicção de que a candidatura em curso de inscrição das Bandas Filarmónicas como Património Imaterial da Humanidade irá fortalecer a necessidade de resolução dos problemas que as bandas estão enfrentar.
Interrogou-se, seguidamente, “porque é que a Banda do Barreiro não sai à rua com regularidade, pelo menos, nas datas solenes? Porque é que há anos não tenho o prazer de ver uma banda passar pela ruas do Barreiro? Rematando: “quando a banda sai à rua toda a gente vem à janela…, por isso se deverá exigir que quem tem responsabilidade perante a população tem o dever de intervir no sentido de alterar este estado de coisas! As bandas não poderão continuar a mendigar tostões sob pena de desaparecerem”.

Tomou a palavra a seguir Berta Silva Pais, que começou a sua intervenção afirmando pertencer “a uma família do Barreiro muito tradicionalista” para lembrar que seu pai, Armando da Silva Pais, tinha trabalho árdua e desinteressadamente toda a sua vida em prol do Barreiro. Lembrou ainda que sua mãe, Maria de Lurdes Vasconcelos Costa Mano foi a primeira mulher do Barreiro a licenciar-se com o Curso Superior de Piano do Conservatório, tendo sido aluna de Viana da Motta. “Em minha casa tocava-se tanto Chopin como A Casa Portuguesa!”, acrescentou.

Recordou ainda que o Barreiro, no passado, não foi famoso somente na música. Foi-o também no teatro. E que sua mãe tocou, indistintamente, nas diversas grandes colectividades locais. Afirmou ter muito presente na sua memória quando sua mãe, convidada para tocar para o Carmona, então Presidente da República, por ocasião de uma deslocação oficial deste ao Barreiro, foi posta tocar

Paulo Parra, Presidente da Escola de Jazz do Barreiro, começou a sua intervenção recordando aos presentes os passos iniciais que levaram à criação da Escola de Jazz, fundada em 1999, cujas origens históricas foram estruturas em dois fundamentos: as instalações sede da antiga cooperativa dos “Corticeiros”; e a iniciativa notável de três pessoas, Eng.º José Cardoso Ferreira, e os músicos José Batata e Jorge Moniz (este músico tinha estado pouco antes presente no Auditório da CMB onde estava a decorrer a conferência) ao apresentaram uma proposta à Câmara Municipal do Barreiro, e por esta aceite, de criação de uma Escola de Jazz no Barreiro.

Seguidamente, Paulo Parra passou a elencar as perspectivas que a direcção das Escola de Jazz tem para o futuro da instituição, a saber: criação de sinergias mútuas entre todas as instituições locais que se dediquem à música; ambição de, no intervalo de 2 ou 3 anos, a big band da Escola vir a ser formado só por alunos da mesma; alteração dos programas dos cursos com vista à criação de uma escola de música com cursos certificados (será então a única existente na Margem Sul); e centrar o ensino da música, tendo o aluno como foco principal e apoiado num programa de ensino mais aberto, sem prejuízo da matriz fundadora de jazz (“o que se afigura difícil mas exequível”, acrescentou).

Paulo Parra revelou ainda que, devido à pandemia de COVID’19, a Escola tinha perdido alunos. Mas que conta, actualmente, com 91 alunos em aulas presenciais. A pandemia, porém, obrigou à tomada de medidas de segurança, pelo que o número de turmas foi alargado para diminuição do número de alunos por turma.
Sobre a sustentabilidade financeira da Escola de Jazz, Paulo Parra afirmou ter tido a Escola sempre o apoio da Câmara Municipal do Barreiro. Não obstante, “há vinte anos atrás”, acrescentou, “o financiamento da Câmara cobria 50% do total das despesas, hoje só cobre 20% dos encargos”. Como nota geral sobre ao associativismo, foi de opinião que, “não obstante a terra ter um número muito significativo de instituições locais com história na musica, a verdade é que não podemos ignorar a realidade de o associativismo se encontrar em crise”.

A terminar a sua intervenção, Paulo Parra manifestou também o seu desconforto por a Banda Municipal não possuir um espaço próprio para sede, utilizando, por consequência, a título precário, as instalações do Luso. Aproveitou a oportunidade para sugerir que “A Câmara Municipal, em vez de ser ela a organizar os eventos, apoiasse as entidades particulares, tanto mais”, concluiu, “que no concelho possuímos uma empresa de transporte colectivo, circunstância que facilita a mobilidade dos agentes culturais e lhes assegura independência e liberdade de iniciativa”.

A última intervenção do lado da assistência coube ao Eng.º António Marques, Presidente da IPSS “Raio de Luz”, sediada em Pêra, Sesimbra, e director do jornal impresso homónimo (“Raio de Luz”) de Sesimbra, que começou por dizer: “tenho, por um lado, algumas dúvidas, no que respeita à candidatura das Bandas Filarmónicas, que estas sejam exclusivas da cultura portuguesa e, por outro lado, uma vez que as bandas apareceram e se desenvolveram numa configuração social própria de há 50 anos atrás, muito diferente, portanto, da actual, questiono também se a actividade das bandas será hoje em dia atractiva para a juventude dos nossos dias”. Referindo-se à realidade do Concelho de Sesimbra, sublinhou que no Concelho nem sempre os residentes nas freguesias mais antigas são os mais criativos e activos, dando como exemplo a Quinta do Conde, onde as associações lúdicas e de ensino se multiplicaram, possuindo actualmente esta freguesia um rancho folclórico, duas ou três orquestras de música tradicional, um grupo coral alentejano, uma orquestra Geração, constituída por 50 ou 60 jovens com idade até aos 18 anos, e inúmeros grupos de garagem. Enquanto que na velha freguesia de Sesimbra apenas os Bombeiros possuem uma fanfarra, a Sociedade Musical Sesimbrense uma banda filarmónica, criada em 1914, embora com reminiscência no início do século XX, e o grupo Big Bota que se espraia nas águas mistas do jazz e do samba.
Ao terminar, António Marques chamou a tenção para o imperativo de o ensino da música e a actividade das Bandas Filarmónicas e de outros actividades culturais e lúdicas serem observadas à luz da vivência cultural moderna e de se integrarem no grande caldeirão do progresso e do futuro. E, manifestou ao conferencista, Dr. Paulo Lima, todo o seu apoio ao projecto que este está a desenvolver.

Na sequência das intervenções do público presente, Paulo Lima teceu ainda algumas considerações adicionais, a saber: “o elemento mais importante nunca candidatura, como aquela que está em apreço na conferência, é o plano de salvaguarda ou, mais concretamente, as garantias de apoio e protecção que o proponente dá para salvaguarda do objecto inscrito como Património Imaterial. No caso concreto das Bandas Filarmónicas, procura-se alertar o País para a importância da sua existência e actividade. As festas populares sem música tornam-se desinteressantes. Este projecto se chegar a bom porto, irá valorizar sobretudo as pessoas que têm protagonizado e dado vida ao movimento filarmónico, pessoas que deram o seu melhor, o seu sangue pela bem dos outros, pela harmonia e doçura que a música empresta à rudeza da natureza humana e do quotidiano. Na construção de plano de salvaguarda será importante congregar vontades, designadamente o Estado, através do Ministérios respectivos, as Autarquias, reunidas na Associação dos Municípios e outras instituições públicas e particulares que de algum modo partilhem generosamente este mesmo desígnio. É importante, acrescentou, ainda no contexto do referido plano que a Fundação INATEL seja de novo reaproximada do movimento filarmónico pelas instância superiores que governam o País”.

A conferência foi concluída por uma intervenção de Carlos Bicas que começou por realçar que, “não obstante a VULTOS DA NOSSA TERRA ter a sua actividade centrada nas figuras e factos do Barreiro isso não poderá ser obstáculo a que as suas ambições e projectos não tenham a ambição de se envolverem à escala nacional ou internacional, ou seja, que a Cultura seja pensada em grande e como indissociável da economia e da sociedade. Outra vertente que tem preocupado a VULTOS”, continuou, “é a inexistência de um plano estratégico local em torno do qual a VULTOS se possa articular harmoniosamente.
E, finalmente, sublinhou, é imperioso que se reúnam todas as sinergias disponíveis, como bem foi referido durante os trabalhos da conferência pelos Presidentes da Banda Municipal do Barreiro e da Escola de Jazz, para que, acumuladas forças, em conjunto, saídos da passividade e da mediania, possamos voar mais alto e alcançar mais longe, como pessoas e como comunidade. Essa é uma exigência dos nossos filhos e netos”, afirmou. “Por isso, a VULTOS nos seus projectos tem privilegiado a convivência das diversas e ricas formas e modos de expressão dos agentes culturais do Barreiro (música, teatro, artes plásticas, literatura, jornalismo, cinema/vídeo, etc.), em respeito pelos valores da Tradição local e da Memória dos barreirenses e instituições mais ilustres da nossa terra”. Carlos Bicas terminou a sua alocução com uma frase emblemática com a qual pretendeu alertar para a realidade trágica das sociedades que desprezam a cultura e ficam despejadas de memória: “Um povo que não tem alma é um povo condenado a que lhe falte o pão…”.

C.B.
Barreiro, 25 de Novembro de 2020

Fotografia - O Antropólogo Paulo Lima no uso da palavra, à esquerda na fotografia, na Mesa da Conferência, acompanhado de Luís Victorio, ao centro, e de Carlos Bicas, à direita, estes últimos ambos membros da VULTOS DA NOSSA TERRA

26.10.2020 - 11:07

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