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COLUNA CULTURA GLOBAL
Globalização, Cultura e Vida
Coordenação José Eduardo Franco

COLUNA CULTURA GLOBAL<br>
Globalização, Cultura e Vida<br>
Coordenação José Eduardo Franco O dealbar da Época Moderna nos séculos XV, XVI e XVII foi marcado pelas viagens marítimas com a subsequente criação de inéditas redes planetárias de comércio, de intercâmbios culturais à escala global e o estabelecimento de grandes potências políticas intercontinentais com sede na Europa (Portugal, Espanha, Holanda, França, Inglaterra...).

As graves vicissitudes provocadas por esta fase moderna que podemos designar de proto-globalização, precursora da globalização plena em que hoje vivemos, instalou um ambiente mental e espiritual de crise face aos novos conflitos espoletados e aos processos de dominação resultante da assunção dos novos impérios com capacidade de submeter povos e civilizações à escala planetária, abatendo velhas fronteiras e erguendo novos limites fronteiriços num processo nunca visto de recomposição geoestratégica. Esse sentimento de crise que a modernidade instalou tem pontuado andamentos pendulares extremados pela euforia e pela retração até ao nosso tempo em que vivemos em que se assiste a um sensível “enlouquecimento” do processo acelerou a globalização de há 600 anos. O enfraquecimento do poder organizativo do mundo, que se afirmou nos últimos quinhentos anos e através do qual foi possível passar dos velhos absolutismos à experiência de democracia – nações, países e estados soberanos –, é cada vez mais um dos dados relevantes da nossa atual globalização à procura de um sentido, de uma ordem que trave o risco da desumanização. A lógica da organização do mundo em países a caminhar para a democracia estendida a quase toda a terra, está a ser torpedeada por entidades “invisíveis”, com força de mito, precisamente em nome da vantagem de se pensar e agir globalmente. Falamos das organizações transnacionais sem rosto, sem democracia, sem sufrágio dos povos. A começar pelos “fantasmáticos” mercados que fizeram dos bancos reféns – os quais, como se tornou habitual dizer-se, “ não devem ser irritados nem afrontados pois vingam-se nos Estados com as suas manobras financeiras -, passando pelas multinacionais até à multiplicação de grupos terroristas que espalham o terror por todo o lado, todas vergam hoje em dia os chamados “estados soberanos” às suas exigências, acabando por submeter os povos a medos, a austeridades, a contribuições para pagar “dívidas” de que não foram autores.

O tempo de uma certa guerra mundial antidemocrática, contra a autodeterminação dos povos do mundo que hoje vivemos, tem paralelo, mutatis mutandis, com outro tempo, o tempo do Padre António Vieira, o século XVII, em que se teria experimentado uma “proto-primeira guerra mundial”. Era a época da afirmação das grandes potenciais coloniais europeias contra os dois primeiros impérios ultramarinos da modernidade: Portugal e Espanha. Holanda, Inglaterra, França disputavam então a primazia imperial no mundo contras as potências pioneiras da Península Ibéria, estendendo as guerras de religião e de apropriação de territórios e de gentes a todo o globo. Por seu lado, do ponto de vista individual e social vive-se um enlouquecimento resultante das derrocadas de “sentido” com a emergência daquilo que Manuel Antunes classificou como o “homem espuma” e que mais tarde outros autores com mais fama mundial apelidaram de “homem light” ou ligeira, sem consistência, sem fidelidades e sem convicções fortes.

Tudo isto misturado com o recurso fácil a poderosos meios de comunicação e de informação que não facilitam a orientação por caminhos claros. Por isso, como analisa Manuel Antunes, “Muitas realidades atingem hoje a categoria «exponencial». Diante delas, o homem contemporâneo sente-se como que tomado de vertigem e confusão, tão avassaladoramente galopante lhe parece o seu ritmo aumentativo.”

O método do pensamento utópico foi muitas vezes constituído como via para construir futuros alternativos às perversões trazidas pela globalização progressiva das relações planetários, hoje agudamente testemunhadas pelos meios de comunicação cada vez mais rápidos e eficientes a dar conta em tempo real do que acontece de bom e de mau nas geografias da mundividência global.
Hodiernamente, talvez a intervenção no mundo global em ordem ao seu aperfeiçoamento passe mais pelo conhecimento crítico que trabalhe na compreensão dos seus grandes problemas e gize soluções pelo exercício prospetivo em ordem à construção de uma globalização de rosto humano eco-socialmente sustentável.
Esta coluna que hoje inauguramos no Jornal Rostos pretende precisamente pensar a Idade Global que é a nossa nas suas múltiplas faces e desafios.

José Eduardo Franco
Diretor do Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta

27.11.2023 - 11:50

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