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Crónicas do Algarve
Acerca de camaleões, de muxamas, de polícias e de laranjas

Crónicas do Algarve<br />
Acerca de camaleões, de muxamas, de polícias e de laranjasNesses tempos, para ir à laranja era necessário ter muita coragem. As circunstâncias obrigavam-nos a ser ousados. Do que me lembro, talvez fosse das aventuras mais arriscadas.

Pior ainda do que amarinhar perigosamente pelas paredes para desviar algumas das muxamas que secavam penduradas à sombra dos estendais montados nos terraços das estivas.
Por outro lado, para compensar, ir ao camaleão não custava nada, bastava procurar nas retamas da mata com alguma paciência.
Todos queriam levar um camaleão para casa para usar como mata-moscas. Os simpáticos animais não fugiam, ficavam muito quietinhos, sem mexer o corpo, a quererem passar desapercebidos, estrategicamente paralisados, agarrados a uma das pernadas do arbusto, com uma aparente enorme coragem.
Se alguma coisa se movia neles, eram somente os olhinhos. Cada um deles para o seu lado. Às voltas. Atentos. Dessincronizados. Estrábicos. Nervosos.

Os espertalhões camuflavam-se como fazem os chocos e os polvos: astuciosamente mudavam de cor e, para os conseguirmos caçar, era preciso estar muito concentrados.
O melhor sítio para apanhar camaleões era na mata em frente à Gráfica ou, ainda, em frente ao Estaleiro de Construção Naval do senhor Pena ou o do senhor Zé Pichinha, no caminho para a Ponta da Areia. Os operários da Gráfica e os carpinteiros navais aliviavam-se por ali, do outro da estrada de alcatrão, escondidos por detrás dos arbustos e dos pinheiros e, os gulosos dos camaleões, cheinhos de fome, como grandes glutões que eram, apareciam no local à procura das moscas.

Quando alguém mais destemido falava em ir à laranja a malta toda alinhava logo mas, por dentro, bem lá no fundo, sem que o assumisse, não havia ninguém que não começasse logo com tremedeiras.
Desde logo, por serem só duas as possibilidades reais para dar o golpe: ou ir aos pomares das Hortas, ou ir às laranjeiras da Praça Marquês de Pombal.
Ambas alternativas envolviam inquietantes perigos. No primeiro caso, ir às Hortas significava atravessar territórios muito afastados do Largo da Bica, com pouca segurança, propícios a encontros indesejados de que resultavam guerras com malta que estava em vantagem por ser esse o seu ambiente natural. As possibilidades de apanharmos “porrada” eram elevadíssimas.

Por tudo isso, para evitarmos esses encontros, a melhor solução passava por ir pela mata por detrás da escola do professor Caldeira. Esse atalho levava-nos até ao depósito da água, zona onde a norte começavam os pomares de laranjas que iam pelas Hortas até às Quatro Estradas.
O principal problema era o cão do Guarda-Mato. Chamava-se Leão e, pelo porte, pela cor amarelada da pelagem, pela sua extrema agressividade, parecia ser mesmo um. Só lhe faltava a juba. O seu ladrar furioso causava calafrios aos mais corajosos. Se estivesse solto, ninguém se atrevia a cruzar esses terrenos.
Quando o Leão andava por ali não valia a pena, o melhor era desistir.
Então, ir à laranja, só à noite!

Na Praça Marquês de Pombal havia boas laranjas. O problema era o posto da polícia que se situava precisamente aí, na Praça, numa das portas do edifício da Câmara Municipal, entre a porta da Tesouraria da Câmara e a porta da Tesouraria da Fazenda Pública.
Ir com sucesso às laranjas da Praça do Marquês só era possível quando um dos cinco polícias que havia na Vila que estivesse de serviço nocturno fechasse a porta do posto.

Nesse momento, ao fechar da porta, atacávamos. Havia boas laranjeiras, com boas laranjas. Uma delas, das boas, era uma das que ficava entre a papelaria Viegas e a farmácia Carrilho. Dava muitas e de umbigo, muito doces. Fantásticas.
Recordo-me de um grande susto, quando numa dessas noites o relógio da Câmara decidiu anunciar as dez horas, começando a badalar com o seu som metálico.

Segundos depois, estávamos nós em plena faina, a raspar os mosaicos do chão, com as dobradiças a lastimar-se, como que chorando, a pesada porta de madeira pintada de verde do posto abriu-se, deixando escapar cá para fora uma luz difusa que expôs a silhueta de um volumoso e imponente agente da polícia a apertar o cinto das calças onde foi possível vislumbrar o coldre que guardava a ameaçadora pistola.
Generalizou-se o pânico nas hostes. Houve um de nós que com a precipitação caiu da árvore, batendo com as costas no chão e, sem olhar para trás, cada um fugiu como pôde.
Nessa noite ninguém comeu laranjas!

Henrique Bonança
Altura – Abril de 2018

03.10.2018 - 17:00

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