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ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro
«O Animador» - onde começa o mundo real e acaba a ficção?

ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro <br />
«O Animador» - onde começa o mundo real e acaba a ficção?Uma peça que nos deixa sem palavras, marcada pela representação de dois actores, que de forma expressiva nos rostos, com uma dicção de uma capacidade vocal de quem sente e vive as personagens, por dentro, e, ali, em palco, conseguem ultrapassar as mesmas transportando-as para dentro dos seus corações de actores.

ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro, este ano, no Dia Mundial do Teatro, proporcionou uma noite que vai ficar inscrita na memória, e na história do fazer teatro no Barreiro.
A peça «O Animador», de Rodolfo Santana, encenada por Luís Pacheco, é daquelas que se inscreve na memória, e, sublinhe-se só se inscrevem na memória, de cada um de nós, aqueles instantes únicos que rasgam os neurónios, agitam o pensamento, dão ao momento que vivemos a dimensão onde está presente a estética, a ética e a ontologia, a totalidade do ser que somos – do emocional, do racional e do universal.

Ali em palco, de forma impressionante, num diálogo intenso, irónico, marcado de contradições, com humor, com pistas para reflexão, as duas personagens - Carlos e Marcelo- brilhantemente interpretadas por Luís Pacheco e Rui Félix, inscreveram no espaço e no tempo momentos hilariantes que geram, eles mesmos, momentos de reflexão ao nível da antropologia filosófica e filosofia cultural. São temas de actualidade motores da dita globalização.

Em certos momentos dos diálogos na peça, ao meu pensamento ocorriam, aquelas conversas ~que se faziam à mesa do café, nos anos 80, com base nos discurso de Marshall McLuhan, sobre a importância dos meios de comunicação, a globalização do pensamento da humanidade e os efeito produzidos pelos meios de comunicação na sociedade, nomeadamente a televisão, que modelava comportamentos e movimento sociais.
Nos dias de hoje, com o surgimento da internet, das redes sociais, este efeito dos meios de comunicação social tornou-se mais dramático e condicionador de visões do mundo, reducionistas da identidade, geradores de pensar a preto e branco, estrategicamente utilizados em redes sociais, para manipular a opinião pública, cultivar ódios, fomentar bodes expiatórios, promover conflitos intergeracionais. Sobre tudo isto esta peça faz-nos pensar de forma divertida.

Um cenário feito de um muro de paletes, que pode ser num Bairro de Lata, ou numa fábrica. Um muro de lamentações na cidade. Um cenário que tem dentro de si uma linguagem que tanto podemos atribuir-lhe uma dimensão estética revolucionária, como minimalista.
Um cenário que permite às personagens respirar, moverem-se, serem ali a totalidade, com a suas expressões faciais, os movimentos do seu corpo, a energia de cada actor a expressar-se de forma única e gerando quadros de grande beleza naquela vazio do sequestro, que, afinal nunca é vazio, porque é apenas a realidade do teatro imponente, que nos transporta para pensar e sentir a ficção, e por dentro da ficção emerge a construção simbólica da realidade.
Onde começa o mundo real e acaba a ficção?
A mente humana é esse lugar de construção e destruição, de conflito entre a mensagem e os seus “efeitos”, cada vez mais, ignorando ou deixando-se sucumbir à força envolvente dos meios.

Uma peça que nos motiva a pensar no tempo real que vivemos, no sentir a religiosidade dos tempos que correm, nos absolutismos, nos perfeccionismos, que vão das claques do futebol, aos clãs da política, as seitas religiosas, um mundo de "fés" intolerantes, um tempo marcado de vazios, que, afinal, são preenchidos pelos dogmatismos e irracionalidade de comportamentos – onde, muitas vezes o final feliz à a morte dos adversários, com assassinatos de carácter, premeditados e estimulados.

Uma peça que nos deixa sem palavras, marcada pela representação de dois actores, que de forma expressiva nos rostos, com uma dicção de uma capacidade vocal de quem sente e vive as personagens, por dentro, e, ali, em palco, conseguem ultrapassar as mesmas transportando-as para dentro dos seus corações de actores. Brilhantes. Uma Força dramática para recordar. Parabéns.

E a fechar, aquele final deslumbrante, de uma grande beleza e autenticidade estética, quando, em palco, emerge a «Pietà de Michelangelo», aquela sua famosa escultura que representa Jesus morto nos braços da Virgem Maria, um final, que nos dá a dimensão de uma peça que, de facto, mais que querer dar respostas, coloca-nos perguntas.
Um espectáculo a não perder!

António Sousa Pereira

Ficha Técnica

O ANIMADOR.
Uma comédia de Rodolfo Santana.
Encenação de Luís Pacheco.
Interpretação - Luís Pacheco e Rui Félix
Cenário – Luis Pacheco
Construção de cenário – António Santinho
Figurinos – Manuela Ramos Félix
Luminotecnia – João Oliveira
Operação Técnica – Andreia Rodrigues e Joana Casaca
Fotografia – Rui Martins
Produção Exrecutica – Catarina Santana
Apoio Geral – João Henrique Oliveira

79ª Produção da Arte Viva – Companhia de Teatro do Barreiro

SINOPSE

El Animador” de Rodolfo Santana é um texto de 1972 que mantém uma actualidade impressionante e que nos remete para uma profunda reflexão sobre o papel dos meios de comunicação de massa como agentes sociais.
Carlos e Marcelo são os protagonistas desta tragicomédia que nos faz pensar e repensar na génese e brutalidade do humano enquanto ser vivente e pensante.
O lado mais negro das realidades que os vários canais de televisão, caixa estranha que há anos mudou as nossas vidas e o mundo, nos apresentam e que todos os dias entram pela nossa casa dentro, vem à tona nesta trepidante comédia.
Carlos cresceu em frente à televisão, alienado da realidade. A ficção televisiva é o seu Deus. No entanto, Carlos pretende ressuscitar a televisão que de alguma forma considera estar morta e, para tal rapta Marcelo, o director do Canal 9, de que é fã.
Debaixo de uma ameaça constante e sempre de pistola apontada, Marcelo vê-se obrigado a vivenciar as ficções que criou para salvar a própria vida.
Um novo final para uma novela de grande audiência, publicidades enganosas e concursos onde os concorrentes são levados ao limite da humilhação.

Luís Pacheco

Não perca no Teatro Municipal do Barreiro
Sextas e Sábados às 21h30

29.03.2019 - 17:35

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