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A carta de Natal
Por Rosalina Carmona
Barreiro

A carta de Natal  <br />
Por Rosalina Carmona<br />
Barreiro Nesse ano, na tal carta de Natal, eu pedi ao menino Jesus ou ao Pai Natal - era igual uma vez nessa altura nem o Pai Natal morava na Lapónia nem o menino Jesus nos livrava das reguadas por ter faltado à missa de domingo -, pedi que um deles me enviasse como prenda de Natal um livro de histórias. Só isso.

Quando eu andava na escola primária era obrigatório, todos os anos pelo Natal, escrever uma carta ao menino Jesus ou ao Pai Natal - era indiferente porque o endereço era o mesmo, o céu, como explicava a Senhora Professora que também nos ministrava a catequese que também era obrigatória. Lembro-me de um ano, aí pela segunda classe, eu já sabia ler e gostava muito de ler mas só tinha os livros da escola, na tal carta para o menino Jesus ou o Pai Natal era para o que chegasse primeiro ou fosse mais magro para caber no buraco da chaminé que, por sinal era bem estreito - uma vez que a nossa casa do lume não tinha aquelas chaminés largas e grandes onde enxugava o fumeiro que em certas casas dava para alimentar a família o ano inteiro. Na minha casa do lume não havia nada disso, nem sequer o fumeiro. Em vez de fumeiro havia fome, uma fome que nos rondava o ano inteiro e que no Natal nos atacava especialmente, assim como uma doença de Inverno.

Nesse ano, na tal carta de Natal, eu pedi ao menino Jesus ou ao Pai Natal - era igual uma vez nessa altura nem o Pai Natal morava na Lapónia nem o menino Jesus nos livrava das reguadas por ter faltado à missa de domingo -, pedi que um deles me enviasse como prenda de Natal um livro de histórias. Só isso. Eles, o menino Jesus ou o Pai Natal costumavam mandar as prendas que se pedia, iam todas para a escola e era a Senhora Professora e o Senhor Padre quem as distribuía. Então a minha prenda lá chegou, a Senhora Professora chamou-me e eu, cheia de pressa e interesse desfiz o embrulho num ai. Perante o meu ar surpreso e de decepção a Senhora Professora perguntou "então, não era isso que esperavas?"

Eu, timidamente respondi que não, que esperava um livro de histórias e mandaram-me uma caixa de costura. A Senhora Professora explicou que eu não precisava de livros de histórias, se quisesse ler que lesse os livros da escola. E que a caixa de costura seria muito útil, para aprender a coser e remendar que é o que as boas meninas devem saber fazer.
Apesar de não ter perdido o gosto pela leitura ficou-me de emenda. E à minha mãe também, que foi chamada à Senhora Professora para ela lhe explicar o que me devia ser ensinado lá em casa.

Como castigo, nas férias escolares ia aprender para a Alfaiataria de um Senhor de que só recordo a alcunha (o "Caga Amarelo"). Era na Rua da Padaria, em Pias. Foi aí aprendi a alinhavar e a chulear.

No ano seguinte já não liguei nenhuma à carta para o menino Jesus ou o Pai Natal, era indiferente, nem me lembro de qual foi a prenda que me mandaram.

Rosalina Carmona

18.12.2019 - 16:13

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