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Ensino Primário no Barreiro faz hoje 150 anos
Inauguração da Escola Conde Ferreira no dia 29 de Junho de 1870

Ensino Primário no Barreiro faz hoje 150 anos <br />
Inauguração da Escola Conde Ferreira no dia 29 de Junho de 1870 No dia 29 de junho de 1870, faz hoje 150 anos, foi inaugurada a Escola Conde Ferreira, numa cerimónia que contou com a presença das Bandas Filarmónicas do Barreiro e Lavradio.

A Escola Conde Ferreira marcou muitas gerações de barreirenses, faz parte das suas memórias

A propósito desta efeméride, muito bem registada, num artigo publicado por Manuela Fonseca, na revista «Um Olhar sobre o Barreiro», neste dia 29 de junho de 2020, recordamos o artigo que reproduzimos integralmente:

Escola Conde Ferreira
Por Manuela Fonseca

Segunda metade dos anos cinquenta: tínhamos feito os dois primeiros anos de escolaridade (a primeira, a segunda classe) numa sala do Instituto dos Ferroviários, edifício onde hoje se situa A Galeria Municipal de Arte e, até há pouco anos, o Tribunal da Comarca de Barreiro, na Avenida Alfredo da Silva. A primeira e a terceira com a mesma professora, à mesma hora, no mesmo espaço. Em sala ao lado, a segunda e a quarta, metodologia análoga.

A recordação das esforçadas, organizadas e pontuais docentes ensinou-me, a par da Democracia, chegada na alegria da juventude (que me trouxe outros e melhores dias e saberes, professora por paixão e opção intelectual que fui durante trinta e sete anos) que poderia e deveria exercer de forma bem diferente das senhoras, sabedoras e honradas mas incapazes de ultrapassar a difícil e agressiva relação com as crianças, aliás tão ao gosto da repressão da época, que nos obrigava, pasmem os que nascerem depois de mim, ao pedido à família de vinte e cinco tostões por mês, em época de tantas carências para o povo, destinados à horrível Mocidade Portuguesa.

Passámos para a Escola Conde Ferreira no início do ano lectivo de 1958-59: uma professora jovem e cheia de entusiasmo esperava-nos: morava à minha frente, numa diagonal de uns cinco metros – essa situação vicinal bem me envergonhava se, na rua, a encontrava ou aos pais. Era melhor vê-la apenas na sala de aula. De uma escola fria, desagradável, sanitários péssimos mas que me permitiam, nos dias das provas (que nos faziam tremer) pedir, a correr, à minha prima M.J.H.M. e, ou, à minha quase-irmã (e madrinha há vinte e oito anos), M.J.B.S. que me trocassem as contas, ou parte delas, pela redacção que já adaptara com esse objectivo…

Das duas referidas crianças desse tempo, uma é professora de Química e outra médica, duas barreirenses ilustres nas quais eu já descortinava o espírito lógico que me auxiliaria nas atrapalhações matemáticas (em obra recente, O Livro do Meio: Romance Epistolar, Maria Velho da Costa confessou as suas e, assim, animou-me imenso a contar esta matreirice…) que ainda hoje tenho, certamente não genéticas, tal o desembaraço da minha mãe na economia doméstica e do meu pai na actividade profissional.
Também na Conde Ferreira, como no Instituto dos Ferroviários, como em todos os estabelecimentos de ensino oficial, era obrigatório colocar na parede de cada sala de aula as fotografia do Salazar e do Américo Tomás, numa ofensa à imagem de Cristo no Crucifixo, entre ambos, bem como aos ideais de liberdade que, com as sopas de feijão ou caldo verde, um bacalhau com batatas ou cozido à portuguesa, nos alimentavam, em casa, a palavra mágica Democracia apenas sussurrada – e ainda há para aí quem, num concurso televisivo qualquer, numa emissora paga com os nossos impostos, tenha votado no ditador como figura querida!

Aulas acabadas, íamos, em segundos, até à Muralha ver alguns rapazes que, mesmo ao lado, mal conhecíamos (sim, meninas para um lado, eles para o outro) – corajosos, sem noção do perigo ou da poluição das águas, mergulhavam, deliciados, em roupa interior, no Tejo a que a História deu uma melhor inclinação para Lisboa do que para nós, os da margem que tanto prezamos e queremos cada vez mais perto da outra.
Íamos também, Rua Conselheiro Joaquim António Aguiar afora, ver o Ti Chico Câmara, glória do Distrito, da vila e do amado Futebol Clube Barreirense, cidadão exemplar e bondoso que tão bem nos acolhia na sua papelaria. A uns metros, na barbearia que era ponto de encontro, um beijinho ao meu tio António Horta, a cara da minha progenitora, certamente um dos mais pobres do Barreiro, na sua condição de proprietário, sempre na expectativa, com um piscar de olhos maroto, de acordar com o Regime mudado, o que, felizmente, aconteceu e ele tão bem saboreou.

E um lanche com leite quentinho na casa da prima atrás referida, os pais, os saudosos Hermínia Cardeira e Manuel Horta, vindos do Concelho de Mértola com a solidariedade, a franqueza e o espírito de trabalho do Alentejo. E falta acrescentar um gato tão bem educado pela M.J.H.M. que, deliciada, mo mostrava, para, com a refeição, me fazer esquecer uma partida que, no Largo Rompana (ou do Rompana, personagem da tradição oral, cheia de rompantes revolucionários, tão bem explicada por Mestre Hélder Fráguas nas suas inesquecíveis Acções de Formação) ela me pregara na resposta a uma anterior…

Manuela Fonseca*
*Colunista do Jornal Rostos

29.06.2020 - 19:30

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