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100 Anos da maior greve ferroviária de sempre no Barreiro
Por Rosalina Carmona

100 Anos da maior greve ferroviária de sempre no Barreiro<br />
Por Rosalina Carmona Há cem anos, no dia 30 de Setembro de 1920 tinha início a maior greve ferroviária alguma vez realizada em Portugal na Companhia dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, que se prolongaria por 70 dias e terminaria a 9 de Dezembro de 1920. O acontecimento foi registado pelo ferroviário José António Marques, dia a dia, nos seus diários manuscritos legados à Câmara Municipal do Barreiro.

Para compreender o contexto em que surge esta greve é necessário não escamotear o carácter anti-operário, anti-popular e anti-social de muitas das políticas seguidas neste período pela I República, nomeadamente a perseguição contra os sindicatos - daí que Afonso Costa tenha passado à história como o “racha-sindicalistas” - a insuficiência dos salários, a carestia de vida e a inflação galopante, as deficientes condições de trabalho, o incumprimento da lei das 8 horas que nas Oficinas continuava a ser de 10 horas diárias. Tudo eram motivos de protestos permanentes e justificavam a maior parte das greves que se deram no caminho-de-ferro. A estas reivindicações juntavam-se ainda os pedidos de readmissão de ferroviários despedidos durante processos de greve, os protestos pela libertação de ferroviários presos e contra as perseguições políticas.

Longe de imaginar o desfecho que tal acontecimento viria a ter, José António Marques inicia o seu registo, no primeiro dia da greve, com o seguinte informe: «30/9/920. Trabalhei das 8h às 16h30 no Barreiro T[erra]. Pelas 17h foi declarada greve nos Caminhos de Ferro Sul e Sueste e Douro e Minho. Pelas 3 da madrugada principiou a chover torrencialmente até às 11h40, depois leviou o tempo e pôis-se um dia lindo, mas fazendo um pouco de vento nordeste. O catraio do Mariano trouxe os tripulantes dos vapores que ficaram em Lisboa, etc. Pelas 22h10 encontrava-se na Farmácia Crispim a receber um curativo um praça da GNR, ignorando [eu] o motivo. Encontrava-se toda a estação sem luz e nem se ouvia o apitar de uma locomotiva. Parecia um deserto.» (1)

A 2 de Outubro, José A. Marques conta que quem fazia os comboios eram militares, em substituição dos ferroviários em greve. Até essa altura apenas havia sido feito um comboio. Nessa noite, várias casas de ferroviários foram invadidas e feitas rusgas, procurando obrigar os ferroviários a voltar ao trabalho. Já faltava o pão e outros géneros essenciais no Barreiro, e José conta que foi com os amigos apanhar pássaros para o Pinhal do Brenha. No dia 7 de Outubro o Barreiro estava cercado por forças de Infantaria e Cavalaria da guarda republicana, que haviam encerrado a Associação de Classe dos Ferroviários. Havia perseguições e prisões indiscriminadas, muitos ferroviários fugiam do Barreiro, a esconder-se nos campos, para não serem obrigados a regressar ao trabalho.
Haviam passado 3 semanas desde o início da greve e registava-se algum desânimo entre os ferroviários. A presença dos militares, em constantes patrulhas pela vila, era opressiva. No jornal local Acção, escrevia-se que «A táctica adoptada pelo governo foi mobilizar diversas unidades do exército para com elas normalizar os serviços ferroviários, mas isso que ainda só veio agravar mais a vida interna do país».

Alguns ferroviários começavam a regressar ao trabalho. A tensão acumulava-se como um rastilho e os ânimos exaltados dos operários em greve, faziam explodir conflitos. No dia 24 de Outubro, ao fim da tarde, registaram-se incidentes no Largo Casal. No dia seguinte, José prossegue o seu relato: «Continua a greve e todo o dia andaram pela vila bastantes camiões, em transporte de carga e passageiros, de várias partes do Alentejo. Correu o boato de ficar hoje a situação dos ferroviários do Estado resolvida. Pelas 23h houve descargas na estação, sobre umas embarcações.»

No dia 30 de Outubro houve mais prisões. Pelo Barreiro dizia-se que a Ponte de Faro tinha ido pelos ares e “O Século” noticiava que, os grevistas tinham tirado os carris perto de Ourique. Nesse dia, à tarde, houve reunião de ferroviários no campo, a que José não faltou.
«Aberta a sessão, a maioria dos ferroviários, assentaram-se no chão. Presidente da reunião, o Piloto. O primeiro a falar foi o Custódio Boavida, sobre o estado actual da greve. Também falou o chefe dos maquinistas, Horta. Falou sobre o pessoal de tracção, principalmente os maquinistas, depois o José Leal, maquinista, sobre os últimos decretos do governo do Sr. António Granjo. E que o Sr. António Granjo condenou o vagão fantasma, mas está pronto a mandá-lo fazer. No fim falou o Piloto, disse nem que viessem forças para nos prender, não retirava ninguém do lugar que estamos, sendo aprovado por todos. Dizendo também: camaradas não tomai o trabalho sem ver a vitória final, senão ficamos desgraçados.»

No dia 3 de Novembro a greve prosseguia e as perseguições aumentavam. A polícia, na tentativa de pôr os comboios em movimento, prendia indiscriminadamente qualquer ferroviário que encontrasse. Procurado pela Polícia, José António vê-se forçado a sair de casa e esconder-se num terreno que seu pai tinha, fora do Barreiro. Alguém lhe levou o almoço e os jornais.«Fui para o terreno do meu pai. Foi o almoço e jornais, parecendo já um preso. Ás 18h05 regressei a casa, não fui à vila.»

No dia 7 de Novembro começou o vagão fantasma. O Batalhão de Sapadores dos Caminhos de Ferro cercou o Lavradio «sendo presos alguns ferroviários, entre eles o maquinista António Feio, Francisco A. Silva e Manuel Nunes. Estes seguiram no comboio 19, à frente do célebre vagão fantasma para Setúbal. No cabeçote da máquina soldados da GNR, tendo instruções de fuzilar os ferroviários que transitavam no dito vagão. No dia seguinte foram para o vagão fantasma, o Luís Carvalho, fiel de estação, Francisco Candeias, chefe, e António Camacho, revisor de material. À noite recolheram ao Governo Civil.»

O braço de ferro entre os ferroviários e a empresa continuava, mas a situação agravava-se dia a dia, para estes. Alguns estavam já a «trabalhar na agricultura no Lavradio, em Alhos Vedros, Moita, etc. e outros na Companhia União Fabril». A 9 de Novembro escrevia José:
«Fui à vila à noite, soube que tinha ordem de prisão, como o Carlos Garcias. Este passou dois dias no Teatro República. Por esse motivo, a polícia andava em rondas à procura também do Artur e do Custódio. Foi preso o filho do Brito.»
As prisões continuavam, quem fosse apanhado era levado e metido à força no vagão fantasma. O desespero instalava-se, e, no dia 12, «houve mais um suicídio: matou-se com um tiro o bilheteiro António Paiva». Continuava a greve. No dia 13 de Novembro ouviram-se as caldeiras das Oficinas a trabalhar, eram militares do Batalhão de Sapadores. Diz José António: «Ás 17h50 tocou a buzina, pela primeira vez, após 44 dias em greve.»

Quinze dias antes do final da greve, o estado de ânimo de José e, por ventura, da maioria dos seus camaradas, parece denotar já um grande cansaço. Todavia, apesar do desalento que o assaltava, revelado na frase «Fez um dia tristíssimo todo o dia», a 3 de Dezembro soube-se «que o Comité foi chamado pelo ministro e suprimido o “vagão fantasma”, sendo soltos todos os grevistas na linha do Douro e Minho.»

No dia 6 de Dezembro, no Barreiro «estavam proibidos os ajuntamentos pelas ruas e estabelecimentos, era só aviar-se e sair logo. Os jornais traziam que a vila estava entregue ao poder militar. Foi substituído o Administrador do Concelho [pelo] Sr. Capitão Loureiro. Saí de casa, cheguei ao Largo Casal, fui depois até à praia, encontravam-se muitos ferroviários. Depois juntei-me de conversa com o Luís Penim, e outros, com respeito à nossa situação. Depois fomos pela praia, Jardim Público, Bairro Operário, etc. Pelas 17h50 chegou uma ordem que iam prender os ferroviários como vadios. Já foram presos 2 no Barreiro-A, como tal.» Na cadeia dos Paços do Concelho estava preso Júlio Veríssimo, ferroviário e Presidente da Câmara Municipal.

No dia 7 de Dezembro «andou toda a manhã o Capitão Loureiro como Administrador do Concelho e prendeu 7 ferroviários, depois mandou 3 embora. Continuavam as patrulhas pelas ruas da vila. Chegaram mais 150 praças da GNR, que fizeram aquartelamento na Associação de Classe e nas Cocheiras do Daciano. Não era permitido andar nas ruas, e, alguns empregados da Fábrica Herold, pediram um salvo-conduto. À noite houve reunião de ferroviários e corticeiros.» No dia 8 ansiava-se pelo fim da greve.

No dia 9 de Dezembro, profundamente desalentado, José António Marques escrevia: «Terminou a greve dos ferroviários. Após 70 dias em greve perdemos, pelo motivo de fome, em diversos lares».

Assim chegava ao fim uma das mais longas greves registadas no Sul e Sueste, na qual a classe ferroviária sofreu uma profunda derrota. As reclamações não foram atendidas, muitos homens foram parar à prisão e muitos outros perderam o seu posto de trabalho. Uma vez mais o movimento operário fora esmagado e vencido pela fome e pela força bruta da I República. Com isso o regime republicano, que em 1910 se afigurava promissor aos olhos dos trabalhadores, traçava a sua sorte e dava mais um passo para o desfecho fatal que é conhecido, o golpe fascista de 28 de Maio de 1926.

Rosalina Carmona

(1) - O relato por inteiro da greve, tal como o registo completo dos acontecimentos do ano de 1920, desde o dia 1 de janeiro até 31 de Dezembro, foi objecto da edição “Barreiro 1920 – Diário de José António Marques” - CARMONA, Rosalina, ed. Câmara Municipal do Barreiro/Freguesia do Barreiro/Freguesia de Santo André, 2013 e pode ser acedido
em http://memoriaefuturo.cm-barreiro.pt/arq/fich/DiarioJoseAntonioMarques.pdf

e ainda uma comunicação apresentada ao Congresso “Estudos Sobre a Indústria, o Trabalho e o Movimento Operário em Portugal”. Contribuições provenientes da série de encontros de investigadores de ciências sociais ‘Áreas Industriais e Comunidades Operárias’ organizados em 2011 em Portimão a 3 e 4 de Junho, em Lisboa a 20, 21 e 22 de Outubro, em Almada a 25, 26 e 27 de Novembro e no Porto a 16 e 17 de Dezembro, por Bruno Monteiro (Instituto de Sociologia, Universidade do Porto) e Joana Dias Pereira (Instituto de História Contemporânea, Universidade Nova de Lisboa) e disponíveis em:

http://memoriaefuturo.cm-barreiro.pt/arq/fich/A_greve_de_70_dias_no_Sul_e_Sueste_-_Barreiro_-_em_1920_0.pdf

30.09.2020 - 19:10

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