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«Girls Like That» no Teatro Municipal do Barreiro
O ruído da intimidade: entre o jogo social e a solidão interior

«Girls Like That» no Teatro Municipal do Barreiro <br>
O ruído da intimidade: entre o jogo social e a solidão interior<br>
A Companhia de Teatro Arte Viva, ontem, estreou no Teatro Municipal do Barreiro, a peça «Girls Like That», de Evan Placey, com encenação de Carina Silva.

Um espectáculo a não perder. Talvez a vida seja esse movimento de peças sobre um ‘tabulerio de xadrez’, onde tudo pode, um dia, resumir-se a ‘uma cadeira vazia’...claro!

A primeira referência vai para a encenação. Esplêndida. Simplicidade. O espaço cénico emerge como um tabuleiro de xadrez, ou jogo de damas, onde o movimento das peças se articula com elegância, construções esculturais. Os cacifos - armários – marcam o lugar, mas também são um elemento estruturante donde a peça se constrói e desconstrói, na transformação das personagens. As personagens que nascem e renascem, saindo e entrando no armário. Um desafio da vida.
Por trás, lá longe e bem perto a cidade, em grafittis de protesto, de linguagem desconexa, que grita nas paredes, dando voz a uma cultura urbana, que grita no silêncio dos grafittis.
Gosto de cenários que se misturam com o texto e com o sentir dos personagens, afinal, o teatro é isto – um espaço cénico e personagens, que, ali, num tempo real, único, na interacção valorizam e dão vida a um texto.
A encenadora enriqueceu o texto através da encenação, tanto mais, quanto a sua criação estética permitiu aos actores ser teatralidade. As construções esculturais. A musicalidade que dá força e ritmo aos movimentos dos personagens. A iluminação. Os figurinos. O jogo de cores no guarda roupa, pensados para gerar harmonia. A exploração estética da beleza do corpo humano, movimento, frescura, criando arte – dança ou escultura.
Muito bom Carina Silva! Parabéns

E, obviamente, toda a encenação só se completa no jogo das personagens, na força das personagens que emergem na interpretação, na energia que cada actriz coloca no sangue para fazer nascer o texto, no contexto cénico, sentimo-lo com toda a expressividade, nos tiques do olhar, na ternura dos lábios, na sedução, na força e no peso de cada palavra. A interpretação nasce plena de paixão, flui na forma como o texto vai sendo vivido e na intensidade que vai desocultando as emoções das personagens. Estão esplêndidas. Top. Muito top. Um texto dificil, longo ( que não se nota), muito bem interpretado.
Nota-se que as raparigas gostam mesmo daquilo, que há, de facto, em cada uma das personagens sentimento a pulsar no coração. Uma actriz nasce no momento que se despe de si e entra na personagem, vivendo o texto, sentindo o texto. Isso existe. Acredito que devem ter discutido o seu conteúdo e, que, o mesmo passou a fazer parte da vossa interioridade.
Adriana Lopes, Carolina Lobato, Ana Pimpista, Catarina Santana, Sara Santino e Vanda Robalo. Obrigado. Foram excelentes.

O texto desta peça é intenso, e, uma das primeiras ideias que me ocorre é sublinhar que, de facto, pode ser reducionista dar a esta peça uma dimensão que a contextualize, meramente, na temática da ‘igualdade de género´. Esse é um tema, um entre os muitos temas que esta peça nos motiva a interrogar no quotidiano. O texto é de facto explosivo, na linguagem, na critica, na sátira, na problematização dos comportamentos do ser humano. Homem ou Mulher. Não é por mero acaso, que o autor desdobra as personagens a viver os mesmos conflitos sociais. O texto é freudiano. O ego, o super ego, o id. A ansiedade. Os traumas. Os recalcamentos. O texto é filosofia, sociologia, antropologia, psicologia. Ah, sim politica, porque é a vida na polis. A questão de género nesta peça não é uma questão de género, é uma questão de humanidade. O género é rodapé. Claro!

Esta peça é um mergulhar por dentro da intimidade, é um confronto com a conflitualidade social, é um pulsar da solidão da interioridade. A condição humana. A inveja. As relações de proximidade. A familia. A educação.A memória. O esquecimento. A hipocisia. O ser. O parecer. A criança que fomos – há um jogo permanente neste texto que se move entre o passado e o presente. Por vezes, senti emergir no meu pensamento o filme – «Uns e os Outros» - de Claude Lelouch.
Uma linha de pensamento neste texto é a força das redes sociais, a cultura da imagem, que se sobrepõe ao ser, aquele pensamento que leva, até, a pensar a inexistência de cada um de nós, como seres humanos, com vida própria, se não estivermos presentes nas redes sociais. O mundo de ficção onde a percepção se sobrepõe à concepção. As redes sociais que desnudam, caluniam, que gera estigmas, onde o pensamento é unificado, motiva comportamentos, geram um pensamento que é diferente do pensamento único, porque é feito de uma diversidade de pensamentos unificados. A Scarlett é a vitima. E as amigas, geradoras de ansiedades, são as puristas que agem num jogo de cumplicidades. Um dessassosego.

É por tudo isto que considero um cliché reduzir esta peça à mera igualdade de género. Ela é muito mais e vale por ser muito mais. Os temas que nos propõe para reflectir não são meramente femininos, são humanos.
Olhar esta peça e pensar esta peça pelo cliché de igualdade de género não ajuda a pensar toda a sua potencialidade e humanismo, apenas gera um ângulo de visão, estigmatiza, reduz a sua força a um pensamento que se traduz num género de pensar. E, sem dúvida, senti, que nesta peça a vida é mais, muito mais, basta sentir o que os personagens transmitiram – são homens e são mulheres – num desdobramento de personalidades. São Humanos, simplesmente humanos.

Uma peça espectacular. Uma peça que surge como um grito neste tempo de confinamentos e desconfinamentos. Corpos que se cruzam em ritmo. Um texto que é explosivo.
Um tabuleiro de xadrez ( ou, jogo de damas), uma cadeira vazia. Claro!

António Sousa Pereira


SINOPSE
Seis jovens irão invadir o palco e captar a vossa atenção para vos contar a história de Scarlett. Estão preparados?

Girls Like That explora as pressões sobre os jovens de hoje com o avanço da tecnologia.
Quando uma foto de um nude da estudante Scarlett se torna viral e se espalha por todos os telemóveis da escola, a sua reputação é posta em causa e a amizade com as raparigas com quem cresceu fica ameaçada.
Mas por quanto tempo Scarlett pode permanecer em silêncio?
E porque não acontece o mesmo com os rapazes?

Autor - Evan Placey
Tradução - Ana Sofia Samora
Encenação - Carina Silva

Interpretação
Adriana Lopes, Carolina Lobato, Catarina Santana, Rolaisa Embaló/Ana Pimpista, Sara Santinho e Vanda Robalo

Assistência Encenação Joana Pimpista
Cenografia João Pimenta
Figurinos Ana Pimpista
Música Fast Eddie Nelson
Luminotecnia João Júnior Oliveira
Operação Técnica Maria Inês Santos
Design Gráfico João Pimenta
Fotografia Vera Marmelo
Produção Executiva Catarina Santana
Apoio Cenográfico António Santinho
Apoio Geral João Henrique Oliveira

M/14

GIRLS LIKE THAT de Evan Placey
Estreia: 20 NOVEMBRO 2020
21h00
No Teatro Municipal do Barreiro

Sessões às quintas, sextas e sábados, às 21h00
Reservas: 910 093 886 e/ou arteviva.reservas@gmail.com
Bilhetes à venda em BOL.PT

21.11.2020 - 20:17

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