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Elisa Esteves foi a chama da fraternidade de diversas gerações
Por António Sousa Pereira
Barreiro

Elisa Esteves foi a chama da fraternidade de diversas gerações<br>
Por António Sousa Pereira<br>
Barreiro “Esta obra é a minha filha e os pais nunca abandonam os filhos”, disse-me um dia numa entrevista. Por isso, de forma plena viveu todos os seus dias fazendo do CATICA a sua segunda casa, todos os dias, mesmo nos dias de velhice. Como dizia a Paula – “a minha velhota”. É verdade, D. Elisa, está lá presente, inscrita no coração de todos os que com ela partilharam os dias de sonho, de construção e de amor à comunidade.

Anos 80, foram anos que se inscreveram na memória. Dias de bandeiras negras da fome. Dias de luta. Para uns o importante era combater as causas, combater o desemprego e criar condições para que todos pudessem viver do seu trabalho com dignidade. É justo. Para outros, não é que não consideram imperioso criar trabalho, mas, perante a realidade nua e crua da fome e do desespero, era importante ajudar os mais necessitados perante a crise. A fome era real. O Bispo Vermelho, D. Manuel, apelava à acção da Igreja.
A Península de Setúbal vivia dias dolorosos. A crise da desindustrialização destruía milhares de postos de trabalho. Havia fome. Havia dor.

Elisa Esteves, católica, nos anos 80 integrava um grupo de voluntários que percorria a zona rural dos concelhos do Barreiro, Moita e Palmela, para ajudar os mais necessitados, ajudar na limpeza das barracas e levar comida. Era uma missão que cumpria, com um sentido humanista. A caridade. A solidariedade.
Um dia sonhou arrancar com a construção de um lar de Idosos e, do sonho à realidade, foi um salto. Nasceu o CATICA - Centro de Assistência à Terceira Idade de Coina e Arredores, reparem no pormenor «Coina e Arredores», porque os arredores eram os bairros nas zonas limítrofes que tocavam o território do concelho do Barreiro, mas pertenciam à Moita, a Palmela, Sesimbra ou até mesmo Setúbal.

Nesta actividade de dar a conhecer a vida da região, um dia visitei o CATICA, e, fui recebido pela então «Encarregada Geral», Elisa Esteves, uma pessoa de uma grande simplicidade e ternura. Uma pessoa que vivia de forma apaixonada, com espirito de missão e entrega, esta missão social e civica de servir a comunidade. Uma pessoa afável. Comunicava de forma simples e suave. Olhava, olhos nos olhos. Sorria com o seu olhar. Comunicava com o seu olhar. Uma presença de sobriedade e dignidade.
Todas as vezes que fui recebido no CATICA, quer em reportagem, ou outras vezes como convidado para participar em iniciativas, algumas delas através da minha amiga Paula Gonçalves, lá estava D. Elisa, para me receber e para partilhar o encontro, trocar umas palavras. Era uma conversadora. E sabia escutar, atenta. Discreta.
Ela gostava de estar presente. Partilhar conversas. Nem que fosse apenas para escutar. Estar ali, partilhar, era estar viva e activa. Assumia o seu envelhecimento activo. Era uma mulher de diálogo, de garra, tinha as suas convicções religiosas e politicas. Católica e social democrata, convicta. Isso nunca a impediu de dialogar de forma fraterna com os que pensavam de forma diferente. Era uma mulher que tinha a democracia a pulsar nos seus actos.

Sonhou com o Lar de Idosos e Centro de Dia, lutou e ergueu-o, com governos do seu partido, com governos do PS, com Câmaras CDU e com Câmaras PS. Com todos dialogava com carinho e respeito. Não com subserviência, mas com diálogo, aquele diálogo que fazem as pessoas que sabem estar de pé na vida.
Ela estava ali para servir a comunidade. Os politicos existem para servir a comunidade. Era um diálogo entre pessoas que tinham um objectivo comum – servir a comunidade e melhorar a qualidade de vida das pessoas. É isto a democracia. É isto a acção civica.
É isto, afinal a cultura associativa do concelho do Barreiro. Uma cultura de solidária e multicultural. Por essa razão, merecidamente recebeu o galardão «Barreiro Reconhecido».
Dizia, que a D. Elisa, Sonhou o Lar de Idosos. E a obra nasceu. Depois sonhou a Creche e o Jardim de Infância, e a obra nasceu. Foi tão lindo viver aqueles dias de inaugurações. Os seus olhos rejubilavam. Missão cumprida.
É por isso que o seu nome está inscrito na Vila de Coina e arredores, porque, com o seu trabalho e entrega, abriu portas à esperança, ergueu um mundo melhor, cultivou o amor. Criou uma empresa, gerando postos de trabalho. Criou condições para idosos viverem os seus dias com humanismo. Criou espaço para as crianças descobrirem as cores e os valores da vida, vivendo com conforto e partilha, os primeiros dias da vida.

Foi uma mulher inovadora, abrindo espaço aos jovens, para criarem e inovarem, dando condições para o nascimento em Coina de uma cultura «hip-hop» que já escreveu páginas ao nível nacional e internacional.

Quando recebi a noticia da morte de Elisa Esteves, ocorreram-me à memória os muitos momentos que partilhamos, os almoços de risadas e estórias. E a forma atenta como ela acompanhava aquelas conversas sobre o 25 de Abril e outras participações, para as quais era convidado, porque o CATICA, sempre foi uma instituição onde a criatividade deu vida aos dias.

Elisa Esteves é um exemplo de vida que nos diz, com um sorriso, que é o sonho que comanda a vida, que é pelo sonho que vamos, que é pelo sonho que fazemos acontecer, pode ser dificil, pode ser doloroso, mas, se acreditamos o sonho está lá à nossa espera, sempre que nós nos realizamos no sonho que somos o sonho é realidade.

Elisa Esteves sonhou e deixou o seu sonho erguido, a obra que está feita – a obra edificada e a obra humana, essa, que fica inscrita na saudade, na ternura e no amor que semeou vivendo de forma plena o – “amai-vos uns aos outros”.
Elisa Esteves foi a chama da fraternidade de diversas gerações. Uma mulher que serviu a comunidade. Uma mulher que viveu por dentro do coração a palavra Fraternidade.

Guardo o brilho dos seus olhos, nos meus olhos, aquele olhar com as rugas do tempo a sorrir, fluindo felicidade. A felicidade de quem viveu fazendo o que gostava, dando de si, cultivando amizade, respeito pelas diferenças, em actos, puros e humanos.
“Esta obra é a minha filha e os pais nunca abandonam os filhos”, disse-me um dia numa entrevista. Por isso, de forma plena viveu todos os seus dias fazendo do CATICA a sua segunda casa, todos os dias, mesmo nos dias de velhice. Como dizia a Paula – “a minha velhota”. É verdade, D. Elisa, está lá presente, inscrita no coração de todos os que com ela partilharam os dias de sonho, de construção e de amor à comunidade.
O mundo ficou melhor com a sua dedicação e vivência activa da palavra fraternidade. Obrigado!
Até sempre D. Elisa.
Permita-me que diga: Até sempre amiga Elisa.
Um beijo.

António Sousa Pereira


10.06.2021 - 07:19

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