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Peniche / Baleal – um ilha paliçada!
Só se ama aquilo que se sente no coração...

Peniche / Baleal – um ilha paliçada!<br>
Só se ama aquilo que se sente no coração... Há lugares que se inscrevem nas nossas vidas, porque neles descobrimos o sabor da terra, o sabor do mar, o sabor da vida a pulsar nos olhos.
Há lugares que são a natureza pura, que, afinal, nunca deviam ser tocados pela acção humana que tudo transforma, na sua acção humanizadora da paisagem.

Há lugares onde sentimos a natureza tocar a profundeza do nosso olhar, esse recanto onde sentimos a nossa pequenez e a energia da terra, do céu e do mar.

A ilha do Baleal é um desses lugares, um espaço único, de uma beleza esplendorosa, ali, sentimos o mar beijar, afagar, bater, explodir, deslizar sobre a terra, deitar-se no areal e abraçar as rochas.
Uma ilha que nos ensina a sentir a natureza, na sua relação com o ser humano, a sentir o ser humano na sua relação com a natureza.

Uma paisagem de beleza única ao pôr-do-sol, ao nascer do sol, ao longo do dia com os raios a mergulhar num espelho prateado, ou num cristal azul e cristalino.

Amar o Baleal, é amar a pureza de um cântico que se sente nas ondas e na ternura das gaivotas.
Durante algumas décadas a Ilha do Baleal foi o meu refúgio de recuperação de forças e energias após cada ano de trabalho. Parar. Pensar. Sentir. Correr nas ondas. Escutar o silêncio. Amar natureza.

O Baleal foi-se transformando. Humanizando. Os acessos através de viatura foram sempre uma complicação. A situação melhorou com a permissão de entrada apenas a residentes, com a proibição de estacionamentos. Mas, sei, que ao longo dos anos este é um problema, afinal, todos querem fruir a paisagem e ninguém quer andar uns metros, porque o carro é cada vez mais uma continuidade do corpo humano. Infelizmente.

A Ilha do Baleal devia ser preservada como um «monumento da natureza», um espaço que devia privilegiar-se a natureza e a relação do homem com a natureza. O carro ali, só devia ser permitido a residentes. Ponto final.

Uma amiga minha que sente o Baleal dentro do seu coração, enviou-me a fotografia que edito com este texto, onde, afinal, torna-se claro que a opção é permitir o fluxo de viaturas, e, para impedir o estacionamento de forma desordenada – fruto desse acesso autorizado – optou-se por «semear» por toda a Ilha uma paliçada.
Hoje a Ilha do Baleal é uma ilha paliçada.

Mas, neste tipo de intervenções, um arquitecto paisagista – se é que existiu essa presença técnica – certamente teria conversado com os residentes na Ilha, escutado opiniões, elaborado um estudo de quantos veículos são utilizados pelos proprietários de casas na Ilha. Conversava. Escutava. Ouvia sugestões. Pelo que me foi dito, a colocação da paliçada foi uma surpresa. Uns acham que pode resolver o problema do estacionamento desregrado. Outros acham que é uma afronta ao espaço natural. Opiniões divergentes, sempre existirão.

A coragem que tem que existir é esta, declarar a Ilha do Baleal «Monumento da Natureza», onde o acesso a viaturas será restrito, controlado, e, quem quiser visitar vai a pé, para quem não conseguir, deve ser criado um serviço público «tok-tok», de vai e vem, que permitia uma fruição serena.
Fazer da Ilha do Baleal, uma ilha paliçada, essa opção é que me deixou triste. E fica aqui o meu lamento.

António Sousa Pereira

16.06.2021 - 11:58

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