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associação VULTOS DA NOSSA TERRA trouxe ao Barreiro o musicólogo Pedro Marquês de Sousa
«O BARREIRO NO MOVIMENTO FILARMÓNICO»

associação VULTOS DA NOSSA TERRA trouxe ao Barreiro o musicólogo Pedro Marquês de Sousa<br />
«O BARREIRO NO MOVIMENTO FILARMÓNICO»<br />
Realizou-se na passada sexta-feira, 25 de Junho, no Auditório Manuel Cabanas, da Biblioteca Municipal do Barreiro, a 2ª Conferência do Ciclo sobre O Movimento Filarmónico, intitulada “O Barreiro no Movimento Filarmónico”, tendo como orador convidado o musicólogo Tenente-coronel Pedro Marquês de Sousa, porventura a maior autoridade no nosso País em Bandas Filarmónicas.

A conferência foi organizada pela associação VULTOS DA NOSSA TERRA, com o apoio da Câmara Municipal do Barreiro.
A mesa da conferência estava constituída por Carlos Bicas e Luís Victório, em representação da VULTOS, e pelo orador convidado, Tenente-coronel Pedro Marquês de Sousa.

ALGUMAS BREVES PALAVRAS SOBRE A VULTOS DA NOSSA TERRA

Ao iníciar a sessão, foi dada a palavra a Luís Victório que informou a assistência sobre a génese da VULTOS, associação independente, criada em 2013, sob o impulso conjugado do trabalho de resgate das memórias perdidas do importante património imaterial e material barreirense, iniciado, à data, na SDUB “Os Franceses”, por Luís Victório e Fernando Santos Costa, e o trabalho que Carlos Bicas, António Moreira e outros, muito próximos de Manuel Cabanas e Augusto Cabrita, vinham realizando, desde os anos 80 do século passado, com expressão pública na intensa actividade cultural que a Livraria du Bocage, propriedade de Avelino Esteves e Cacilda Costa Esteves, desenvolveu à época.

Luís Victório sublinhou ainda ser a VULTOS um projecto que assenta na ambição de elevado rigor na sua concretização e de garantia de inquebrável continuidade da sua missão no tempo.
Lembrou a 1ª Conferência já realizada no Ciclo “In Memoriam JORGE TEIXEIRA”, realizada no AMAC, Auditório Municipal Augusto Cabrita, em 7 de Março de 2020, subordinada ao tema “Utopias, Mobilização e Integração em Portugal no Período entre Guerras”, e que teve como orador convidado o Prof. Doutor Paulo Guimarães, Historiador e Professor na Universidade de Évora. Sendo que a próxima conferência deste ciclo se realizará em 23 de Outubro, pelas 15h00, no AMAC, subordinada ao tema “Ferreira de Castro: que Realismo?”, tendo como orador convidado o Dr. Ricardo António Alves, director do Museu Ferreira de Castro de Sintra.
Deu ainda conta, que a VULTOS, com o apoio da Câmara Municipal do Barreiro, tem em preparação uma reedição crítica de “O Barreiro que eu vi”, da autoria do poeta, escritor, jornalista, dramaturgo e sindicalista ferroviário Jorge Teixeira, a qual será dada a estampa muito provavelmente durante o próximo mês de Setembro.

Aproveitou, finalmente, a oportunidade para informar que o quadro “O Mestre Manuel Cabanas”, da autoria do Pintor Kira, adquirido através de uma iniciativa conjunta de crowdfunding da VULTOS e do jornal ROSTOS online, à qual a comunidade barreirense aderiu solidariamente, aguarda oportunidade de realização de uma cerimónia pública para entrega do quadro à Autarquia, em ocasião durante a qual estejamos aligeirados ou libertos das limitações sanitárias em vigor por causa da pandemia.

APRESENTAÇÃO DO ORADOR

No uso da palavra, Carlos Bicas, depois de agradecer a presença generosa do público que, embora cumprindo medidas de segurança sanitária, não deixou de comparecer à ‘conferência, mesmo em tempos de pandemia, fez igual agradecimento ao orador convidado por ter aceitado o convite da VULTOS e passou, de seguida, à apresentação do currículo deste: Pedro Marquês de Sousa é Tenente-coronel do Exército, Licenciado pela Academia Militar, Mestre em História pela Universidade de Lisboa e Doutor pela Universidade Nova de Lisboa; Foi professor na Academia Militar e participou na missão da ONU em Timor-Leste (2000/2001); Foi editor da Revista de Artilharia (1997-1999) e integra o Conselho Editorial da Revista PROELIUM da Academia Militar; É membro efectivo da Revista Militar; Frequentou o Conservatório Nacional (1982 – 1986), curso de Saxofone; Em 2014 foi condecorado pelo Secretário de Estado da Cultura com a Medalha de Mérito Cultural (República Portuguesa) e pela Câmara Municipal de Setúbal com a Medalha da Cidade em 2015.; É conselheiro científico do Museu Militar de Lisboa, investigador da Universidade Nova de Lisboa e autor de diversos trabalhos sobre a história das bandas de música em Portugal e sobre a história militar portuguesa, nomeadamente: o importante estudo “Bandas de Música na História da Música em Portugal”; “História da Música Militar Portuguesa”; “Hinos Patrióticos e Militares Portugueses”; “Toques de Ordenança Militar”; “As bandas Filarmónicas no Distrito de Setúbal – Origem e Evolução da sua Actividade”; “A Nossa Infantaria na Grande Guerra”; “A Nossa Artilharia na Grande Guerra”; “O CEP / Os Militares Sacrificados pela Má Política” (em co-autoria com António José Telo).

A IMPORTÂNCIA DO BARREIRO NO MOVIMENTO FLARMÓNICO PORTUGUÊS

Dada a palavra ao orador, este começou por referir que o associativismo cultural e recreativo popular em Portugal começou com o movimento filarmónico, quando o país se tornava numa monarquia liberal, à luz da nova Constituição de 1838 que deu liberdade de associação, abrindo caminho ao associativismo cultural e recreativo. Com a Regeneração, na segunda metade do século XIX, a partir de 1851, as bandas filarmónicas protagonizaram um processo de democratização da cultura musical nos espaços públicos, das cidades às aldeias, reunindo e sociabilizando pessoas de diferentes grupos sociais, na nova sociedade liberal.

No Barreiro encontramos um interessante “caso de estudo”, numa comunidade que ficou na história do movimento associativo filarmónico, reunindo ferroviários, operários, comerciantes e trabalhadores rurais, em torno da actividade musical amadora, de elevada qualidade, pela influência muito próxima de mestres de música profissionais da capital, que se deslocavam à margem sul, criando no Barreiro, no Seixal, em Almada, no Montijo e em Alcochete, centros de excelência da música filarmónica em Portugal. Para além da qualidade da execução, foi frequente as bandas filarmónicas do concelho do Barreiro possuírem instrumentos pouco comuns noutras filarmónicas do país, como por exemplo os oboés.

A conferência do Tenente-coronel Pedro Marquês de Sousa continuou com a caracterização da evolução do movimento filarmónico no Barreiro e o seu impacto: social, musical e estético (que esteve indelevelmente associado à novidade dos instrumentos de sopro, metais e madeiras, entretanto inventados e melhorados com a introdução de pistões); e associativo, socializante e musical, destacando os casos das sociedades musicais que se organizaram no concelho e as dinâmicas políticas e sociais que marcaram a vida das suas bandas filarmónicas e dos grupos de música ligeira nos teatros e nos bailes. Do século XIX até meados do século XX, a actividade das bandas filarmónicas foi marcada por diversas fases e neste caso, a realidade Barreirense, nas décadas de trinta e de quarenta, também constitui um bom caso de estudo, revelando prematuramente o início da crise que o movimento filarmónico sentiu em Portugal na segunda metade do século XX.

Foi sublinhada pelo orador, a importância de Pedro de Freitas, um barreirense de adopção de longuíssimos anos de vivência no Barreiro, que teve o privilégio de ser o primeiro musicógrafo português no domínio do movimento filarmónico, sendo o seu livro “História da Música Popular em Portugal”, edição do autor de 1946, um marco na historiografia do género.

O orador, ao terminar, evocou as páginas escritas pelo barreirense Jorge Teixeira em “O Barreiro que eu vi” sobre o fulgor da arte musical e do movimento filarmónico no seu apogeu no Barreiro, aquilo a que os autor denominou “rios de música”:
“As casas cantavam. Por esses trinados logo os sócios podiam anunciar a beleza das sinfonias. Volta e meia, sob qualquer pretexto, as vistosas bandas marchavam e tocavam “passo-double” alegres, marchas, hinos vibrantes, ruas fora, com chusma de cabeças à janela, à frente uma onda frenética de moços a entoá-los e a apanhar canas de foguetes, atrás um rio de gente ébria de felicidade, sócios da mesma agremiação, ferrenhos admiradores, amigos e camaradas dos músicos. A festa social transbordava para a rua. Carecia da sagração do povo, que em uníssono, se regozijava com a alegria dum aniversário de colectividade, a comemoração de uma data histórica, da chegada de entidades eminentes ou efemérides concelhias”.

Terminada a intervenção do orador, foi dada a palavra à assistência para comentários ou interpelações ao orador.
Findo o período de diálogo com a assistência, Carlos Bicas informou os presentes da intenção da VULTOS de vir a editar a documentação produzidos nas duas conferências sobre o movimento filarmónico no Barreiro, com particular realce para um estudo que o Tenente-coronel Pedro Marquês de Sousa tem em preparação sobre a história sobre o movimento filarmónico no Barreiro.
Lembrou ainda a assistência que 17 de Junho de 1922 foi a data da conclusão da travessia do Atlântico, em hidroavião, por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a qual culminou com a chegada dos aviadores à cidade do Rio de Janeiro no Brasil. Essa proeza foi, à época, celebrada apoteoticamente no Barreiro, com muito povo, concentrado no antigo Largo Casal e com “rios de música”. Foi na sequência desse notável evento que o Largo Casal passou a ser denominado “Gago Coutinho e Sacadura Cabral”. Está lá uma placa que lembra a efeméride. Ate então, o movimento Regenerador, saído, a partir de 1851, do do dinamismo liberal do seculo XIX, no domínio do pensamento e da cultura, tinha sobretudo raízes literárias, como o prova o monumento dedicado a Camões, em Lisboa (1880). Porém, o feito dos dois aviadores portugueses, nos primórdios da aviação e das grandes transformações cientificas e técnicas finisseculares, foi tido como um empreendimento que fez renascer o espírito cientifico que havia marcado a história da expansão portuguesa no mundo. Por esse motivo, é intenção da VULTOS, em 17 de Junho de 2022, por ocasião do centenário da travessia, promover no antigo Largo Casal uma simbólica e justa cerimónia de homenagem aos dois heróicos aviadores portugueses.

MOMENTO MUSICAL

No término da conferência, um “cavalinho”, extraído da “Orquestra Baía”, constituído por oito músicos, metais e bateria, dirigido por Bernardino Sota Batista, interpretou, com muito agrado e aplauso dos presentes, os seguintes hinos patrióticos, escolares e operários: Hino Maria da Fonte; Hino da Restauração; Hino das Árvores; Hino do 1º de Maio; Hino da SDUB "Os Franceses"

Barreiro, 25 de Junho de 2021,
CB

27.06.2021 - 17:15

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