Conta Loios

postais

Crónicas de um Tempo Já Vivido
Acerca de Cinemas, de Filmes e do Inesperado
Henrique Bonança
VRSA

Crónicas de um Tempo Já Vivido<br>
Acerca de Cinemas, de Filmes e do Inesperado<br>
Henrique Bonança<br>
VRSA Já depois da revolução do 25 de Abril, nos tempos em que surgiram e se tornaram moda os filmes indianos, a minha tia Isabelinha rapidamente ficou uma grande fã. Sempre que podia, ia assistir a uma dessas fitas.

Por norma no Cine-Foz, belíssima sala de cinema da sua preferência, até por das três que existiam ser a que se localizava mais perto de casa. Numa dessas vezes, para não ir sozinha, tendo em conta não ser adequado que uma senhora casada o fizesse, como acompanhante levou a minha irmã Deolinda que à época nem dez anos teria.

Aquele que deveria ter sido um momento de descontracção para a minha tia, complicou-se ainda no período anterior ao começo do filme, depois do documentário dos eventos sociais com as habituais coscuvilhices, algo parecido ao “Assim Vai o Mundo” dos tempos do antigo regime, antes dos desenhos animados, ao publicitarem os filmes a ser exibidos proximamente: por lamentável grande falta de sorte, um desses filmes era pornográfico, daqueles que traziam à vila barcos da carreira de Ayamonte carregados de espanhóis com as hormonas aos saltos, a correr desalmadamente ao longo jardim, desde a fronteira até à sala de cinema.
Uma inesperada e angustiante situação, amplificada ainda mais quando no enorme ecrã apareceram imagens de sexo explícito com escandalosos planos de pormenor!

Chocada, com a menina a assistir a cenas tão inapropriadas, com evidente dificuldade em gerir o assunto, a minha tia Isabelinha, sabiamente, resolveu-o relativizando-o, pedindo à minha irmã que não contasse nada lá em casa: assim como que um segredo só delas, algo que as unia!

E, devo dizer que ficou bem resolvido, o sigilo foi totalmente respeitado: só tive conhecimento da estória quando eramos todos já muito adultos!

Por esses tempos, a minha prima Graça que vivia em França, veio passar umas férias de verão a casa dos meus pais. Para a acompanhar e ajudar a integrá-la na família que ela mal conhecia e, em simultâneo, impedir que sentisse demasiado o peso da enorme distância até aos pais e aos irmãos, evitando desse modo excessivas saudades de casa, a minha tia Isabelinha decidiu levar a sobrinha ao Cine-Foz, onde estava em exibição um filme francês, circunstância que alegraria a menina.
Com a actriz Sylvia Kristel em grande forma no papel de Emmanuelle, nome da protagonista que oferecia o título a um filme inapropriadamente erótico, contrariando o que se pensava que seria, a escandalizada tia Isabel e a prima Graça abandonaram apressadamente a sala antes do intervalo.

Uns anos depois, em finais dos anos oitenta ou, talvez, princípios dos noventa, tendo já ouvido falar do alemão Rainer Fassbinder, realizador falecido ainda muito novo poucos anos antes, enquanto caminhava pela calçada da Avenida 5 de Outubro rumado à empresa onde trabalhava, ao passar pelo cinema Nimas em Lisboa, vi uns cartazes que publicitavam a exibição de um dos seus filmes: de imediato, decidi aproveitar a estadia na capital para finalmente ter contacto com o seu trabalho, que me diziam ser de abordagem alternativa e altamente inovadora.

Nesse final de tarde ou princípio da noite, entusiasmado pela inesperada oportunidade que me surgira, cheguei com algum atraso em relação à hora da sessão que escolhera; na bilheteira ainda aberta, comprei um bilhete e entrei na sala já escurecida, com a projecção a iniciar-se. Depois de me ajudarem a localizar o meu lugar, sentei-me e tentei focar-me nas imagens que passavam no ecrã. Não me lembro qual dos filmes do afamado realizador estava a ser exibido, no entanto, quanto a questões de ordem estética, sem que consiga já chegar ao argumento e ao enquadramento, recordo-me de coreografias em que participavam actores de calças brancas à “boca-de-sino” com os cós muito colados aos quadris para realçar as formas, ostentando musculosos e elegantes dorsos nus depilados, completando a exígua fatiota usando bonés de marinheiros com fitinhas a bater na nuca, movendo-se agilmente com excessiva proximidade e demasiada intimidade. A estranheza pelo conteúdo foi crescendo até ao intervalo, momento em que aproveitei para ir à casa de banho.

Ao sair, reparo que os grupinhos que se formaram na zona da cafetaria para opinar e debater em surdina e evidente entusiasmo a obra exibida, eram constituídos só por homens. Talvez por não ver no espaço quaisquer mulheres, o meu desconforto aumentou e, sentindo-me desenquadrado na atmosfera ali criada, sai e fui passear pelas ruas já desertas de uma cidade que sempre me encantou.
Claramente, há cerca de 30 anos atrás ainda não estava minimamente preparado para as singularidades da obra do Fassbinder!

Henrique Bonança
VRSA – 02 de Julho de 2021

04.07.2021 - 22:54

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.