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TAS - Teatro Animação de Setúbal
Cruz de Giz – uma peça para sentir com os nervos e no coração

TAS - Teatro Animação de Setúbal<br />
Cruz de Giz – uma peça para sentir com os nervos e no coração Há alguns anos que não tinha o prazer de assistir a um espectáculo do TAS – Teatro de Animação de Setúbal, um grupo que é uma referência e indissociável do nome da cidade que o viu nascer, na época sendo o sonho de descentralizar e fazer nascer na cidade sadina um Grupo de Teatro Profissional, com qualidade e com energia para se afirmar como escola de conquista de públicos e formação de actores.

Não conheço as actuais condições de trabalho do TAS, nem qual o seu espaço teatral de residência.
Fui assistir à sua 140º produção a peça « e outros textos de Bertolt Brecht», em cena na GRÁFICA – Centro de Criação Artística – Setúbal, com encenação e direcção de Duarte Victor.
O espaço onde a peça é levada à cena, só por si, é ele mesmo um desafio, para o encenador, para os técnicos de luz e som, para a criação estética do espectáculo e, acima de tudo, de grande exigência ao nível de dicção, por arte dos actores e actrizes.
Uma peça cujo texto nos permite mergulhar pelo ambiente psicológico e sociológico que marcou a realidade alemã, no decorrer do regime nazi. O medo. A solidão. A resistência
Por essa razão, para começar quero salientar a magnificência da encenação. A energia dramática e poética colocada na criação de cada quadro, A combinação estética de multimédia, com a pintura, valorizando com arte o espaço cénico, criando quadros de grande beleza e plasticidade.

Uma encenação onde as imagens reais de um passado, a preto e branco, transportam as personagens para esse mundo de domínio absoluto do corpo e da mente. Um guarda roupa estudado ao pormenor. Uma iluminação que permite aos personagens entrar e sair de cena, no mesmo espaço cénico, onde os bastidores de mistura com o palco, proporcionando ao espectador entrar na intimidade dos actores – personagens. Nudez total. Criatividade absoluta. Dando dinâmica e ritmo ao espaço cénico.
Aquele inicio do espectáculo, no exterior, que permite viver a sensação de uma caminhada silenciosa, para dentro de algo que se desconhece, enigmático, mas que faz a memória recordar as cenas dos campos de concentração, onde os condenados eram recebidos ao som de violinos. Aquela caminhada ao ritmo das sonoridade subtil do acordeon de Celina da Piedade, delicado e terno, é um momento de grande esplendor, dramático e lirico.

O público é transformado em actor, proporcionando a cada, naquela caminhada sentir, o silêncio da solidão, do medo pelo desconhecido, a incerteza da entrada num campo de concentração. Entre o ladrar dos cães. E a melodia que convidava meditar. Sentir nas imagens reais.
As interpretações são vividas com intensidade. O espaço exigia um grande esforço, por essa razão, por vezes perdia-se o sentido de um ou outro texto, devido às condições sonoras do espaço. Um destaque ao actor José Lobo, que dá uma intensa dimensão dramática ao seu personagem.

Nos tempos de hoje, recordar e trazer para os palcos os textos de Brecht é dar ao teatro uma dimensão estética e civica, é recordar que, em todos os tempos a vida é uma batalha e, em todos os tempos, é preciso passar o testemunho e recordar para que a memória não esqueça que o mundo há cerca de 75 anos vivia este drama de medo, morte, de destruição humana, que levava a ter medo das paredes e cada um, até, do seu próprio silêncio. E Portugal, também, tem as suas memórias.
Uma peça que gostei de ver, pela envolvência espacial, pela beleza estética, pela actualidade da sua mensagem, porque, em todos os tempos Brecht inquieta e, afinal, é pela inquietação que rasgamos os caminhos da Liberdade.
Obrigado ao TAS pelo convite. Vale a pena ver e sentir…porque esta é uma peça para sentir nos nervos e no coração.

António Sousa Pereira

Ficha Técnica

Tradução – António Conde
Encenação e Dramaturgia – Duarte Victor
Música e Canto – Celina Piedade
Audiovisual e Multimédia – João Bordeira
Criação Plástica – (espaço cénico, figurinos e design gráfico) - Rita Melo e Ricardo Crista
Desenho de Som, luz e operacionalização técnica – José Santos e Álvaro Presumido
Execução de Guarda Roupa - Gertrudes Félix
Contra Regra- João Carlos
Produção – Célia David
Divulgação – Miguel Assis
Secretariado – Ângela Rosa
Assistência de Produção – Daniel Janeiro

Bertolt Brecht

Nascido a 10 de Fevereiro de 1898, em Augsburg, Baviera. Império Alemão. Foi um destacado dramaturgo, poeta e encenador. Os seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram profundamente o teatro contemporâneo.

Sinopse

O espectáculo foi construído a partir do texto – O Terror e a Miséria do III Reich, 1938. É composto por um conjunto de quadros independentes : A Traição; O Bufo; a Judia; Cruz de Giz; Referendo e Nada é impossível mudar (poema).
Pretende dar um panorama da sociedade alemã sob o domínio nazi.

11.10.2021 - 19:05

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