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Armando Seixas Ferreira o Repórter da História
Uma viagem da Monarquia Constitucional à independência do Brasil
1821 – O Regresso do Rei

Armando Seixas Ferreira o Repórter da História<br />
Uma viagem da Monarquia Constitucional à independência do Brasil<br />
1821 – O Regresso do Rei<br />
Hoje à tarde a convite de Armando Seixas Ferreira, no Auditório Manuel Cabanas, na Biblioteca Municipal do Barreiro, um sala repleta, apresentei o seu livro «1821 – O Regresso do Rei - A viagem de D. João VI e a chegada da Corte a Portugal»*. Um dia que vai ficar na memória.

Aqui fica o texto integral da minha reflexão após a leitura do livro de Armando Seixas Ferreira, que foi a minha intervenção na sessão de apresentação:

Apresentação do livro «1821 – O Regresso do Rei»
. A viagem de D. João VI e a chegada da Corte a Portugal
de Armando Seixas Ferreira

Boa Tarde,

Quero começar por agradecer o amável convite do meu amigo Armando, para estar com ele, e com todos os que aqui marcam presença, neste dia de apresentação do seu livro - «1821 – O Regresso do Rei».

Conheço o Armando dos dias do Jornal do Barreiro, tempos que neste concelho a imprensa regional contribuía para o pulsar da cidade, num concelho onde a vida era dinâmica, activa e com trabalho, de gente que vivia e aqui trabalhava, de gente que aqui habitava e diariamente marcava um ritmo intenso entre as duas margens.

O Armando tinha o jornalismo no sangue, escrevia com o coração, com sentimento, quer no JB, quer como Correspondente do jornal «Público». Depois seguiu-se a televisão. Habituou-nos a entrar em nossa casa, e, nós a dizermos para os nossos filhos: Olha o Armando! Ele é de cá, do Barreiro.

Mantivemos sempre uma relação de amizade e de respeito mútuo, partilhei com ele momentos que ele viveu com ternura. Recordo o dia que ele me disse ter sido o vencedor do Prémio Paridade Mulheres Homens na Comunicação Social, com a reportagem «Mulheres à Prova de Bala», emitida pela RTP 1.
Ou, o dia que, feliz, me comunicava que tinha sido ele a realizar a primeira reportagem feita por telemóvel na televisão portuguesa.

Tudo isto para dizer que foi, uma agradável surpresa ter recebido este desafio de, na sua terra, com a sua gente, com os seus amigos, ter a honra de apresentar este seu livro, uma obra que, desde já, fica inscrita na historiografia de Portugal, e, também, faz parte da história do jornalismo português.

Ao ler o livro do Armando, à medida que avançava nas suas páginas, veio à minha memória uma discussão académica que, por diversas vezes mantive com o saudoso José Caro Proença.
Ele defendia que o primeiro jornalista português tinha sido Álvaro Velho, do Barreiro, que escreveu o «Roteiro da Viagem de Vasco da Gama à Índia». E, dessa tese ninguém o demovia.

Eu dizia-lhe que o jornalismo só começou a existir com as publicações de carácter periódico e com a sua ampla divulgação, e, portanto, o «Roteiro do Gama, escrito por Álvaro Velho, não se enquadra nesse modelo.

Ele refutava. Estávamos por ali, em passeio, por Alburrica a conversar. Teimosos. Divertidos. Dialogando.
Nessas conversas disse-lhe que, pelo ponto de vista dele, eu considerava que o primeiro jornalista português tinha sido Fernão Lopes, que publicou as Crónicas, onde registou as memórias da Revolução de 1383- 1385.

E, lá continuávamos a nossa discussão. José Caro Proença defendendo que Álvaro Velho, foi o primeiro jornalista, porque foi um repórter que relatou a viagem dia-a-dia. Um jornalista em reportagem.
Eu refutava, dizendo que o primeiro jornalista tinha sido Fernão Lopes, que foi cronista, um jornalista que mergulhou na história, que viajou pelas memórias de um país – da Nobreza, do Clero, do Povo. Um jornalista também é um cronista. E, este, Fernão Lopes, fala-nos dos ventres aos sol e das multidões que movem e fazem nascer a história. Um repórter da história.

Ora, esta obra - «1821 – O Regresso do Rei», tem essa marca, tem essa impressão digital, o adn do jornalista, do cronista, do jornalismo de investigação, dos factos que forjam o jornalismo.
Fernão Lopes não tendo vivido os acontecimentos, investigou, relatou, transmitiu os sentimentos de uma epopeia histórica, da revolução medieval portuguesa, com rigor e objectividade. Foi um repórter da história.

Esta obra – «1821 – O Regresso do Rei», é uma obra escrita com paixão e ternura. Uma obra que tem um herói – D. João VI. E, ao seu lado, “uma rainha má”, D. Carlota Joaquina.

Esta obra tem a força e a energia para ser a base de um documentário histórico para a televisão, ou para a produção de uma série épica, ao belo estilo das séries da Netflix – caso da série Simon Bolivar – ou, mesmo, para um filme épico, sobre o nascimento de uma nação chamada Brasil, ou, como um país da Ibéria derrotou o grande imperador Napoleão.

Este é um livro escrito com rigor, com um estilo jornalístico, com uma linguagem fluente, que conta a história de um povo, de um país à beira mar plantado, que, numa época de emergência e conflito de duas grandes potências mundiais pelo domínio dos mares – Franceses e Ingleses – nesse tempo, este povo, liderado por D. João VI, de forma estratégica, com operacionalidade diplomática, soube recuar para o Brasil, mantendo a soberania, e, 14 anos depois regressa, vitorioso, para fazer renascer Portugal, ao mesmo tempo que deixou na América, as sementes e a organização administrativa de um território onde um novo país soberano estava prestes a nascer – o Brasil.

Esta obra de Armando Seixas Ferreira é oportuna. Surge num tempo oportuno. Vai ter sucesso em Portugal e no Brasil, pelo seu realismo e pela sua historicidade.

Uma obra que faz sentir no coração a barbárie da escravatura.
Uma obra que faz sentir nos nervos a angústia de uma batalha naval. O horror dos ataques dos corsários.
Uma obra que faz sentir a bravura e a heroicidade das viagens marítimas, no enfrentar o mar, ora calmo, ora cavado, o frio, o calor, a fome, as doenças. A disciplina, a organização, os castigos, a gratidão.

Uma obra que é preciso estar atento aos pormenores, sentir, por exemplo o papel da imprensa no fazer acção politica, num confronto de ideias, no fazer cidadania, nos conflitos nas cortes, no nascer dos partidos ou papel subtil das sociedades secretas.
Uma obra onde sentimos como as guerras palacianas, os jogos de poder, os interesses individuais se sobrepões ao sentir e viver de uma comunidade.

Sim, é verdade, não pensem que vão ler um romance, ou uma obra de ficção. Vão ler páginas da história reais, escritas com beleza. Uma sucessão de quadros. Quadros vivos de um país real, de uma época real. O ser humano na sua hipocrisia e na sua beleza. O ser humano em combate com a natureza. As estratégias diplomáticas.

Esta obra é uma narrativa jornalística, uma aventura, uma epopeia, escrita com amor, escrita para honrar o lugar que na história pertence a D. João VI. O homem que derrotou Napoleão.
O rei que, afinal, abriu o caminho para consolidar a realidade histórica de Portugal, que deixou para trás o absolutismo do rei, aceitou as Cortes e a Constituição, assim como valores que marcaram o nosso país até à instauração da República, e, deixou as sementes que forjaram as vivências de Portugal nestes últimos 200 anos.

Num certo momento da sua escrita, o jornalista-escritor, Armando, refere as noticias que correm por Lisboa, quando da chegada do Rei a Portugal, salientando como, através da noticias é importante conhecer “o espirito da tropa, nobreza e povo”, que podia influenciar a autoridade real.
Li, e reli, e fiquei a matutar neste tropa – nobreza- povo”, porque, afinal, estar era a nova realidade que nascia e substituía o anterior conceito, do Antigo Regime, que tinha por base o pensar «clero- nobreza-povo».
Uma mera reflexão. Porque, na verdade -a tropa – a nobreza (os políticos) e o povo – vão ser uma presença permanente durante dois séculos – na Monarquia Constitucional, na República, no Estado Novo e na República de Abril.

As Cortes. As tropas, Os partidos, Os Franceses. Os ingleses. Os espanhóis. Os absolutistas. Os Liberais. Os cofres vazios. As riquezas do Brasil.

Estas ideias, estes factos, vão nascendo na leitura, nessa vontade de perceber mais e melhor, de descobrir a nossa história, através deste entrar com entusiasmo na beleza da memória e sentir através dela esse valor humano de uma comunidade e de um país – o ter memória e poder reviver o orgulho das vivências inscritas nessa memória.

O livro - «1821 – O Regresso do Rei» lê-se com serenidade, é preciso ler com serenidade, para sentirmos que vamos caminhando nas palavras, sentirmos o regresso ao passado, com vivacidade, com fervor humano, é essa a leitura que o Armando nos lega com o seu trabalho épico.

Sentimos que na história somos um todo, uma frota, composta de muitas naus, a rasgar as ondas do oceano, somos um país, e, naquele tempo, como em todos os tempos, há sempre um líder que escreve o seu nome na história, porque os seus actos são decisivos para fazer a história do país e de um povo.
É esta a justiça que o jornalista e escritor barreirense, Armando Seixas Ferreira, faz a D. João VI.

É por isso que, neste ano de dois mil e vinte e um, a obra «1821- O Regresso do Rei», inscreve-se, por si mesmas, como uma página da história do nosso país e do outro, nascido nas nossas sementes – o Brasil, que vai comemorar em 2022, os seus 200 anos.

Ah, é verdade, afinal, posso concluir que um jornalista também é um cronista, um cronista da história.

O jornalismo para além de fazer no presente a história do futuro, também pode mergulhar no passado e através da estratégia do jornalismo de investigação fazer da memória actualidade – o presente que se faz sempre futuro!
Armando Seixas Ferreira, um repórter da história.

Obrigado Armando por este teu belo trabalho, que me deu um enorme prazer ler, e que, a ti, de certeza, deu-te um grande gozo escrever, e, muitas, mesmo muitas horas de investigação e pesquisa.

Sim, é esse o gozo de fazer jornalismo, legar páginas que serão, no futuro, um pouco do que vai ficar da espuma dos dias, e, um pouco do que vai restar da nossa memória colectiva.

Eu, que não sou monárquico, quando acabei de ler o livro, apeteceu-me gritar : Viva El Rei D. João VI.

António Sousa Pereira
Barreiro – 23 de Outubro de 2021


23.10.2021 - 21:43

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