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BARREIRO - Carlos Bicas, da associação Vultos da Nossa Terra
Um Povo que não preserva a sua História viverá aprisionado no seu isolamento

BARREIRO - Carlos Bicas, da associação Vultos da Nossa Terra<br>
Um Povo que não preserva a sua História viverá aprisionado no seu isolamento Carlos Bicas da associação Vultos da Nossa Terra, na sua intervenção na cerimónida de Comemorações do Centenário da primeira travessia aérea do Atlântico Sul por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, evocando um evento que naquele largo decorreu há 100 anos, sublinhou que a "a sensibilidade que emerge" desta iniciativa, reside na "necessidade e urgência de preservação da nossa Memória colectiva e de laços de Solidariedade, uma vez que um Povo que não preserva a sua História e não constrói pontes e consensos sociais, viverá aprisionado por paredes e muralhas e, no seu isolamento, ficará inexoravelmente entregue às imprevisibilidades contingenciais do futuro".

Pelo seu interesse histórico e pela dimensão cultural da intervenção de Carlos Bicas, que foi remetida para a nossa redacção, transcrevemos integralmente o texto, uma página da história presente que fica como memória futura:

COMEMORAÇÃO DO CENTÉSIMO ANIVERSÁRIO DA TRAVESSIA AÉREA DO ATLÂNTICO SUL por GAGO COUTINHO E SACADURA CABRAL

(1922-2022)
BARREIRO

DISCURSO DE SAUDAÇÃO AOS CONVIDADOS E PRESENTES

Em 17 de Junho de 1922, o País entrou em euforia apoteótica. Sacadura Cabral e Gago Coutinho, duas figuras hoje lendárias, tinham cometido, com ousada bravura e sacrifico, o pioneiro e heróico feito da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, em frágeis hidroaviões.

Efectivamente, naquele dia, por todo o Pais, a imprensa deixou documentada as incontidas manifestações de júbilo dos portugueses. E não só naquele dia: a epopeia dos dois aviadores, oficiais de Marinha, que demoraria 78 dias, de 30 de Março a 17 de Junho de 1922, utilizando durante o périplo três máquinas voadoras, fora seguida com atenção, expectativa e muito entusiasmo pelos portugueses, através dos telegramas das agências noticiosas e dos jornais (naquela época a rádio e a televisão, ainda não tinham feito, sucessivamente, os seus aparecimentos triunfantes, e muito menos a internet…).
Os festejos decorreram no Barreiro à mesma hora e com o mesmo entusiasmo contagiante que se apoderou dos lisboetas. O jornal quinzenário barreirense “Acção” deixou-nos, pelas penas de Alberto Tomé Vieira e João Azevedo do Carmo, uma expressiva e vibrante descrição dos acontecimentos.

Nesse mesmo dia, 17 de Junho de 1912, ouviram-se, vindos de Lisboa, grandes estrondos anunciando “a Glória, a notícia, ansiosamente esperada, do fim da travessia aérea” [ou seja, a chegada triunfal dos dois aviadores ao Rio de Janeiro, no Brasil].

Foi o princípio do delírio!
[escreveu à época o jornal barreirense “Acção”]:
Deu-se então início a “demonstrações de regosijo, vendo-se algumas casas particulares embandeirarem e inaugurarem quadros alegóricos com as figuras já agora familiares de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, regosijo que se prolonga pela noite em que as bandas de música percorrem as ruas entoando a Portugueza.
“Tudo decorre entre o entusiasmo delirante […]”.

Os festejos prolongaram-se pelo dia seguinte, domingo, 18 de Junho de 1922, ou seja, há precisamente 100 anos, com alvorada às nove horas, “seguida duma imponente sessão solene organizada pela Câmara Municipal do Barreiro [CMB] e no seu edifício” sede, tendo usado da palavra vários oradores e a Banda Recreativa da CUF abrilhantado a sessão com a interpretação do Hino Nacional.

Seguidamente, foi formado um “cortejo cívico com a representação de todo o elemento oficial e colectivo para o largo da Alegria a que foi dado o nome de Gago Coutinho e Sacadura Cabral”.
No Largo da Alegria [hoje Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral], usou da palavra o então Presidente da CMB, Manuel da Silva Simplício, que “convidou Alfredo Crispim Alves, então delegado marítimo nesta vila [do Barreiro], “como representante da arma a que os homenageados pertencem, a descerrar a lápide” toponímica.
Encerrou a cerimónia a Banda Filarmónica da Recreativa e Instrução, vulgarmente conhecida por Penicheiros, executando a Portuguesa, por entre entusiásticos “vivas à Pátria e a Portugal”.

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Partindo dos empolgados relatos de época, a associação cultural VULTOS DA NOSSA TERRA decidiu comemorar no Barreiro, em cooperação muito estreita com o movimento associativo local, a CMB e o Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), o Centenário da Travessia Aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
A motivação da associação, no que tem sido acompanhada pelo movimento associativo, apoiada pela CMB e beneficiada pelo alto patrocínio do Senhor Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante Gouveia e Melo, aqui oficialmente representado pelo Senhor Comodoro José António Croca Favinha, I. Director do Museu da Marinha, alicerça-se nos mesmos pressupostos que levaram a população do Barreiro, em 1922, a saudar apoteoticamente o feito dos dois aviadores da Marinha Portuguesa.
Pressupostos, aliás, que foram os mesmos que guiaram a determinação e o querer dos próprios aviadores, os quais, com risco da própria vida, foram iluminados pela visão e convicção universalistas de serem a ciência e a tecnologia capazes de construírem pontes e caminhos, físicos e espirituais, entre continentes, entre povos e entre homens, alternativos a outros, onde antes havia abismos intransponíveis, distâncias infindáveis, míticos e temíveis Adamastores, superstições insondáveis e preconceitos vários para com o Outro distante e diferente de nós próprios.

Não nos movem, por isso, serôdios fins nacionalistas ou autarcistas. Os nossos objectivos, através da presente Comemoração do Centenário da Travessia Aérea do Atlântico Sul, foram somente, em princípio, os seguintes:

• sublinhar a valia e actualidade de virtudes como a coragem, a ousadia do enfrentamento do desconhecido, embora com prévia criação e preparação de ferramentas técnicas pioneiras que garantam a utilização segura das inovações tecnológicas emergentes, como era o caso, então, da aviação;
• a iniciativa transformadora, apoiada pelo pensamento crítico e construtivo;
• contrapor o inconformismo ao letargo e à ociosidade;
• e, sobretudo, em tempos de incertas mudanças e de negacionismos, realçar e reafirmar a importância da luz da razão e da evidência cientifica como factores imprescindível para a construção cívica da concórdia, da paz e da harmonia, que são o cume do edifício das sociedades tolerantes, empreendedoras, progressivas, coesas e socialmente inclusivas.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral deram-nos ainda, no seu tempo, uma outra importantíssima lição: não basta fazer uso cego, instintivo e indiscriminado das tecnologias emergentes; é necessário ser-se criativo e transformador na utilização destas.

Ao inventarem instrumentos próprios de navegação, portanto invenções pioneiras e inovadoras, essa vantagem permitiu-lhes cumprir os itinerários previstos na travessia com uma precisão e autonomia notáveis, não tendo necessitado, para o efeito, do recurso a marcações ou balizamentos visuais na projecção marítima do trajecto da sua viagem transatlântica.
Toda a viagem foi, por isso, orientada exclusivamente por instrumentos de navegação inovadores adaptados à aeronáutica.
E, seguramente, vantagem também pela poderosa força do humanismo que brotava do espírito destes dois homens bons e fraternos e de carácter.

A VULTOS DA NOSSA TERRA, tal como o movimento associativo aderente, tanto quanto as entidades oficiais apoiantes e patrocinadoras destas Comemorações do Centenário, comungaram, estamos disso convictos, da ideia de que a população local e regional não deixaria de dar a melhor atenção a esta iniciativa, tendo em conta a sensibilidade que emerge relativamente à necessidade e urgência de preservação da nossa Memória colectiva e de laços de Solidariedade, uma vez que um Povo que não preserva a sua História e não constrói pontes e consensos sociais, viverá aprisionado por paredes e muralhas e, no seu isolamento, ficará inexoravelmente entregue às imprevisibilidades contingenciais do futuro que são os factores que minam e fazem ruir, em geral, os alicerces das fortalezas mal construídas, inacabadas ou negligentemente defendidas.

Agradecendo a presença de todos, permitam-me, terminarei, muito republicanamente, com exultação semelhante à usada, há 100 anos, pelo então jornal quinzenário barreirense “Acção”:

“SALVÉ AVIADORES PORTUGUESES!”
GLÓRIA À MARINHA PORTUGUESA
VIVA A PÁTRIA! – VIVA PORTUGAL!

Tenho dito.
CB

Barreiro, Largo Gago Coutinho e Sacadura Cabral, 18 de Junho de 2022,

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19.06.2022 - 21:35

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