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O Barreiro - um breve olhar sobre quinhentos anos de história urbana
Por Carlos Caetano

O Barreiro - um breve olhar sobre quinhentos anos de história urbana <br />
Por Carlos Caetano De há muito que o Barreiro tem sido vítima de olhares parcelares, desfocados e preconceituosos, de que resultou uma imagem falsa sobre a cidade, a sua longa história de mais de quinhentos anos e a sua opulenta realidade urbana e social, que se afirma como uma das mais importantes e das mais originais do património urbano português.

Para alguns olhares o Barreiro foi, muito depreciativamente, uma das âncoras do poder industrial e económico do Estado Novo, enquanto para outros foi um dos ninhos mais activos de criação de revolucionários, anarquistas, socialistas e comunistas. Para uns, o Barreiro foi ou proporcionou uma das mais poluídas paisagens industriais portuguesas, enquanto para outros foi um abominável cenário de lutas operárias e afins. Para uns, o Barreiro sofreu do seu crescimento rápido e desordenado; para outros, a esmagadora maioria da sua população, recrutada à pressa e de uma forma precipitada, sofreu de um desenraizamento brutal. Para uns, o crescimento exponencial do Barreiro foi fonte de desordenamento e de anarquia urbana; para outros, o Barreiro foi e é uma grande povoação meramente periférica relativamente a Lisboa, com a desprezível função urbana de “dormitório”. Para uns o Barreiro, eixo de comunicações fluviais e ferroviárias é um simples ponto de passagem; para outros o Barreiro não teve elementos de fixação de funções urbanas “nobres” nem de moradores qualificados, pelo que a esmagadora maioria dos seus moradores estaria dependente e até refém do emprego fabril, ou forneceria mão de obra para a grande cidade. Enfim, o Barreiro, desprovido de monumentos dignos de “postal ilustrado”, sem castelos, grandes abadias ou catedrais, seria arquitectónica e urbanamente “pobre” e sumamente desinteressante no tocante a estas duas categorias.

Assim se ergueu uma lenda negra que creio ter chegado praticamente até aos nossos dias, mas que urge acabar de dissipar. Com efeito, um olhar atento e despreconceituoso depara-se com uma realidade urbana e arquitectónica (ater-nos-emos apenas a estas duas categorias no presente texto) muito rica e original e ainda por cima relativamente bem conservada e, como tal, verdadeiramente singular no quadro do urbanismo português e da sua história, como pretendemos mostrar de uma forma necessariamente muito sumária.

No Barreiro deparamo-nos com quatro realidades urbanas distintas mas justapostas, todas elas com a sua morfologia única e com a sua história e a sua identidade próprias, o que pensamos ser um caso único no urbanismo português. Assim, por ordem cronológica, temos o Barreiro antigo, de origem claramente tardo-medieval e quinhentista, ao qual se justapuseram a típica cidade tardo-oitocentista, a cidade industrial e, enfim, a grande cidade residencial moderna, fruto da inegável e inelutável expansão urbana do Pós-Guerra.

É fácil ter um olhar elitista – e até snob - sobre o Barreiro e em particular sobre o Barreiro – cidade residencial das últimas décadas, isto é, sobre a grande cidade erguida bairro a bairro, quarteirão a quarteirão, casa a casa, nos últimos 70 ou 80 anos. Não é esse o olhar do autor das presentes linhas: o Barreiro que acolheu e abrigou milhares e milhares de cidadãos, recém-chegados a um contexto urbano em pleno crescimento, perfeitamente desconhecido mas, afinal, acolhedor para quem chegava, merece a consideração de todos e, em particular, a das autoridades locais, que têm a missão (certamente complexa, muito cara e de difícil execução) de definir prioridades no sentido de intervir e qualificar urbanamente as suas diversas, dispersas e por vezes até muito dissonantes componentes urbanas, de modo a proporcionar qualidade urbana a todos os seus moradores.

A cidade industrial do Barreiro é um dos complexos mais originais do urbanismo e da arquitectura de cunho fabril em Portugal. Autêntico parque industrial, com as componentes funcionais inerentes, de algum modo fechada sobre si própria à maneira de uma cidadela medieval, cremos que a importância histórica do Barreiro industrial – e com ela a do seu urbanismo e a da sua arquitectura tão singulares - dispensam demonstração, tais são as suas potencialidades. Deve notar-se que estas não se esgotaram com a extinção e a reconversão necessária do complexo fabril, no âmbito das dinâmicas industriais vividas nos últimos 50 anos. Com efeito, a quantidade e qualidade das instalações de todo o tipo (fabris, portuárias, armazenagem, administrativas, residenciais, assistenciais, desportivas e até memorialísticas), são susceptíveis de todo o tipo de ocupações e de reconversões, visando o seu bom uso, institucional, funcional, recreativo e até turístico.

Do mesmo modo, merece referência (e estudo) a cidade oitocentista, que teve nos novos Paços do Concelho tardo-oitocentistas (?) o seu coração político, administrativo e judicial. Esta cidade tardo-oitocentista foi induzida pela revolução dos transportes e pela emergência do transporte ferroviário e teve na opulenta Estação Ferroviária terminal, a sua novíssima fachada urbana, de uma monumentalidade a toda a prova, infinitamente mais cuidada e ambiciosa arquitectonicamente do que, do outro lado do rio, a própria estação Ferroviária de Santa Apolónia de Lisboa. Toda esta cidade, na especificidade morfológica do seu desenho urbano (moderno, regular, amplo e muito salubre), na variedade das funções urbanas e na variedade das arquitecturas de múltiplas tipologias que a compõem merece consideração, pois as suas características enquanto unidade urbano-arquitectónica singular, muito coesa e muito qualificada não têm sido reconhecidas, o que tem feito com que a sua conservação não só esteja ameaçada como seja por vezes muito precária. O exemplo mais grave de má conservação é dado pela própria Estação Ferroviária do Barreiro, para a qual tem que se encontrar urgentemente uma função e um destino condigno com a sua localização privilegiada, a sua categoria arquitectónica e a sua história.

Enfim, o Barreiro de hoje ainda conserva as relíquias urbanas da aldeia primitiva, certamente de origem tardo-medieval, a que se apôs, nos primeiros anos de Quinhentos, a vila quinhentista, suscitada pela promoção do antigo lugar a vila por D. Manuel I, no ano de 1521.
O Barreiro Quinhentista é uma faixa urbana relativamente extensa, disposta paralelamente ao rio e à praia primitiva. Como antiga vila portuária, ocupada maioritariamente por gente do mar, pescadores, marinheiros, armadores e mercadores, o seu elemento mais importante e identitário era a sua ribeira, isto é, a praia extensa e muito abrigada, à semelhança da ribeira de Lisboa, equipada com cais, caldeiras (docas) e “pontes”, estas construídas provavelmente em madeira.

Nos “salgados” (praias) da ribeira do Barreiro temos que intuir (e pesquisar oportunamente) a localização das principais estruturas destinadas à construção e reparação naval e ainda as estruturas de armazenamento, de cobrança e taxação e até provavelmente de mercado. Ligeiras prospecções arqueológicas no sítio do Jardim actual facilmente trarão à luz parte das importantes estruturas portuárias do Barreiro Pré-Industrial.

Note-se que toda esta frente ribeirinha, que deve ter conhecido uma pujança económica e social de relevo, sobreviveu ao Terramoto de 1755, só desapareceu - deslocada para outras frentes ribeirinhas consideradas mais propícias, embora mais afastadas do corpo urbano primitivo - com a edificação dos paredões que sustentam o jardim ou “passeio público” marginal (o actual Passeio Augusto Cabrita), luxo urbano tardo-oitocentista que as autoridades concelhias do Barreiro ergueram, emulando assim a generalidade das cidades e vilas portuguesas, todas elas então ciosas da construção ou adaptação de jardins e parques de nítida inspiração romântica.

O corpo urbano do Barreiro Quinhentista também sobreviveu miraculosamente ao Terramoto, tendo a sua planta original chegado praticamente intacta aos nossos dias. Trata-se de um amplo corpo, disposto transversalmente, estruturado em função de duas ou três importantes ruas transversais principais, corpo este interceptado por pequenas ruas perpendiculares aos grandes eixo anteriores. Nos extremos deste corpo muito coeso surgem duas igrejas monumentais – a igreja matriz de Santa Cruz e a de N.ª Senhora do Rosário, esta na frente ocidental do Barreiro Quinhentista – ambas de grande escala, como era próprio das igrejas mandadas erguer pelas gentes do mar, muito abastadas e sinceramente devotas, igrejas estas, em tudo equivalentes (apesar dos estragos do Terramoto) às igrejas monumentais das vilas e cidades dos arredores, Alcochete, Aldeia Galega do Ribatejo (Montijo), Alhos Vedros, ou mesmo Palmela, Sesimbra e Setúbal.

A localização da igreja Matriz polariza a praça da vila quinhentista, mas coabita harmoniosamente com as duas instituições tipicamente concelhias aí localizadas: a casa da câmara e a igreja da Misericórdia, que chegaram até aos nossos dias, embora muito transformadas. A casa da câmara proporcionou a secular sede do poder local e como tal abrigou durante séculos a câmara das vereações, a sala de audiências e a respectiva cadeia, que se manteve no respectivo edifício até aos anos de 1940 (em 2004 o histórico edifício, muito transformado e mutilado, abrigava o Centro de Dia P.e Abílio Mendes). A igreja da Misericórdia era a sede da respectiva Irmandade, fundada em 1560, cujas funções sociais (e morais) estavam ao serviço e eram reconhecidas por toda a comunidade, tutelando nomeadamente (tal como as Misericórdias das demais vilas e cidades portuguesas) o hospital multissecular da antiga vila.

No Barreiro Quinhentista deve finalmente assinalar-se o vanguardismo do seu modelo urbano, devidamente “cordeado”, isto é, traçado “à corda”, de uma forma geométrica tendencialmente regular e ortogonal, embora não formalista nem muito rigorosa. Devemos notar que o traçado urbano do Barreiro Quinhentista assinala entre nós os primeiros passos do Urbanismo Renascentista, emulando o traçado pré-renascentista de Setúbal (que se mantém praticamente intacto), bem como do Bairro Alto de Lisboa (datável de 1513) e ainda o traçado urbano do Funchal e o de Angra do Heroísmo, então as duas mais importantes cidades de “Além-Mar”.

Devemos notar que a promoção do lugar do Barreiro a vila em 1521 precede a fundação de outras importantes vilas do Sul do Tejo, como por exemplo Cabeção (hoje no Concelho de Mora), Grândola ou Alvalade do Sado (Santiago do Cacém). Como tal, o traçado urbanismo do Barreiro quinhentista, precede o urbanismo renascentista destas importantes vilas quinhentistas alentejanas.

O Barreiro Quinhentista é a componente urbana mais antiga e mais pequena da cidade grande que é o Barreiro de hoje. Note-se que ela foi totalmente submergida pelo Terramoto de 1755, pois, como se vê à vista desarmada, toda a arquitectura residencial desta faixa urbana remonta ou é esmagadoramente posterior à Época Pombalina, pois apenas as Igrejas monumentais atrás referidas conservaram parcialmente a sua estrutura original tardo-quinhentista ou posterior, embora com importantes marcas do restauro e até de reconstrução parcial na Época Pombalina.

Sendo este o segmento urbano mais antigo do Barreiro, é também o mais mal conservado e mesmo arruinado, pois não só é habitado por uma população maioritariamente desfavorecida, como não tem sido reconhecida a importância histórica do seu desenho urbano, que integra a ainda muito mal estudada história do Urbanismo Renascentista Português, como vimos. Sendo a componente urbana historicamente mais valiosa da cidade, hoje ela é também a mais ameaçada. Por isso, ela deve beneficiar de um programa urgente de conservação e sobretudo deve beneficiar dos maiores cuidados da parte das instâncias competentes da Autarquia, de modo a impedir a realização de obras desqualificadas, dissonantes e impróprias de uma malha urbana tão delicada, tão qualificada e tão rara, que urge estudar, conservar e restaurar competentemente para proveito de todos, moradores, visitantes e estudiosos – e para honra, reconhecimento público e memória futura dos autarcas e das entidades camarárias que promoverem o seu restauro condigno.

Lisboa, 22 de Fevereiro de 2018
Carlos Caetano

22.01.2023 - 15:01

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