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Talentos escondidos
Por António Neves
Barreiro

Talentos escondidos<br />
Por António Neves<br />
Barreiro Vivemos na mesma rua, e quase frente a frente, há quase sete anos.
Para além do bom dia, ou boa tarde, nunca tínhamos trocado uma palavra.
Naquela manhã, cruzámo-nos no centro comercial pirâmides.
O meu vizinho transportava nas mãos, com todo o cuidado, o iate miniatura que estava a construir, e dirigia-se para a garagem, que lhe serve de oficina, para os últimos retoques.
"Que maravilha, vizinho ! Posso contemplar essa obra de arte.?

Foi o senhor que fez essa preciosidade?"
- É a minha paixão nos tempos livres, em vez de estar sentado num banco de jardim ou nas cadeiras de um café ...

A minha esposa aproximou-se e ficou ainda mais encantada...
" Quantas horas lhe levou a fazer, e como consegue fazer estas peças tão pequeninas? - perguntou, olhando o navio que o vizinho lhe deixara tomar em mãos..."
- Oh, se eu contasse as horas!... O tempo não conta, quando conseguimos o material, que é tão difícil de encontrar....
Há uns anos ainda se encontrava por Lisboa, mas agora só em Espanha é que consigo encontrar a madeira com que trabalho e as peças mais específicas..."
" Foi construtor naval, a sua profissão?"
- Oh, isso é uma grande história, de que raramente falo!
Mas falou...tão à vontade se estava a sentir com quem falava pela primeira vez de coisas de que tanto se orgulha.
Desde os tempos de serralheiro na CP até á ida para a CUF, ao convite para a Fisipe onde se foi especializando em todo o tipo de maquinaria para o fabrico de fibra, com frequentes idas ao estrangeiro, Itália e Japão, para formação especializada.
Foi um gosto ouvir uma história tão rica, ali parados, com um iate nas mãos.
A chegada da esposa veio
dar outro rumo á conversa:
- Olha, não sei o que me deu que estou a contar a minha história aqui aos vizinhos, que mal conhecia, mas que foram tão simpáticos comigo.

"O seu marido tem que escrever a sua história, que é tão rica e admirável, disse eu . Fiquem aqui um minuto, que eu vou ali a casa - pedi"
Rapidamente subi ao primeiro andar, escrevi uma curta dedicatória no livro que escrevi pelos nossos cinquenta anos de casados, e entreguei aos nossos vizinhos: já quem partilhou connosco uma parte tão linda da sua vida, queremos partilhar também convosco um pouco da nossa história...
A esposa, que não esteve connosco desde o início, agradeceu a oferta e, voltando-se para o marido:
- Temos de combinar um dia para mostrar aos vizinhos a tua coleção de miniaturas...
- Fica combinado. Mas podemos ainda dar uma espreitadela à garagem para ver a obra em que agora estou a trabalhar.
E mostrou ...
e falou das tiras de madeira que vêm de Espanha, daquelas dezenas de pecinhas e ferramentas com que as manuseia.
O tempo não dava para mais, mas foi uma manhã que valeu pelo nascer de uma amizade entre vizinhos que apenas se conheciam de vista.

Esta manhã quando saí a pôr uma garrafas no vidrão voltei a cruzar-me com o José António
- Quer dar uma espreitadela
à oficina.? É só um minuto para lhe mostrar o que acabei hoje...

Que perfeição...

Perguntei se podia tirar uma foto... e se a podia publicar no "Rostos".
- Esteja à sua vontade -respondeu.
Esta preciosidade merecia melhor que um telemóvel como máquina fotográfica...
E os trabalhos do vizinho José António merecem ser dados a conhecer, com já foram os dum outro grande artista bem conhecido, de nome Lenine.

Da minha parte, não posso deixar de partilhar as coisas boas que me me vão acontecendo.

António Neves

18.09.2023 - 16:44

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