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Barreiro - Na Galeria de Exposições do Barra Shopping
A obra D. Fernando I e D. Leonor Teles, de Horácio Alves apresentada por Lina Soares
. Fernão Lopes não terá dito a verdade em relação a esta rainha D. Leonor TelesNa Galeria de Exposições do Barra Shopping , a Associação “Vultos da nossa terra”, homenageou Horácio Ferreira Alves, autor do livro Dois caluniados, D. Fernando I e D. Leonor Teles, editado em 1927 e agora reeditado. A apresentação da obra esteve a cargo da escritora barreirense, Lina Soares.
No passado dia 21 de novembro, na Galeria de Exposições do Barra Shopping, a Associação “Vultos da nossa terra”, homenageou Horácio Ferreira Alves, que apesar de ter nascido em Azaruja, cresceu e permaneceu no Barreiro, sendo autor do livro Dois caluniados, D. Fernando I e D. Leonor Teles, editado em 1927 e reeditado em 2025 pela mesma Associação. Luís Victório, Presidente da Associação, fez saber ao público presente as razões que levaram à reedição desta obra, no presente ano: por se tratar de um aturado trabalho de pesquisa nos meandros da História Medieval Portuguesa, esquecido durante quase um século, visando duas personagens históricas que, na opinião deste autor, foram injuriosamente retratadas nas Crónicas de Fernão Lopes.
A sala encontrava-se repleta de pessoas de várias faixas etárias, algumas delas autoras dos trabalhos aí expostos, unidas com um propósito comum: partilhar a sua ligação ao Barreiro, manifestada em várias formas de arte, desde a pintura, a fotografia, a escultura, o bordado, a escrita.
Fernão Lopes não terá dito a verdade em relação a esta rainha D. Leonor Teles
A apresentação da obra de Horácio F. Alves esteve a cargo de uma outra escritora barreirense, Lina Soares, que salientou os aspetos mais relevantes da obra, desde factos históricos nela contemplados à escrita romântica que presidiu à sua redação, não sem apresentar previamente algumas notas biográficas do autor homenageado.
Horácio Ferreira Alves, ainda que desprovido de formação académica, foi um autodidata, pessoa de cultura, colaborador do jornal de Azaruja, O Mensageiro Escolar, um homem que conheceu bem as obras de historiadores e escritores do seu tempo e mesmo de séculos passados, tendo feito algumas incursões em arquivos do país e no estrangeiro, concretamente na biblioteca de Nápoles. Interessando-se por História Medieval e conhecedor das Crónicas de Fernão Lopes, algo lhe fez levantar suspeitas da forma como o cronista de quatrocentos tratara o Rei D. Fernando e sua esposa, D. Leonor Teles, sendo esta retratada no texto de Lopes como maléfica e causadora da morte de sua irmã e desgraça do seu cunhado, além de adúltera, sendo amásia do inimigo Conde Andeiro, em suma, causadora da tragédia nacional que conduziria à crise de 1383-85. Horácio Alves questiona a posição de Fernão Lopes, quando este cronista diz, no prólogo da Crónica de D. João I, que pretende “escrever verdade, sem outra mistura”, salientando o autor azarujense/barreirense, que afinal o cronista quatrocentista não terá cumprido o prometido, ao mentir e até revelar uma certa aversão pelos reis D. Fernando e D. Leonor Teles, o que não seria de estranhar, uma vez que o cronista fora pago pelo rei D. Duarte, herdeiro do trono de D. João I - o Mestre de Avis que vencera o rei de Castela, também este de nome João, que desposara D. Beatriz, a filha de D. Fernando I, e reclamara o trono português.
Na sequência de aturada investigação nas cópias existentes do texto da Crónica de D. Fernando I, e no cotejo das variantes entre esses manuscritos, Horácio Alves baseia a sua tese de que Fernão Lopes não terá dito a verdade em relação a esta rainha, já que fora elogiada nos cantares de amor trovadorescos, pela sua beleza e dignidade, tendo ficado conhecida como a “Flor de altura”.
Estranhando a atitude de Fernão Lopes na referência a D. Leonor Teles, Horácio Alves consulta obras como “Vida de Nuno Álvares”, ou “Os filhos de D. João I”, ambas de Oliveira Martins, a “História Geral de Portugal” do historiador francês La Clède, de 1787, a obra “O rei Formoso e a Flor de Altura”, de Asdrúbal A. Aguiar, bem como “Flor de Altura” de Antero de Figueiredo, ou ainda as obras de Alexandre Herculano, “Opúsculos” e “Arrás por foro de Espanha”. Aliás, concorda com Herculano quando este diz que as Crónicas de Lopes terão sido baseadas nos textos escritos no século XIV, antes de Fernão Lopes, entretanto desaparecidos e que esses é que terão servido de base a Rui de Pina e a Duarte Galvão.
Horácio Alves vai mais longe. Na sua investigação na Crónica do Condestável, de autor anónimo do século XV, escrita logo após a morte de D. Nuno Álvares Pereira, e publicada pela primeira vez em 1526, esta nada diz de ofensivo contra D. Fernando ou D. Leonor Teles. Horácio Alves opina então que a Crónica do Condestável teria sido escrita pelo seu escrivão de “puridade”, ou seja, seu secretário pessoal, Gil Aires, concordando com Júlio Dantas, na obra Outros Tempos, publicada em 1916, sobre D. Nuno Álvares Pereira.
Ora, o que se torna deveras interessante é a opinião de Horácio Alves sobre a possível alteração da atitude de D. Leonor Teles, perante o assassinato de sua irmã, Maria Teles, alteração feita por Fernão Lopes, na Crónica de D. Fernando I, que sugere que a rainha D. Leonor Teles terá instigado o cunhado, D. João, meio irmão de D. Fernando e filho bastardo de D. Pedro e D. Inês de Castro, a matar a própria esposa, irmã de D. Leonor Teles, por ter traído o marido. Horácio Alves levanta a dúvida se seria mesmo D. Leonor Teles a congeminar o uxoricídio da irmã, tendo sido ela própria a mediadora do casamento da irmã com D. João! Não terá sido antes a razão, o conluio entre esse D. João e os castelhanos que se preparavam para invadir Portugal? Ou a conspiração de D. João, Mestre de Aviz, outro filho bastardo de D. Pedro com uma amante galega, que fora desprezado pelo pai e agora se revoltava e pretendia suceder no trono a D. Fernando, seu meio irmão também?
Para Horácio Alves, quando D. Fernando e D. Leonor Teles mandam prender D. João, filho de Inês de Castro, pela morte de sua esposa, D. Maria Teles, terá sido igualmente por se descobrir a sua ligação a Castela (nunca a morte fora encomendada por D. Leonor Teles) ou então tendo o Mestre de Aviz por detrás, uma vez que foi este, na ótica de Horácio Alves, como escreve na página 82 do seu livro, “senão os seus amigos, quem espalhou na corte de D. Fernando a “mui falsa mentira” do adultério ou traição de D. Maria Teles”.
Horácio Alves continuará a defender a honra do rei e da rainha, em detrimento da suposta mentira do cronista quatrocentista, num estilo à maneira dos românticos finisseculares, e que muitos académicos perpetuariam no século XX, sobretudo entre os historiadores, como o Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, cuja prosa entrelaça os factos históricos com a escrita poética. Horácio Alves, bem podia ter escrito um romance histórico, aproximando-se de Herculano, entre ambientes dramáticos, já que experimentou o teatro, com a sua peça “A Tormenta”.
Horácio Ferreira Alves, um dos vultos da nossa terra, um escritor adormecido por um século, agora acordado nesta reedição para não mais cair no esquecimento. Fiquemos com uma das suas belíssimas passagens, localizada na página 12 do prólogo: “…a estupenda e desconcertante alma feminina criada pela inventiva exuberante do cronista palaciano [Fernão Lopes], e por ele anichada na encantadora figura de Leonor Teles, autorizando-se somente, para tanto, numa incoercível tradição oral, quasi se não compreende nem acredita nesta boa e luminosa terra portuguesa, onde se conta que a ternura das suas Mulheres sempre disputou primazias de graça e de bondade à do azul puríssimo do céu”.
23.11.2025 - 10:01
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