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Encontro com a Frente Anti‑Racista na Cooperativa Mula
O Barreiro que não se cala
No dia 1 de fevereiro, o Barreiro voltou a dizer basta ao racismo, com um encontro da Frente Anti‑Racista na Cooperativa Mula, no Largo de Santo André, a partir das 15h, com entrada livre.Não foi mais um evento cultural: foi uma tomada de posição pública contra a normalização da violência racista e das fronteiras que se erguem sobre corpos negros, ciganos e migrantes.
Às 15h, a tarde contou com a apresentação do livro “Nassim, a Raposa Vermelha”, de António Galamba, que ficciona a história real de um jovem marroquino que arrisca atravessar o estreito de Gibraltar em busca de uma vida que o seu lugar de origem e a sua condição social lhe negam.
Nesta sessão participaram o autor António Galamba, o ilustrador Bruno Ferraz, Pedro Santarém, da Frente Anti‑Racista, e a professora Ariana Furtado, numa roda de conversa que ligou a literatura, migrações forçadas e a violência das fronteiras europeias.
Ao escolher abrir o encontro com esta narrativa, a organização recusa a desumanização das pessoas migrantes e lembra que cada “número” das estatísticas é uma vida interrompida por decisões políticas concretas.
Às 17h, seguiu-se uma oficina artística aberta a todas as idades, dinamizada por Margarida Arroz, com a proposta de “descomplicar o processo criativo” a partir da história de Nassim, trabalhando colagem, desenho e stencil com materiais reciclados.
Esta dimensão prática e comunitária da iniciativa recusa a ideia de que o antirracismo se limita a debates académicos, afirmando‑o como prática concreta, partilhada e quotidiana.
Pouco depois das 19h, a Cooperativa Mula transformou-se em sala de cinema para a exibição de “Alcindo”, filme de Miguel Dores sobre a noite de 10 de junho de 1995, quando grupos de etno‑nacionalistas saíram às ruas do Bairro Alto para caçar pessoas negras, resultando no assassinato de Alcindo Monteiro.
Depois da projeção, uma roda de conversa juntou Marta Coelho (Projeto Ruído), Ivan Coimbra e Pablo Cavernas (Movimento Vida Justa), com moderação de Jéssica Ribeiro e Pedro Santarém da FAR, para discutir um caso que não é passado encerrado, mas sintoma de um país que continua a negar o seu racismo estrutural.
Ao voltar a trazer este filme para o Barreiro, a Frente Anti‑Racista confronta a memória coletiva com a pergunta incómoda: quantos “Alcindos” foram silenciados antes e depois de 1995?
Todas as atividades foram gratuitas e abertas à participação de quem recusa ficar em silêncio perante a violência policial, a discriminação no acesso à habitação, à escola, ao trabalho e aos transportes, e as políticas migratórias que selecionam quem merece viver com direitos.
A Frente Anti‑Racista e a Cooperativa Mula afirmam, com este encontro, que o Barreiro não aceita ser cúmplice da indiferença e que a cultura pode e deve ser uma arma contra o racismo, ligando livros, oficinas, cinema e conversa em torno de um mesmo compromisso político: nenhuma pessoa é descartável.
Se o racismo é uma estrutura, o antirracismo tem de ser uma prática organizada – e o dia 1 de fevereiro, no Barreiro, foi um desses momentos em que a cidade escolheu de que lado da história quer estar.
02.02.2026 - 16:30
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