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Barreiro -ArteViva «O resto já devem conhecer do cinema»
Uma reflexão sobre o movimento da história da humanidade
A peça «O resto já devem conhecer do cinema», de Martin Crimp, encenada por Jorge Cardoso, inscreve a 100ª produção na história de ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro, que remonta ao ano de 1980. E, pode afirmar-se que este trabalho é, sem dúvida, a cereja em cima do bolo, que assinala um processo, marcado, aqui e agora, por esta peça que é o «centenário de ouro».
As peças de Arte Viva que, ao longo dos anos, contam com a encenação de Jorge Cardoso, têm despertado em mim uma curiosidade, pela intencionalidade que coloca na escolha dos textos, os quais, regra geral são plenamente adequados aos momentos sociais que vivemos e, sem dúvida, portadores de conteúdos que proporcionam uma reflexão sobre os tempos que vivemos. As contradições epocais. Um forma de olhar para a realidade, de forma subtil, irónica e, sempre, assumindo o papel de um observador atento, que faz do teatro, um “leit motiv” para sentir e pensar a vida e o mundo.
A peça «O resto já devem conhecer do cinema», é mais um espectáculo, encenado por Jorge Cardoso, que enquadro dentro desta linha de pensamento. Um intelectual que faz da arte a vida, e da vida a arte viva.
Esta pela fascina pela beleza do texto. Fascina pela simplicidade e pureza dos figurinos. Fascina pela sonoridade musical. Fascina pela sobriedade da encenação. Fascina pelo ritmo e movimento das personagens, numa encenação moderna, em espaço aberto, com ligeiras mudanças estéticas, vai recriando cenários, com imaginação, abrindo espaços que proporcionam aos personagens respirar, sendo a textura de referência no espaço cénico, em todos os contextos, os personagens são a centralidade, e, afirmam-se, olhos nos olhos, com o público.
Fascina por ser um espectáculo com cerca de duas horas, sem intervalo, que se dilui de forma suave no tempo, serena e tranquilamente, prendendo o público do princípio ao fim, nas emoções expressas nos rostos dos personagens, na beleza do texto, na energia das interpretações. No ritmo e na intensidade das sucessivas acções. Sincopadas. Uma bela dramaturgia, com grande rigor espacial, na estética das sombras e da luz, nos silêncios, na sonoridade e musicalidade. Um jogo de luz e trevas. Um jogo de palavras e silêncios.
Nas interpretações, em todas elas sente-se que a vivências dos personagens é sentida com firmeza. Os actores e as actrizes, assumem com intensidade a força do texto, sentem as palavras, e exprimem as tensões da linguagem, dando vida e emoções às personagens, com força dramática que se sente à flor da pele.
Uma nota particular, à enorme actriz, Patrocínia Cristovão, no seu papel de Jocasta, só há uma palavra para exprimir o meu sentimento - Excelência. Uma energia intensa. Uma vivência da personagem em total perfeição. Ela assume um papel central, é um motor no espectáculo. Vibrante. Entusiasmo. Aplausos.
As raparigas ( Adriana Lopes, Carla Carreiro Mendes, Carolina Conduto, Catarina Patrão e Sara Santinho) – as esfinges – são uma presença permanente em cena, de grande subtileza, uma espécie de grilo falante, a presença constante de um discurso irónico, e, uma presença que contribui para dar unidade e continuidade aos diálogos, num movimento discursivo que se move entre a interioridade de cada personagem e as conflitualidades no mundo exterior. São um contributo enriquecedor e precioso, quer na dinâmica da encenação, quer no despertar o público, para se interrogar sobre a força das palavras e a importância das circunstâncias. Estão perfeitas, na sua homogeneidade e na sua diversidade.
Pois, na verdade, elas fazem perguntas. E, afinal, desde sempre, a pergunta está grávida de uma resposta.
Rui Félix, no papel de Creonte, vive a personagem com força e sensibilidade, ele, é um exemplo, tal como os restantes actores e actrizes, são um conjunto harmonioso, representam com plenitude os seus papeis, com autenticidade, com beleza expressiva e de grande dimensão estética.
Gostei imenso da peça, pela força das palavras, pela sua dimensão ética; pela energia dos personagens vivenciadas pelos intérpretes, numa sóbria expressão dramática, pela encenação, que enquadra o calor das personagens, num ambiente sóbrio, silencioso, que valoriza a importância dos personagens.
Um espectáculo com grande riqueza dramática, que, sublinho, vale pelo seu todo, pelas interpretações, pela criatividade sonora, pela iluminação, pelos figurinos, pela cenografia, e, tudo isto com raiz num texto que respira humanismo, e coloca um sentido ético, no centro da vida quotidiana dos seres humanos, e na reflexão sobre o movimento da história da humanidade.
Neste tempo histórico, hoje, que a humanidade vive o seu quotidiano, marcado por autocracias, por poderes que manipulam, por redes sociais que controlam e gerem emoções. Um tempo onde a alteridade entre o «eu» e «nós», sucumbe, numa divisão constante das vivências sociais, geridas numa permanente conflitualidade de bons e maus. Neste tempo que sentimos os jogos de poder, e, a luta pela conquista do poder, expressa apenas no poder pelo poder, não se olhando a meios para atingir fins. Um tempo em que, os acordos ou convenções politicas sucumbem pela acção negativa da própria política.
Um tempo de banalização da morte. A guerra é o espelho da ação política. Um tempo que mata os afectos, esquecendo a cultura humanista. Neste tempo, que a política é um mero instrumento de marketing para atingir e manter o poder, pelo poder. Num tempo, que as maiorias absolutas, democráticas, são a porta de aristocracias que se abrem o caminho a autocracias.
Neste tempo, esta peça, de forma serena, simples, alerta-nos pra os perigos da retórica, e, por dentro de conflito entre irmãos recorda que os «poderes absolutos», esses, que se assumem como donos de tudo e de todos, um dia, quer queiram ou não queiram, ficam reduzidos a um rodapé na história, escrito – a sangue e pó!
É isto, como sempre, me habituou, o Jorge Cardoso, leva a cena peças, com energia que expressa enorme actualidade, e, assim, de forma discreta, no seu posto de observador atento, olhando para o teatro do mundo, vai legando lições de história, contando histórias.
São peças, de arte viva, que são um grito, um alerta para a nossa realidade comum, essa, que, nos diz, afinal, todos os seres humanos, sejam quais forem as suas ambições, invejas, paixões, amor, ódios, poder ou fortuna, essas coisas que fazem as suas vidas – um dia, todos seremos, isso, apenas isso - sangue e pó!
António Sousa Pereira
FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
Autor Martin Crimp
Tradução Isabel Lopes
Encenação Jorge Cardoso
INTERPRETAÇÃO
RAPARIGAS – Adriana Lopes, Carla Carreiro Mendes, Carolina Conduto, Catarina Patrão e Sara Santinho
JOCASTA – Patrocínia Cristóvão
ANTÍGONA – Leonor Alberto
GUARDIÃ – Carina Raposo
POLINICES – João Parreira
ETÉOCLES – Vítor Nuno
CREONTE – Rui Félix
MENECEU – Guilherme Filipe
TIRÉSIAS – João Ferrador
FILHA DE TIRÉSIAS – Beatriz Pereira
OFICIAL FERIDO – João Neves
OFICIAL FALINHAS MANSAS – Alexandre Antunes
ÉDIPO – Rui Quintas
Assistência de Encenação Catarina Santana
Música Fast Eddie Nelson
Cenografia Jorge Cardoso
Figurinos Ângela Farinha, Graça Santa Clara e Manuela Ramos Félix
Desenho de Luz João Oliveira Jr. e Jorge Cardoso
Operação Técnica Maria Inês Santos e Sofia Proença
Design Gráfico Rui Martins
Fotografia e Vídeo Cláudio Ferreira
Produção Executiva Catarina Santana
Apoio Cenográfico Pratical Team Solutions
Agradecimentos Manuel Palma e Miguel Palma (participação em filmagens); Manuel Correia e Andreia Martins
100ª produção da ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro
06.02.2026 - 21:22
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