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Sala repleta na Biblioteca Municipal do Barreiro
Proporciona um debate vivo sobre o livro «Travessa do Cinema» de Dores Nascimento
No sábado, 11 de Abril, na Sala Multiusos da Biblioteca Municipal do Barreiro, teve lugar a apresentação do livro “Travessa do Cinema”, de Maria das Dores Nascimento.
A autora, residente em Alhos Vedros, tem não só vários livros publicados, como é a dinamizadora da Feira do Livro de Alhos Vedros, certame que anualmente movimenta um grande número de publicações e escritores, sendo já habitual o lançamento, no seu âmbito, de inúmeras obras de ficção e não só.
A “mesa” era constituída pela Autora, pelos apresentadores: Drª Ana Garrido – Linguista e escritora - e pelo Doutor António Ventura, igualmente autor e historiador; completava-a o Dr. Rafael Nascimento, filho da escritora e autor do Prefácio
A sala estava repleta de um público conhecedor das obras da autora e, muitos dele, testemunhas das situações “histórico-afetivas”, que enformam o livro em apresentação, o que permitiu um debate muito vivo, por vezes saudoso, bem co-mo afirmações de identificação de personagens, embora Dores do Nascimento tenha feito um bom trabalho de construção, acrescentando aos factos reais a delicada elaboração de memória ficcionada.
Também foi muito interessante a discussão sobre a “palavra afetiva” (memória elaborada) e a “palavra histórica” (memória comprovada), suscitada pelas abordagens dos dois apresentadores, e ressoando, entusiástica, pelos presentes
Posto este breve apontamento de circunstância, passemos a voz a Ana Garrido que teve a gentileza de nos facultar a sua intervenção escrita.
Travessa do Cinema, um livro de memórias de Dores Nascimento
A leitura deste livrinho foi, para mim, uma espécie de mergulho. Uma imersão no Portugal que foi o da infância da narradora-autora e que foi também parcialmente o de todos nós, que temos uma idade aproximada. O Portugal dos anos sessenta e inícios dos setenta. Com lugares de hortaliças, leiteiras que vinham às portas, serões a ouvir rádio, brincadeiras na rua, idas ao cinema…
Há nestas memórias um olhar generoso sobre a vida, sobre os que rodeiam a narradora, os familiares e vizinhos sobretudo, um olhar de quem escolhe referir a vida de todos, mais ou menos difícil, com uma espécie de ingenuidade infantil, um afeto sóbrio.
Gostaria de referir três aspetos que considero mais encantatórios nestas memórias: o primeiro é o discurso fluido, deslizante, que nos faz ler de um fôlego, sem tropeços. Discurso sabiamente ponderado, cortado, sequenciado. Com o tempero certo.
O segundo é a imensa capacidade de evocação (como referiu o João Simões na Feira do Livro de Alhos Vedros), de quem observou e guardou na memória, e quer e consegue agora reconstituir, com pormenores e amor, o seu passado e o dos que a rodearam.
E por fim, a relação entre a vida particular e o tempo histórico que já não existe. Narrativa que testemunha o que acabou. Hoje não há as tais escolas particulares das vizinhas (onde eu também andei), não há vendedores ambulantes com os mesmos produtos, são raros os amoladores de tesouras, não vestimos uma roupa especial ao domingo. Muitas coisas menos boas terminaram também e a narradora não deixa de assinalar isso, agora não vemos as crianças descalças nas ruas, as que têm necessidades educativas especiais adquiriram direitos e cuidados que não tinham, no Barreiro não se sente o cheiro a amoníaco da fábrica, cheiro que nos adoecia.
Assim a leitura e o que refletimos com ela não me produz propriamente saudosismo, mas uma sequência de constatações. Saudade, realmente, tenho de uma sociabilidade que está a desaparecer. A das brincadeiras na rua em que as crianças esfolavam os joelhos, a das conversas diárias nos cafés em que os adultos falavam de desporto, de música, de cinema, de política. Porque, apesar de o mundo digital nos trazer muitas maravilhas, entre elas a de podermos comunicar fácil e imediatamente com quem está longe, a vida moderna dificulta muito a comunicação com quem deveria estar mais perto. Famílias exíguas ou dispersas pelo mundo, trabalhos complexificados, que roubam descanso e tranquilidade, automação excessiva na vida prática, com muitas máquinas em vez de pessoas.
Enfim, voltando à Travessa do Cinema. Um livro a ler. Que é também um objeto de bom gosto, criado numa estética harmoniosa que vai do texto aos paratextos. Destaco o título, que foi muito bem achado, a capa e a contracapa, o grafismo com um entrelinhamento muito adequado à leveza do texto, e, em especial, o magnífico prefácio do Rafael Nascimento. Tudo se combina para produzir, como disse, um objeto de bom gosto. “
C A C
12.04.2026 - 17:30
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