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ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro
«O MÉTODO DE GRÖNHOLM» - uma comédia sobre a comédia da vida

ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro<br />
«O MÉTODO DE GRÖNHOLM» - uma comédia sobre a comédia da vida No dia 9 de Maio, no Teatro Municipal do Barreiro, vivi uma noite enriquecedora, por um lado, tive a honra de celebrar o 46.º aniversário da ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro, e, antes, assistir à estreia da peça «O MÉTODO DE GRÖNHOLM», encenada por Carina Silva, com quatro interpretações sublimes, um texto critico, irreverente e divertido. Fica a sugestão. Não percam!

A vida é um jogo. A vida é a preto e branco. A vida é um malabarismo de palavras. A vida é uma conflitualidade de interesses. A vida é uma caminhada em busca de sentido sem qualquer sentido. O cenário desta peça não é neutro. O cenário oculta, ele mesmo, a profunda interioridade da peça. Os dados estão lançados. Um jogo de damas. Um jogo de xadrez. Olha, é verdade, até pode ser o hall de entrada dos Paços do Concelho. As personagens movem-se naquele tabuleiro onde a vida flui, em tácticas e estratégias. Calculismos.
São duas horas de espectáculo que, sublinhe-se, não sentimos o tempo passar, ficamos presos na dinâmica da sucessão de diálogos, no ritmo intenso de acontecimentos, somos absorvidos pelo texto, colocamos os olhos nas expressões dos personagens. Vivemos a conflitualidade de valores. Sentimos as dúvidas. Interrogamo-nos. Envolvemos a mente naquele ambiente kafkiano, procuramos descodificar, ficamos, inconscientemente, ou conscientemente, enredados naquele labirinto de ironia, de critica mordaz. Ficamos presos aos contextos. Damos gargalhadas. A peça é hilariante. A peça é uma trama de sentimentos, onde está expresso o dito e o não dito, que desperta imensa curiosidade. Dúvidas.

O palco é, afinal, um tribunal da vida. Tudo o que é humano explode na frente do nosso olhar. A tensão entre personagens é vivida até aos limites da linguagem, num jogo freudiano, de egos, superegos, ids, que se digladiam, iludem-se em tácticas, em suspeições, em confrontos morais, que motivam, subtilmente, o espectador a colocar-se dentro do texto, assumindo-se como personagem silenciosa, que numa posição humanista, interroga os acontecimentos, e, move-se em reflexões no seio daquele constante confronto entre o individuo e o social. Uma radiografia da vida.

Talvez por isso, sentados, na bancada, observamos, e, pelo riso ou pelo afecto com as situações, vivemos a peça como uma farsa, uma paródia, ou nela identificamos a vida real. Ninguém fica indiferente.
Ali, entre o sentir e o pensar, registamos quer a dimensão ética, quer a dimensão cultural e epocal do texto, que sentimos evolui, com mais ou menos intensidade, do subjectivo ao objectivo, lentamente, ao longo do espectáculo – estamos num tabuleiro de jogadas, em busca do xeque mate. Uma dança de sentimentos. Uma coreografia deliciosa que se espelha nas caricaturas dos personagens. Uma musicalidade épica que acompanha os movimentos. Uma iluminação que modela o espaço e dá vida às relações entre os personagens. Tudo esteticamente perfeito.
Uma peça, sem dúvida, ganha com a criatividade e trabalho de equipa, quando com mestria, a encenação conjuga tudo com harmonia. Uma criatividade que emerge no jogo de luzes – claros e escuros, sombras e centelhas; uma musicalidade que cria emoção, numa sonoridade que flui em sons majestosos, épicos ou contemplativos. E, a beleza dos figurinos traduz a dimensão social dos personagens produzindo os efeitos cénicos, essenciais e com ironia, da política à religião.
Os movimentos dos personagens são dinâmicos, marcadas pela candura das suas roupas, um branco de pureza, que esconde o lado oculto das suas personalidades. Diabólicas. Tudo se conjuga, de forma natural, com simplicidade. Uma dramaturgia com beleza que faz nascer arte : pela interpretação do burlesco do texto; pelo jogo contraditório dos personagens, ali, no palco emerge, um ritmo teatral, com instantes excelentes e sublimes. Cenas que permitem sentir – que bela fotografia esta cena, ou que excelente tela, pela energia da expressão corporal. Há Estética.
Tudo isso, vivido entre intensas gargalhadas, no rodopiar daquelas máquinas humanas, nos seus desesperos, nas suas paixões e ternura.
Um texto vivo e de grande actualidade que faz sentir, que faz pensar e coloca interrogações.

Uma peça onde tudo é discutível. Não há tabus. O poder. Os jogos de poder. O domínio do outro. A sexualidade. A homofobia. A xenofobia. A misoginia. A honestidade. A falsidade. O preço das pessoas. As pessoas mercadoria. A politica. A religião. A vida.
Sobre tudo rimos e pensamos. De forma divertida e irónica, com quatro interpretações, que, de forma perfeita, agarram o texto, com plena dicção, com expressividade corporal. Dignidade.
Uma peça que nasce dentro do sentir o tempo que somos, motiva o pensar o tempo que fazemos, e, promove a necessidade de interpretarmos para onde vamos.
Uma comédia sobre a comédia da vida, que alerta para a crueldade dos tempos de hoje, onde o ter é soberano. Neste tempo que sentimos, muitas vezes, como não se olha a meios para atingir fins.
Parabéns Arte Viva. Parabéns Carina. Parabéns aos actores e actrizes. Parabéns a toda a equipa. Afinal, que bela forma de celebrar 46 anos de vida.

António Sousa Pereira
TE – 180
Equiparado a Jornalista


SINOPSE

Quatro candidatos a uma vaga de executivo de uma multinacional aguardam numa sala a fase final dos testes seletivos. Sem saber, eles já estão a ser postos à prova, mas de uma maneira nada ortodoxa.
Até onde somos capazes de ir na disputa pelo emprego dos sonhos? Essa é a pergunta que o espetáculo coloca, por meio das personagens, para o público.

O dramaturgo catalão Jordi Galcerán nasceu em Barcelona, em 1964, e é hoje um dos autores contemporâneos mais reconhecidos do teatro europeu. Formado em Filologia Catalã, iniciou a sua carreira na escrita dramática na década de 1990, destacando-se rapidamente pela construção de enredos inteligentes, ritmo ágil e um apurado sentido de humor, muitas vezes aliado à crítica social.
A sua projeção internacional consolidou-se com a peça O Método Grönholm (2003), um enorme sucesso traduzido e representado em dezenas de países.
Nesta obra, Galcerán explora de forma mordaz o mundo corporativo e os limites éticos da ambição, características recorrentes na sua escrita.
Ao longo da sua carreira, tem assinado diversas peças de grande êxito, como Dakota, Burundanga e El Crèdit, nas quais combina com mestria o suspense, a comédia e o retrato das relações humanas em situações limite.
Reconhecido pela sua capacidade de prender o público desde o primeiro momento, Jordi Galcerán afirma-se como um autor que alia entretenimento e reflexão, desafiando o espetador a questionar comportamentos, valores e as dinâmicas de poder na sociedade contemporânea.

Ficha técnica e artística

Autoria Jordi Galcerán
Tradução Joana Frazão
Encenação Carina Silva

Interpretação Alexandre Antunes, Catarina Santana, Sara Santinho e Vítor Nuno

Assistência de Encenação Rita Reis
Cenografia João Pimenta
Figurinos Ana Pimpista
Música Fast Eddie Nelson
Luminotecnia João Oliveira Jr.
Operação Técnica Maria Inês Santos
Contrarregras Raquel Nunes e Sofia Proença
Design Gráfico João Pimenta
Produção Executiva Catarina Santana

101ª produção da ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro

No Teatro Municipal do Barreiro

Em cena
22, 23, 29 e 30 Maio - 21h30
12 e 13 Junho - 21h30

Reservas: 910 093 886 e/ou geral@arteviva.pt
Bilhetes à venda em arteviva.bol.pt

20.05.2026 - 18:44

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