Conta Loios

entrevista

Barreiro - Sónia Ventura investigadora de imunoterapia para o cancro
«A dúvida é o mais interessante em ciências»

Barreiro - Sónia Ventura investigadora de imunoterapia para o cancro<br />
«A dúvida é o mais interessante em ciências» <br />
. Estudar quimica é compreender como as coisas funcionam

. A ciência que se pratica em Portugal é de boa qualidade

Sónia Ventura, natural do Barreiro, está a exercer a sua actividade profissional, numa empresa de biotecnologia – Achilles Therapeutics - vocacionada para o desenvolvimento de uma imunoterapia para o cancro.

Sónia Ventura, é natural do Barreiro, viveu a infância e adolescência na zona «camarra» da Rua Almirante Reis. Nasceu em 1974, ano da Liberdade, frequentou o Colégio Montessori, a Escola Mendonça Furtado e a Escola Alfredo da Silva.
Actualmente é investigadora em Londres, na área de Imunoterapia do Cancro.

Uma paixão à primeira vista

Após concluir o secundário, optou por seguir «Quimica Aplicada», concluindo a Licenciatura, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
Posteriormente fez o doutoramento em Biologia, na UNL, na área de Imunologia.
Recorda que foi para a área de Quimica “por acidente”, porque o desejo era optar por Desenho – “Eu gostava de tudo, tudo me interessava na escola. Foi a professora Joana que me motivou para ir para Quimica. Cativou-me mesmo. Ela disse-me : Tens que experimentar Quimica, porque tu és boa nisto. Foi assim, e, depois foi uma paixão à primeira vista”.

Estudar quimica é compreender como as coisas funcionam

“Quando comecei a estudar quimica, gostei mesmo daquilo, já não fui capaz de largar.
Estudar quimica é compreender como as coisas funcionam. Perceber o que acontece com as moléculas quando elas interagem umas com as outras. Achava aquilo apaixonante e, fiquei completamente apaixonada.
Fui para Quimica Aplicada, nas duas vertentes que podia escolher, entre Quimica Orgânica e Biotecnologia, aí apareceu a Genética e a Biologia Celular. De novo apaixonei-me. Eu adorava.”, refere numa breve viagem às suas memórias de estudante.

Avaliar as causas da infertilidade masculina humana

Foi a sua entrada no mundo do adn, das células, no Instituto Ricardo Jorge – “comecei a fazer investigação, primeiro na área da genética, depois na imunologia”.
Integrou um grupo de investigação, durante três anos, dedicado a avaliar as ‘causas da infertilidade masculina humana’.
“Foi uma investigação ao nível da genética para perceber o que levava à má formação dos espermatozóides, quais as causas dessa má formação, que dão origem a que os homens se tornem inférteis. O estudo era compreender isso”, sublinha.

Fiz três bebés.

Após o período de investigação, houve um tempo que esteve ao serviço de uma clinica, que tinha a especialidade de “’reprodução medicamente assistida’, tendo por objectivo apoiar casais com problemas de infertilidade.
“Fiz três bebés. Há três casais felizes. Foi um período interessante, mas, infelizmente a Clinica faliu”, refere.
Sónia Ventura, volta de novo à área de investigação, desenvolveu trabalho em diversas áreas, dedicou-se a estudos sobre doenças raras, que são o resultado alterações nos cromossomas.

Estudo da peste suína africana

No Instituto Gulbenkian – Ciências, conheceu uma pessoa que viria a ser ‘orientador’ de doutoramento – Michael Parkhouse.
“Fui trabalhar com ele, na altura, numa área relativamente obscura, mas que agora é muito importante, o estudo da peste suína africana”. salienta.
O objectivo refere é descobrir uma vacina, ou tratamento, para combater esta doença. A investigação conta com o apoio da União Europeia, num trabalho de parceira que envolve 14 países da Europa, de África, também a China e Rússia.
“A vacina ainda não se descobriu, mas para lá se caminha”, salienta.

Estudo da asma no pós doutoramento.

Partiu para Londres, com a finalidade de fazer o pós-doutoramento na área de imunologia, ali, durante cinco anos, aprofundou os níveis de investigação, desenvolvendo estudos na área da parte inflamatória.
Em Inglaterra trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Médica, que foi recentemente inserido no mega projecto que é o Instituto Francis Crick, um instituto bio-médico.
Aqui aprofundou conhecimentos, investigando na parte da asma – como ocorre e como a podemos travar, tendo sido esta a sua área de estudo no pós doutoramento.

Desenvolvimento de uma imunoterapia para o cancro

Sónia Ventura, nos dias de hoje, está a exercer a sua actividade profissional, numa empresa de biotecnologia – Achilles Therapeutics - vocacionada para o desenvolvimento de uma imunoterapia para o cancro.
Refere que há “uma grande aposta na área da imunoterapia”, porque as técnicas que existem actulamente, são mais viradas para a destruição das células do tumor, uma destruição feita por agentes externos, produzindo efeitos secundários, com os quais as pessoas sofrem – “são imensos e alguns deles muito maus, esta é a terapia convencional”.
Recorda que o nosso sistema imunitário, tem toda a ‘maquinaria’ para destruir a células dos tumores. O sistema faz isso diariamente.
O objectivo da investigação que Sónia Ventura está a desenvolver visa dar ao sistema imunitário capacidade de atacar o tumor com eficiência – “isso é só um passo”.

Momento ‘eureka’ é quando não se descobre

Na nossa conversa, sublinha que o momento ‘eureka’ para um cientista não é a descoberta, mas sim quando não se descobre – “esse é o verdadeiro momento que se aprende alguma coisa, quando a gente pensa, o que é que se passa aqui, que aconteceu para isto não funcionar”.
«A dúvida é o mais interessante em ciências, quando as coisas não funcionam como a gente pensava que deviam funcionar e nós percebemos que não sabemos tanto sobre aquele assunto como pensamos. Isso dá mais estimulo a investigar e dá as maiores descobertas.” sublinha.

Somos solitários na responsabilidade

“O trabalho do cientista, ao contrário do que as pessoas pensam não é nada solitário. A ciência é feita de colaboração. Não fazemos nada sozinhos”, refere.
Sublinha que, quando um cientista se especializa numa área especifica, sente a responsabilidade de ser alguém de quem os outros esperam respostas – “porque a partir desse momento as pessoas confiam que sabemos o que estamos a dizer, é uma grande responsabilidade”.
“Somos solitários na responsabilidade”, salienta.

Juntamos para conversar

Sublinha que os portugueses, ao nível ciência, por esse mundo fora, e no caso, em Inglaterra, são vistos como pessoas – “trabalhadoras e com ética de trabalho muito boa, honestos e muito justos, com quem é fácil trabalhar e são óptimos colegas”.
No seu local de trabalho, onde estão envolvidas cerca de 4 mil pessoas, os portugueses ao nível de cientistas são cerca de 20, têm uma comunidade – “juntamos para conversar, para falar em português, não era nada nostálgico, os nossos encontros eram convivio, é um sentimento de comunidade”.

Ciência que se pratica em Portugal é de boa qualidade

“A ciência que se pratica em Portugal é de boa qualidade, fazemos ciência muito boa. Nós temos pouca visibilidade devido à dimensão da ciência portuguesa lá fora, mas a nível de qualidade somos muito bons
O problema da ciência em Portugal não tem nada a ver com meios técnicos ou qualidade, tem a ver com oportunidades de carreira que não existem. Foi por isso que fui para o estrangeiro, não foi por achar que aqui não tinha condições de fazer a ciência que gostaria de fazer, não me davam uma carreira que eu pudesse construir algo, porque, na vida, nós não temos só que trabalhar para aquecer”, sublinha.

Fazer algo que seja útil aos outros

“O meu objectivo é o mesmo desde que optei por ciência, é fazer algo que seja útil aos outros. Isto é o que eu mais gostava de contribuir para servir os outros”, refere.
Foi uma conversa com uma barreirense, filha de Fernanda Ventura, presidente da Associação de Mulheres com Patologia Mamária. Uma cientista que partiu rumo a Inglaterra, tem o Barreiro no coração e decidiu viver para ciência com o objectivo de fazer um mundo melhor.

S.P.

15.08.2019 - 21:02

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2019 Todos os direitos reservados.