Conta Loios

entrevista

Barreiro - Projecto Técnico-Políticas de Regeneração Urbana
O capital humano desta cidade tem que ser o motor do seu desenvolvimento

Barreiro - Projecto Técnico-Políticas de Regeneração Urbana<br />
O capital humano desta cidade tem que ser o motor do seu desenvolvimento . As pessoas dão bastante a importância aos espaços verdes

. Barreiro está desconectado com outros municipios

O objectivo final do Projecto Técnico-Políticas de Regeneração Urbana é saber como conseguimos co-construir a cidade com todos os actores locais, isso envolve o municipio, a sociedade civil, especialistas e todos os cidadãos. Todos os actores têm um papel importante.

No Parque da Cidade, marcámos encontro com Carolina Cardos e Moisés Rosa, dois investigadores do ISCTE, que estão a desenvolver estudos no âmbito do projecto «Tur – Technopolitics in Urban Regeneration», que visa estudar o impacto e o uso das tecnologias em processos de regeneração urbana, como elas podem promover e melhorar a qualidade de vida.
O objectivo central é investigar a regeneração urbana, de baixo para cima, avaliar como através de metodologias mais colaborativas, quer com ferramentas analógicas, quer digitais, podem ser promovidos processos de regeneração urbana, que partam da cooperação dos actores locais, associações, ou, mesmo da população de forma global.

Entender o estado em que está o espaço público

Este projecto nasceu em 2019, e, começou por ser dinamizado com a Câmara Municipal de Cascais, tendo como foco o espaço público, entender o estado em que está o espaço público, e, partindo da avaliação da opinião das pessoas, perspectivar as prioridades de acção de modos de uso, dinamizando as propostas das pessoas em conjunto com as pessoas. Este modelo de investigação, testado com a colaboração da Câmara Municipal de Cascais, foi, objecto de um estudo no Barreiro, que contou com a colaboração da Baía do Tejo.

A importância do conviver com outras pessoas ao ar livre

“Este ano, com a pandemia as pessoas ganharam outra consciência sobre a importância do espaço público, sentirem que o espaço público é um prolongamento das suas casas. A pandemia trouxe esta consciência da importância do espaço comum, a importância do conviver com outras pessoas ao ar livre, a importância dos espaços para as crianças. A pandemia acentuou problemas, mas levou-nos à varanda e a sentir que há outras varandas.”, sublinha Carolina Cardoso.

Construir a cidade comum

De referir que os «Laboratórios Experimentais» realizados no concelho do Barreiro, no âmbito do projecto Tur – Technopolitics in Urban Regeneration, tiveram como tema central o conceito «espaços habitáveis» - “saímos da lógica do espaço público para entender o que é que pode ser um espaço habitável, mais sustentável, na lógica de como é que nós conseguimos construir a cidade comum, mais resiliente, mais adaptável a todos, mais inclusiva, mais envolvente, refere Catarina Cardoso.
O estudo realizado no concelho do Barreiro foi dinamizado tendo por base quatro eixos: a cidade comum (a cidade como espaço comum, cidadania activa e conectada, a participação e o uso de novas tecnologias); cidade verde e azul (a relação com o rio e com os espaços verdes), e, a cidade acessível ( que tem a ver com a mobilidade para todos); a cidade lúdica (as oportunidades para o desporto, para a cultura e para o brincar).
A realização do projecto teve seu inicio com um conjunto de contactos com associações, visando elaborar um diagnóstico sobre as visões existentes em torno dos eixos de investigação, quer nos territórios onde as associações estão inseridas, quer na visão global que existe sobre a própria cidade.

Que cidade temos? Que cidade queremos?

No âmbito do estudo foram feitas três perguntas centrais : Que cidade é que nós temos? Que cidade é que nós queremos? Como é que nós podemos activar a nossa cidade para alcançar aquilo que a gente quer?
O desafio foi que as pessoas conectassem essas perguntas e enquadra-las nos eixos da investigação, quer ao nível da mobilidade, no viver o espaço comum, procurando encontrar respostas em relação a diversas zonas do território.
Os investigadores e as suas equipas contactaram associações como a ADAO, Fabril, «Os Franceses», Sempre Fixe, Bairro 25 de Abril, e conversaram com diversos cidadãos, nos ateliers montados no espaço público – em Alburrica, junto à estátua Alfredo da Silva e na Rua Manuel Pacheco Nobre.

Barreiro está desconectado com outros municipios

Foi, igualmente, elaborado um inquérito por via on line, direccionado para pessoas com acesso ao digital.
Moisés Rosa, sublinha que na análise dos inquéritos, a primeira prioridade das pessoas está relacionada com a mobilidade e a mobilidade suave – “foi uma das matérias mais abordada, as pessoas sentem muito que o Barreiro está desconectado com outros municipios, que estamos isolados, há criticas pela não existência de ligação com o Seixal, mesmo que fosse a pedonal, ou a ligação da Barra-a- barra ao Parque Zeca Afonso, na Baixa da Banheira, é, também referida a importância da ligação inter-regional, e criticada a inexistência de um ciclovias e de vias partilhadas.”

Barreiro tem quotas que permitem a existência de um sistema de ciclovias

Moisés Rosa refere que – “o concelho do Barreiro tem quotas que permitem a existência de um sistema de ciclovias, tem uma quota em toda a linha de costa, do Barreiro até Coina, que permitiria percorrer o concelho, de bicicleta em cerca de 20 minutos. Tem outra quota que permitiria ligar o Hospital ao centro da cidade, e, uma terceira linha que liga os Fidalguinhos à Vila Chã, Quinta da Lomba e Cidade Sol. Somos uma cidade plana, somos um concelho privilegiado neste sentido”.
Os investigadores sublinham que uma rede ciclável permitira uma melhor ligação do território com o rio, e dos barreirenses à Mata da Machada – “muita gente falou de um corredor verde que ligue o centro da cidade à Mata da Machada e com a zona ribeirinha”.

Ligar a cidade ao rio

Outra vertente muito focada no inquérito é a ligação da cidade ao rio, sendo salientada a necessidade de superar muitas barreiras fisicas que existem, aproximar a cidade do rio, já existem zonas mais melhoradas, mas continua a não existir o acesso franco ao rio, há uma barreira fisica artificializada, até criada pela fábrica.
“O rio podia ter mais utilização, ser utilizado para passeios culturais, promover o património com um olhar a partir do rio. Podíamos reactivar a memória dos barcos, com o Pestarola, ou a Muleta, que podiam ser um marco e um símbolo do Barreiro no Tejo, quer para as pessoas de fora, quer para as pessoas de dentro”, sublinhou Carolina Cardoso.

As pessoas dão bastante a importância aos espaços verdes

Acrescentou que as pessoas dão bastante a importância aos espaços verdes e ao tratamento dos espaços verdes, nomeadamente os espaços verdes de proximidade.
“Sente-se essa consciência foi trazida para o pensar a cidade, muito pela pandemia, porque muitas pessoas começaram a sair em busca dos espaços verdes”, refere Carolina Cardoso.

Novos usos do património que está desactivado

A ocupação do património e a fruição do património, das antigas zonas quer a industrial, quer a ferroviária, foi outra linha de preocupação expressa no inquérito, quer sendo sugeridos novos usos do património que está desactivado, quer para cultura, quer para desporto ou lazer, porque o património se não é usado degrada-se.

Capital humano tem que ser envolvido

“Há um grande capital humano nesta cidade, que tem que ser, ele próprio, motor do desenvolvimento. Isso foi, talvez, a grande dinâmica e a grande mais valia que tirámos deste trabalho. Esse capital humano tem que ser envolvido. Tem que ser ouvido”, salientou Moisés Rosa.

Co-construir a cidade com todos os actores locais

Carolina Cardoso salientou que o envolvimento do capital humano deve ser pensado em três níveis: co-criação, co- produção e co-governança.
“Eles estão interligados. Se não houver estas três fases não se consegue co-construir a cidade. A co-construção da cidade tem quer ser co-criada, co-produzida e co-governada. Existem metodologias e ferramentas e é isso que, no fundo, esta investigação tende a pesquisar e a desenvolver. O objectivo final é saber como conseguimos co-construir a cidade com todos os actores locais, isso envolve o municipio, a sociedade civil, especialistas e todos os cidadãos. Todos os actores têm um papel importante”, disse.
“A cidade é como um laboratório de inovação da cidadã, este é o meu tema de investigação,” referiu Carolina Cardoso.

A cidade é uma rede de interdependências

“O meu estudo é o pensamento arquitectónico associado ao um processo de transição, de mudanças, ligado a toda esta lógica que estamos a viver, que vai desde as alterações climáticas, até aos processos de dar vida às cidades, construir cidades mais resilientes”, referiu Moisés Rosa.
“A cidade é uma rede de interdependências, porque todos nós precisamos uns dos outros. Temos que potenciar essa rede, promover interacção, no Barreiro, essa rede, já existe presente no associativismo”, referiu Moisés Rosa.

Colaborar vai muito mais longe que participar

“As redes sociais foram importantes no nosso trabalho, para divulgar o nosso projecto. Sentimos a vontade das pessoas em participar. As redes sociais podem ser uma boa ferramenta para promover a colaboração. Gosto mais da palavra colaboração do que da palavra participação. Colaborar vai muito mais longe que participar. Participar é ir lá, dar opinião, enquanto o colaborar, requer o envolvimento a mais longo prazo. Requer uma interdependência muito maior do que meramente participar”, sublinhou a encerra a nossa conversa Carolina Cardoso.

S.P.

04.12.2020 - 13:37

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.