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Almada - Carlos Cardoso, Presidente do Clube de Praças da Armada
As praças da Armada sentiam a necessidade de ter um espaço onde pudessem trocar ideias livremente

Almada - Carlos Cardoso, Presidente do Clube de Praças da Armada<br />
As praças da Armada sentiam a necessidade de ter um espaço onde pudessem trocar ideias livremente "No pós-25 de Abril, naquele ambiente que se vivia, as chefias tiveram alguma relutância em autorizar as Praças a terem o seu próprio clube. Mas com muita persistência e muita luta por parte dos que estavam nas comissões organizadoras, lá conseguimos a autorização, e fizemos a escritura no 1º Cartório Notarial de Almada em 16 de agosto de 1983", recorda Carlos Cardoso, Presidente do Clube de Praças da Armada, numa entrevista ao jornal «Rostos».

Fundado em 1983, o Clube de Praças da Armada (CPA) representa um importante marco na história da democratização das Forças Armadas no pós-25 de Abril. O Rostos esteve à conversa com o seu presidente, Carlos Cardoso, para tentar perceber a situação atual do clube. A terminar o seu último mandato no cargo que ocupa desde 2016, o presidente do CPA fala-nos dos grandes desafios que a coletividade atravessa hoje em dia, e que passam por assegurar a sua existência no futuro. Para tal é necessário proceder a uma remodelação, não só do espaço físico mas também da própria massa associativa. Além de tentar atrair os mais jovens, o Clube de Praças não esquece o seu passado e quer também preservá-lo, estando neste momento a trabalhar num livro sobre as suas origens e o seu percurso.

O Clube de Praças da Armada existe desde 1983. O que esteve na origem da sua criação?
Após o 25 de Abril, as praças da Armada sentiam a necessidade de ter um espaço onde pudessem trocar ideias livremente. Houve várias reuniões nesse sentido, e foram essas reuniões que levaram à constituição do clube, e à criação de um espaço próprio onde as praças pudessem conversar, conviver e debater assuntos culturais, recreativos, desportivos e mesmo profissionais. Sendo que estamos a falar de um período de cerca de nove anos a seguir à Revolução.

Pegando nesse último ponto, o 25 de Abril acontece em 1974, mas o CPA só surge em 1983, quase uma década depois. Porque é que a criação do clube levou tanto tempo a se tornar uma realidade?
Porque era preciso uma autorização do Chefe de Estado Maior da Armada, ele tinha que dar o seu aval e concordar com a criação do CPA. Essa autorização só a viemos a ter em 1983.

Essa relutância tinha alguma motivação política?
Sim, no pós-25 de Abril, naquele ambiente que se vivia, as chefias tiveram alguma relutância em autorizar as Praças a terem o seu próprio clube. Mas com muita persistência e muita luta por parte dos que estavam nas comissões organizadoras, lá conseguimos a autorização, e fizemos a escritura no 1º Cartório Notarial de Almada em 16 de agosto de 1983

Falando agora um pouco da atualidade, que atividades desenvolve o clube hoje em dia?
Logo após a criação do CPA criaram-se as modalidades de atletismo, futebol e natação, que eram as modalidades que se praticavam na Marinha e que foram transferidas para o clube. Era uma maneira de unir as famílias e até própria classe. Depois, ao longo do tempo, foram-se acrescentando outras secções, como a pesca, o tiro, BTT, triatlo, mais recentemente a secção de trail, e são estas as modalidades que hoje se mantêm em funcionamento no clube, e que são praticadas pelos associados e seus familiares, federados e não federados.

Portanto é essencialmente um clube desportivo?
Tem também uma vertente cultural. Fazemos almoços comemorativos, por exemplo do 25 de Abril, temos atividades relacionadas com o Dia da Criança e o Dia da Mulher. Comemoramos o Dia Nacional das Praças das Forças Armadas, em conjunto com a Associação de Praças. Depois temos outras atividades recreativas que vão surgindo ao longo do ano, nas quais os sócios podem conviver e confraternizar entre si. Atualmente já vêm incluindo elementos de fora das Praças de Armada, membros que foram sendo promovidos a oficiais, sargentos, mas que se mantiveram sócios. Acaba por haver um entrosamento que torna o clube numa entidade universal dentro da Marinha.

Todos nós, a todos os níveis, temos passado dificuldades por causa da pandemia. Que limitações teve o clube, ao longo deste último ano, devido à Covid-19?
Afetou muito a atividade desportiva, deixou de haver essa prática. Os associados que normalmente frequentavam o clube foram lesados também, uma vez que deixaram de poder vir aqui, a este que é um ponto de encontro e de convívio importante. Na parte financeira, ironicamente, acabou por ser positivo. Não havendo atividades desportivas, o clube não teve despesas, pelo que a situação financeira estabilizou. Quem saiu mais prejudicado foram mesmo os atletas, que deixaram de poder fazer a sua prática desportiva, e os restantes associados que não puder fazer os seus convívios recreativos.

Dados os propósitos que levaram à criação inicial do CPA, e ao facto de que hoje em dia vivemos um contexto muito diferente, acha que o clube continua a ser importante no panorama da Marinha?
Continua a ser importante, sim. Penso até que a própria Marinha o reconhece, uma vez que ao longo do tempo temos tido mais apoios, não só financeiros mas até mesmo logísticos. Agora estamos à espera, já há alguns anos, de um momento oportuno para proceder à remodelação da sede, para criar uma dinâmica mais moderna que atraia os jovens marinheiros, para que estes se interessem em aderir ao clube.

Considera que essa problemática, de atrair os mais jovens, é o maior desafio para o futuro do clube?
É um dos maiores desafios, sim. Outro desafio passa por recuperar uma parte dos sócios que têm passado à reserva e têm vindo a deixar de pagar as quotas. É um desafio grande, tentar recuperar estes sócios e mantê-los associados para manter a estabilidade financeira do clube. Queremos também tentar manter as atividades desportivas sem que isso signifique grandes custos adicionais – quer isto dizer que os atletas associados terão também de contribuir com alguma coisa para evitar o aumento da despesa. E depois estamos a tentar criar outras atividades que possam atrair os novos marinheiros, sem que isso comprometa a nossa tradição cultural. E finalmente a questão da remodelação também é importante. Houve uma grande remodelação aqui na Romeira, ao nível de estradas e acessos, por isso está na hora do CPA proceder também a uma remodelação do seu espaço.

André Antunes

15.05.2021 - 14:00

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