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entrevista

Ana Lourenço Pinto, Licenciada em História de Arte
Contributo dos cidadãos na classificação do património da CUF do Barreiro é exemplo de democracia e cidadania activa

Ana Lourenço Pinto, Licenciada em História de Arte<br />
Contributo dos cidadãos na classificação do património da CUF do Barreiro é exemplo de democracia e cidadania activa<br />
Ana Lourenço Pinto, nos tempos de aluna na Escola Mendonça Furtado, na realização de trabalhos na disciplina de área-escola, sentiu o despertar para a importância do património da antiga CUF, foi essa experiência que a motivou para se apaixonar pelo estudo do património industrial e pela cultura da sua terra natal.

Hoje, licenciada em História de Arte, lançou um livro que deseja possa contribuir para que se continue a estudar, dinamizar e proteger este património industrial de interesse público.

Ana Lourenço Pinto, natural do Barreiro, Licenciada em História de Arte, lançou o seu livro «Arte, Arquitetura e Urbanismo na Obra da CUF no Barreiro ( 1907 – 1975)».
Uma obra publicada no âmbito das comemorações dos 150 anos do nascimento se Alfredo da Silva, que estão sendo celebrados este ano 2021, por iniciativa da Fundação Amélia de Melo.
O livro nasceu a partir de uma proposta que lançou à Baía do Tejo, no ano 2015, que se fizesse, pela primeira vez, o estudo integrado do património arquitectónico e artistico ligado à actividade da CUF no Barreiro, abrangendo o período da fundação à nacionalização.

Valor do conjunto do património industrial

Ana Lourenço Pinto, sublinha que nesta sua obra a tese central visa destacar o “valor do conjunto deste património, que integra património industrial, propriamente dito, edificios ligados à produção à indústria quimica, e, depois às restantes ramificações que a CUF teve aqui no Barreiro, mas, também, equipamentos sociais, património não industrial, mas integrados neste contexto produtivo, nomeadamente os Bairros Operários, e todos os equipamentos, como o Posto Médico, o Cinema Ginásio, entre outros” .
Neste património salienta a importância da ligação do património industrial ao património urbano, que era – “uma vila dentro da vila operária”.

Classificação do Património é o primeiro passo

Sobre a recente decisão da Direcção Geral do Património Cultural de classificar o Património da ex- CUF como «Conjunto de Interesse Público», Ana Lourenço Pinto, sublinha que tal – “é fundamental para que se preserve este conjunto mas, também, para que seja feita uma sensibilização junto da comunidade, junto dos especialistas nacionais e internacionais, e, também um convite para que turistas venham visitar este nicho de turismo industrial, que é o Barreiro, que podemos considerar um caso de estudo ao nível nacional, podendo esta classificação ter um grande impacto, desde que seja utilizada como ponto de partida para uma estratégia delineada que envolva todos os interessados, os cidadãos do Barreiro, a Câmara Municipal, a Baía do Tejo, os portugueses, que todos em parceria contribuam para a valorização deste património em termos museológicos, a criação de percursos turisticos, a dinamização dos dois espaços de Museus, já existentes, assim como a publicação de obras cientificas que validem o conhecimento relacionado com o Património da CUF no Barreiro.
Portanto, há aqui um longo caminho que falta percorrer, no qual a classificação é apenas o primeiro passo”.

Um caso de estudo muito interessante ao nível nacional

A investigadora, sobre o processo de classificação, sublinha que “existe uma história por contar, que, felizmente o jornal «Rostos» proporciona que seja contada pela primeira vez, é que todo este processo foi despoletado por um grupo de cidadãos ligados ao Barreiro.
Foi uma iniciativa não institucional, mas, de alguma forma espontânea, quando um grupo de pessoas perante a iminência do antigo Posto Médico ser demolido em 2017, mobilizaram-se e em contra-relógio, elaboraram uma proposta bem fundamentada, que não é perfeita, obviamente, pois podiam ter sido incluídos outros elementos patrimoniais, mas que, então, serviu de esteiro para todo este processo, e que, nos dias de hoje, hajam iniciativas como a criação da marca « A Fábrica», agora lançada pela Câmara, Baía do Tejo e Fundação Amélia de Melo. É interessante que exista toda essa marca territorial, e, essas parcerias, porque, quanto a mim, o Barreiro só poderá ser dinamizado se existir entrosamento entre as funções da comunidade e das instituições.
Este contributo dos cidadãos, que me recorde na vida democrática do Barreiro, mesmo noutras causas, este processo despoletado por um grupo de cidadãos é um exemplo de democracia, de cidadania activa. Considero que é um caso de estudo, muito interessante ao nível nacional, a acção de um grupo de cidadãos, de quadrantes partidários diversos, que nunca esconderam isso, cada um tem as suas ideologias, e defende as suas causas, mas que se mobilizaram de forma apartidária em torno da defesa do Posto Médico e da classificação deste património, que se concretizou graças a essa mobilização.

Estamos a começar pelo telhado

Temos hoje um conjunto público, classificado pela DGPC, em Outubro de 2020, mas temos um longo caminho ainda a percorrer, quanto a mim, estamos a começar pelo telhado, porque antes de se lançarem as marcas e a imagem, devíamos pensar numa estratégia e em objectivos concretos, nomeadamente, como conhecer melhor este património, porque só podemos defender e salvaguardar aquilo que conhecemos, só podemos proteger se soubermos exactamente o que existe no Barreiro.”

Maior parte das pessoas que quer conhecer o território e o património industrial são barreirenses

Pela experiência que tive na dinamização de um projecto turistico – Turismo e Património outra história – este conjunto de património classificado tem condições de se transformar num nicho de turismo. Na altura tive uma surpresa muito grande ao perceber que a maior parte das pessoas que queria conhecer o território e o património industrial do Barreiro, neste caso ligado à ferrovia e à CUF, eram precisamente habitantes do Barreiro, aqui nascidas ou criadas, ou mesmo estrangeiros que recentemente vieram viver para cá, pessoas que querem conhecer a identidade, pessoas até do âmbito cultural, artistico e criativo, que precisam desse potencial para conhecer e para criar, para gerar mais valias e riquezas no próprio território.
Este meu livro, espero que possa servir, que tenha impacto, desde o cidadão anónimo, a técnicos ligados ao património cultural, ao politico decisor, que permita que hajam opções informadas sobre este património, tanto no âmbito da gestão cultural e turistica, como na gestão do próprio território pelas entidades.

Eu tinha 10 ou 11 anos, quando despertei para o património no Barreiro

Gostava que este meu trabalho pudesse sensibilizar a comunidade, até porque ele parte de uma experiência pessoal, que está ligado a um tema que nós desenvolvíamos na escola.
Fui aluna da Escola Mendonça Furtado, quando estava sediada no centro do Barreiro, e havia um tema que era a área escola, nesse tema desenvolvíamos trabalhos em todas as disciplinas em torno dele, num dos anos o tema foi «A CUF no Barreiro», eu tinha 10 ou 11 anos, isso despertou-me
de uma forma tão viva para a existência deste património no Barreiro, para a figura de Alfredo da Silva, diria, que foi essa a semente, a partir do conhecimento, de começar a perceber o que existia no Barreiro, como foi o maior complexo industrial da Península Ibérica, isso causou-me impacto nessa idade, por isso, espero que este meu livro de forma directa ou indirecta cause impacto em alguém, que depois, também sinta vontade de estudar e dinamizar, de ajudar a proteger este concurso de interesse público.

António Sousa Pereira


02.06.2021 - 15:03

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