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Barreiro - A «Rua Gagarin» pelo Arte Viva podia ser a «Rua Stinville»
É a lei da sobrevivência...não podemos chegar atrasados!

Barreiro - A «Rua Gagarin» pelo Arte Viva podia ser a «Rua Stinville»<br>
É a lei da sobrevivência...não podemos chegar atrasados!<br>
. Tome nota. Esta é uma peça para pensar a rir, e rir a pensar. Vale a pena ver e não perder.

É, assim, estamos no final da segunda década do século XXI, no Barreiro, cidade que sofreu um dos mais ferozes processos de desindustrialização. Uma cidade outrora de operários. Fábricas que fecharam. Por aqui, até andou a passear Gagarine. Uma terra de filhos de operários, hoje, operários de gravata.

O teatro é uma forma entusiasmante de fazer acção civica, de fazer intervenção social. O teatro é uma energia criadora que contribui para pensarmos o tempo que vivemos. Uma peça de teatro pode divertir-nos e ser uma motivação para, ali, enquanto as cenas decorrem, mergulharmos por dentro dos dias e das memórias. É isso, fazer teatro é fazer encontro com a vida.
Quando estava a ver a nova peça do Arte Viva – Rua Gagarine – por momentos surgiu-me ao pensamento aquela recente troca de palavras entre a deputada do Livre, Joacine Katar Moreira, que afirmava que "não se pode falar de salário mínimo nacional sem se falar de amor".
O Primeiro-Ministro António Costa, respondeu-lhe que : "actualização do salário nada tem a ver com amor. Tem a ver com uma questão de justiça e uma medida de política económica, não é amor".
Este diálogo ocorreu-me, porque, ali, naquela peça, podemos sentir as palavras amor, justiça, economia, como motores do fazer vida.
E, no final da peça, podemos talvez tirar uma conclusão que dá razão à deputada do Livre. Justiça sem amor não é justiça. Economia sem amor não é economia.
Podemos, talvez concluir, que o grito desta peça é para a ausência de amor na vida. Mata-se por justiça. Mata-se por economias.
Quase que podemos concluir que a célebre expressão – “Amai-vos uns aos outros...”, foi substituida, nos tempos de hoje, pela frase – “pagai-vos uns aos outros”.

Quando vejo uma peça encenada por Jorge Cardoso, vou sempre, mas sempre, com a curiosidade de procurar, em primeiro lugar, a mensagem do texto da peça, a sua actualidade, a sua memória.
Ali, no «silêncio da plateia», é o lugar onde, cada um, assiste ao espectáculo, vive esse encontro com as palavras que fazem a acção, sente-se desocultar a realidade. O passado. O presente. O tempo que se vive.
Não sei porquê, regra geral, nas peças encenadas por Jorge Cardoso encontro uma intencionalidade reflexiva, que visa proporcionar uma análise critica e interpretativa – não moralista – do tempo que vivemos no mundo e no nosso burgo.
Sinto sempre, que as vivências que ele quer transportar para o palco, visam fazer emergir e desocultar, e fazer pensar sobre as realidades discursivas que fazem o quotidiano da cidade, do viver e fazer cidade.

Este, é um desafio que coloco a mim mesmo, porque, afinal Jorge Cardoso, habituou-me a viver as suas peças como «laboratórios de análise sociológica», no aqui e agora. Sugere o pensar as ideias, sem impor pensamento, sem impor ideologias.
As peças são o «caldo cultural», uma grelha de análise que pode motivar a olhar os acontecimentos. O passado. O presente. Uma matriz para pensar.

O texto é sempre a peça central dos seus trabalhos. A força do texto, essa exige dos actores, que sintam os personagens. Não podem viver as suas interpretações se não sentirem o texto. O texto dos personagens é como um cavalo selvagem, que tem que ser dominado pelo actor. Viver o texto, sentir o texto, em cada palavra, porque cada palavra é um “estado de alma”, os personagens mais que pelas marcações no espaço cénico, estabelecem relações entre si pelo discurso, pelo confronto de palavras.
Nesta peça cada personagem tem um papel no fazer história e no fazer problemáticas humanas.

Henrique Gomes, inicialmente pareceu-me exagerado o uso excessivo dos ditos “palavrões” na sua linguagem. Ao principio estranha-se e depois entranha-se. Aquela personagem não era mesma coisa sem aquela narrativa. São as palavras que dão expressão plástica e sentido ao seu papel no contexto cénico. É corrosivo, é desumano. É real. A violência levada ao limite no dizer e no ser. O personagem que mais que ser revolucionário, daqueles que fazem a memória, é, daqueles dos novos tempos um revoltado. Um operário engravatado. Tudo e nada. Consciente. Mata para viver. Uma espécie de jocker. Uma boa interpretação, com garra e implacável.
A catarse. A esquizofrenia do ser anti-sistema e de submissão ao sistema que se exprime naquela expressão – “não podemos chegar atrasados”.

Gonçalo Cardoso, um personagem que parece meramente secundário, de facto é isso mesmo, é uma personagem que está por ali como «grilo falante», que está e não está, que entra e sai de cena. Está presente quando é necessário estar presente, Sente-se. É a voz da consciência. Afasta-se.
Volta, por um acaso. É a personagem que nos diz, naquela visão de Camus, ou de Sarte, que na nossa vida nos acontecimentos que vivemos, ou estamos de corpo inteiro e participamos, ou quando optamos por ficar à margem, por vezes, um simples acaso, coloca-nos no centro da história. Um simples esquecimento pode ser a morte. Um papel bem interpretado, é, que está ali para deixar os outros personagens respirar. Ele é o acaso e a necessidade. O sentido da frustração social. O drama do licenciado que vai para um supermercado. O trauma da modernidade. A precariedade. A sobrevivência.

Ricardo Guerreiro, é uma personagem com uma carga simbólica central na peça. O protagonista que organiza, que se esconde, enigmático. O tacticista. O estratega. Ele introduz o papel da mensagem, o impacto da mensagem no mundo de hoje, o mundo onde se joga com a vida, um mundo onde tudo se destrói, sem qualquer justificação ideológica, apenas o que conta é o impacto mediático.
Ele simboliza bem o que nos dias de hoje sentimos nas redes sociais, aqueles que não matam fisicamente, mas, de facto, optam por matar psicologicamente, destroem carácter, difamam – mata-se para se ter e, até, apenas para justificar o impacto mediático. Os tais, que são o ser e o nada, apenas fazem parte de jogos do poder. O preço.
Um personagem que é bem interpretado no plano da expressão dramática, que vive plenamente a personagem. É perceptível que a exigência emocional desta personagem obrigue a dar força trágica, mas, essa realidade, pontualmente entra em conflito com a dicção, perdendo-se o texto.

Rui Quintas, é a personagem em torno da qual se constrói, como diria o outro, no centro da guerra – “o drama, o horror”, enfim, a tragi-comédia que é este viver de ilusões. Um personagem que entra em cena moribundo, com uma plasticidade impressionante.
É a personagem que coloca o tema central da peça em análise – a economia, os mercados, as redes, as multinacionais, os donos disto tudo sem rosto, que usam os servos. Ele simboliza o homem e a sua luta histórica pela sobrevivência. O cansaço. Um quebrar dos mitos dos CEO, e outros servidores. Vivem cansados de si mesmos. São mortos vivos à espera da morte matada. Rui Quintas tem uma interpretação excelente, carregada de simbolismo, nos gestos, no olhar, na sonoridade vocal. Um personagem que não está ali para se impor, está ali, porque existe, é real, ele é o centro do sistema. Um sistema que se auto consome, seja qual for a ideologia, a finalidade é a gestão económica visando o lucro. Uma vida desumanizada, Matem-me, estou farto.

É, assim, estamos no final da segunda década do século XXI, no Barreiro, cidade que sofreu um dos mais ferozes processos de desindustrialização. Uma cidade outrora de operários. Fábricas que fecharam. Por aqui, até andou a passear Gagarine. Uma terra de filhos de operários, hoje, operários de gravata.

Estamos no centro da cidade. Toca a buzina. O espectáculo vai começar. Para quem tem memórias, aquela buzina coloca-nos no pulsar da vila operária. Somos convidados a ser parte integrante do espectáculo, com este toque sonoro que nos projecta numa dimensão psicológica. Estar ali, junto ao portão, precisamente à espera daquele som para sentirmos o rio de gente, sair da fábrica e entrar nas ruas da vila-cidade.

Uma peça divertida. Uma peça irónica. Uma peça que nos diz como a vida é trágica e de tão trágica, dá para rir ou para chorar.
As cenas vão acontecendo e vou mergulhando por dentro da vida real. As ideologias. A economia. O capitalismo. O socialismo. O comunismo. O anarquismo. E no limite de todos os ismos – os sistemas.
Tome nota. Esta é uma peça para pensar a rir, e rir a pensar. Vale a pena ver e não perder.

Os pais operários da ferrugem e da ganga. Os filhos operários do perfume e de gravata.
Os pais que transformaram para tudo ficar na mesma. Os filhos que querem transformar, mas, não se libertam da canga – “não podemos chegar atrasados”. O que conta sempre é a economia. A ideologia, todas as ideologias, estão sufocadas na economia.
As cidades são a sua economia. Cidade de trabalho e emprego. Cidades sem trabalho e sem emprego.

De súbito vejo, a li, no palco a vida do Barreiro. A decadência das fábricas, leva consigo a cultura da fábrica, os pais operários transmitem os testemunhos aos filhos – esses que primeiro foram geração dos recibos verdes, depois geração da precariedade.O emprego para a vida acabou. A economia na sua plenitude – fecham as fábricas, fecha o comércio, perde-se população. Nascem mitos. Os sonhos e ilusões. Tudo isso pode ir percorrendo os nossos nervos e pensamentos, ao longo da peça.
A Rua Gagarin, podia ser a Rua Stinville, no Bairro Operário. Uma memória da indústria quimica, do Barreiro poluído, que pulsava de vida, O Barreiro conhecido como «Moscovo de Portugal». O Barreiro terra de comunistas, de resistência e luta pela Liberdade. Sim, essa terra que os filhos, sentem orgulho dos seus avós, mas que hoje querem desconstruir essas memórias. Os filhos de operários que se licenciaram e foram trabalhar para a caixa do supermercado. Isso revolta. Tudo isto está lá no palco. A vida real. A lei da sobrevivência.

Um cenário que nos remete para dentro de um espaço fechado, claustrofóbico, marcado pela ansiedade. Aquele cenário pode existir em qualquer lugar do mundo, em qualquer sistema do mundo. As caixas e caixotes. As marcas. Tudo no mundo de hoje chega empacotado, produção em cadeia – simbolizado pelo japonês, que não é japonês, porque podia ser americano, ou holandês, ou outra coisa qualquer – o capitalismo não tem pátria. A economia não tem pátria. Ela move-se no tempo e nos lugares, veste-se de todas as cores. Em todos os tempos há quem queira mudar o mundo, em todos os tempos a morte é sempre uma morte que nasce nas mudanças da economia. As cidades transformam-se pelas suas mudanças económicas. Degradam-se. As cidades e os países.

Aquelas quatro interpretações são excelentes, transmitem de forma plena a solidão de cada personagem, os seus dramas, os seus
comportamentos em nome da razão. Agir para viver, sobreviver. Tudo conduz à destruição à morte. Mata-se porque é preciso matar. O ser e o nada. O existencialismo. O suicidio. A vida em toda a peça é pura e dura, corrosiva, desumana – não se sabe o que é bom, se viver, se morrer. Ironia.

No entanto, a morte matada, essa, só tem significado se tiver impacto. A morte tem que ter mensagem. Assim como aconteceu com as torres gêmeas. Ou nas bombas napalm do Vietname. No Afeganistão. A bomba atómica. A morte tem que ter significado, para ter valor mediático.
A mensagem, a força da mensagem. Mata-se. O importante é que a morte tenha impacto. Sim, pouco importa que o morto tenha familia, filhos. Mata-se.
Mata-se e vai-se em frente – “não podemos chegar atrasados”.

António Sousa Pereira

«Rua Gagarin»
ArteViva dá início à temporada em que completa 40 anos de actividade.

SINOPSE

O resultado foi Rua Gagarin. Uma comédia. Eu não esperava que fosse uma comédia, mas se considerarmos os temas que foram surgindo enquanto escrevia – marxismo e teorias hegelianas da história, anarquismo, psicopatologia, existencialismo, doença mental, terrorismo político, niilismo, globalização e a crise da masculinidade – não poderia ser outra coisa.
Na região das minas de carvão, em Fife, na Escócia, na pequena vila de Lumphinnans, há uma rua com o nome do cosmonauta soviético Yuri Gagarin. Entretanto, as minas fecharam e o muro de Berlim caiu.
Ali perto, em Dunfermline, numa arrecadação de uma fábrica de computadores, dois trabalhadores raptam o Sr. F. Van de Hoy. Com motivações diferentes. Mas nada está tão mal que não possa piorar…

“Quis escrever algo sobre o século XX (…) Também quis escrever uma peça sobre economia, que tem sido o tema dominante (e único?) da política moderna e a fonte do verdadeiro poder no nosso tempo cada vez mais globalizado. Finalmente, eu quis escrever sobre os homens e a nossa infinita capacidade de auto-ilusão. (…) O resultado foi Rua Gagarin. Uma comédia. Eu não esperava que fosse uma comédia, mas se considerarmos os temas que foram surgindo enquanto escrevia – marxismo e teorias hegelianas da história, anarquismo, psicopatologia, existencialismo, doença mental, terrorismo político, niilismo, globalização e a crise da masculinidade – não poderia ser outra coisa.” (Gregory Burke, Junho 2001)

Autor - Gregory Burke
Tradução - João Rosas
Música - Fast Eddie Nelson
Encenação - Jorge Cardoso
Interpretação - Gonçalo Cardoso, Henrique Gomes, Ricardo Guerreiro e Rui Quintas

Cenografia - João Pimenta
Figurinos - Ana Pimpista
Luminotecnia- João Henrique Oliveira
Assistência Encenação - Catarina Santana
Operação Técnica - Maria Inês Santos
Design Gráfico - João Pimenta
Fotografia - Cláudio Ferreira
Apoio Cenográfico - António Santinho |

Apoio Geral - João Henrique Oliveira
Traduções p/ programa -Ana Sofia Samora e Genoveva Pimpista

Produção Executiva - Catarina Santana
M/16

81ª produção da ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro

No Teatro Municipal do Barreiro
Sessões às sextas e sábados, às 21h30

Reservas: 910 093 886, 910 083 541, arteviva.reservas@gmail.com

16.11.2019 - 21:17

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