artes
No Teatro Municipal do Barreiro
ArteViva estreia O RESTO JÁ DEVEM CONHECER DO CINEMA
A 100ª produção da ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro, estreia na próxima sexta-feira, dia 30 de Janeiro, pelas 21h30, no Teatro Municipal do Barreiro, levando a cena a peça O RESTO JÁ DEVEM CONHECER DO CINEMA, de Martin Crimp, escrita em 2012, a partir de FENÍCIAS, de Eurípides, do século V a.C.
SOBRE O ESPETÁCULO
1 .- O RESTO JÁ DEVEM CONHECER DO CINEMA é uma peça de Martin Crimp, escrita em 2012, a partir de FENÍCIAS, de Eurípides, do século V a.C.
Na tragédia (1) não há mal em dizer ao público ao que vem. Não há spoilers: tudo já foi anunciado. Cumprem-se destinos, maldições, oráculos.
Como Laio, que, por não ter filhos, consultou o oráculo de Delfos. Foi-lhe dito que o filho que tivesse o mataria e desposaria a própria mãe. Ainda assim, Édipo nasce...
Abandonado à nascença, Édipo viria a ser adoptado. Intrigado com o seu nascimento, também ele consultaria o oráculo. Foi-lhe repetida a predição.
Um dia, Édipo cruza-se com o pai, que desconhece, e desentendendo-se com ele, acaba por matá-lo. Assim cumpre a primeira parte do oráculo.
Dirige-se a Tebas e, perto da cidade, num rochedo, encontra uma Esfinge. O monstro fazia perguntas enigmáticas a quem passava. Quem não soubesse responder era morto. Para Édipo, a Esfinge colocou o seguinte enigma: “Qual é o animal que anda a quatro de manhã, a dois ao meio dia, e a três à tarde? – O homem, respondeu Édipo: na infância desloca-se sobre pés e mãos; quando adulto caminha e, na velhice, serve-se de uma bengala”. Vencida, a Esfinge precipitou-se do alto do rochedo e matou-se.
Acolhido em Tebas como benfeitor, Édipo foi nomeado rei e desposou Jocasta, ignorando que se tratava da própria mãe. Cumpre-se a segunda parte da predição.
Desta união incestuosa nascem quatro filhos: Etéocles, Polinices, Antígona e Ismena.
Quando descobre a verdade, Édipo cega-se. (2)
É o que já conhecemos “do cinema”...
Entretanto, os dois rapazes mantêm Édipo aprisionado e decidem partilhar entre si o governo da cidade.
Diz-nos Martin Crimp, a propósito desta peça:
«Trata-se de uma parte da história de Édipo e é o momento em que se trava a luta pela cidade de Tebas. Édipo amaldiçoou os seus dois filhos (...), Etéocles e Polinices, prevendo que se matariam um ao outro. De modo a evitar essa maldição, ambos chegam a um acordo sobre a governação de Tebas. Decidem governá la à vez, ano a ano. Etéocles, o filho mais velho, é o primeiro a fazê lo. No fim do primeiro ano, Polinices regressa e diz: “Ok, agora é a minha vez.” Etéocles responde: “Não, não, não, tudo corre tão bem, não precisamos de ti.” Então, Polinices reúne um enorme exército, cerca a cidade, começa uma terrível guerra, na qual os dois irmãos, embora tudo tenha sido decidido em combate, decidem lutar entre si, matando se um ao outro aos olhos de Jocasta, a mãe de ambos, que em seguida se suicida. Entramos depois no território mais familiar de Édipo e Antígona, quando esta quer enterrar o irmão morto, Polinices, e Creonte (que, em grego, significa simplesmente “governador”) a proíbe, ao mesmo tempo que bane Édipo.» (3)
2.- Desde os Gregos (4) que o ser humano procura encontrar o melhor contrato político, entre governantes, e entre governantes e governados, que nos permita viver em paz e, tanto quanto possível, em liberdade - e com justiça. Na forma como o poder se organiza – enquanto cidade, enquanto Estado -, e no modo como se relaciona com outros Estados, jogam-se muitos daqueles objectivos e, no limite, o nosso conceito de felicidade.
3. - Ainda conseguimos ouvir o apelo de Jocasta aos irmãos desavindos?
«Não deveria cada um de nós sopesar os seus desejos e os desejos dos outros?
Para que é que inventámos as balanças?
Foi só para que os ricos calculassem o peso da sua riqueza?
Ou foi para que cada um dos nossos cidadãos na altura da colheita pudesse ter uma parte equitativa dessa colheita?
O deus da Noite segue o deus do Dia e sem a noite - Etéocles - como é que alguma vez havíamos de dormir?
Como é que eu - por exemplo - alguma vez ia deixar de ouvir a voz do vosso pai aos gritos dentro da minha cabeça como acontece agora mesmo - agora mesmo - estão a ouvi-la?
E se o dia está preparado para deixar o seu calor nas nossas paredes de pedra
e para acolher a noite tingindo o céu de azul-anil porque não podes tu - Etéocles - acolher o teu próprio irmão?
Estarás a sugerir que és mais importante do que o sol?
(Leve riso.) Acham que ele acredita mesmo nisso, meninas?
Vamos lá - estamos curiosas - é a cidade que queres proteger ou é a tua própria autoridade? Sim sim sim claro que vais dizer-me que é a mesma coisa — mas e se lutarem agora e Polinices ganhar?
Tu sabes o que vai acontecer.
Destruição da propriedade. Tortura. Pilhagem. Assassínio. Desmembramento. Arrancar de olhos. Violação.
É isso que queres dizer com protecção?
Quanto a ti, Polinices - oh e não finjas que não ia acontecer - não percebes a que ponto foste imprudente deixando-te amarrar ao desposares uma criança qualquer numa aliança definitiva?
Porque ou ganhas e destróis em nome da justiça tudo aquilo que disseste amar aqui à nossa frente OU perdes e brindas os teus novos aliados com uma carnificina que poderia ascender a milhares de mortos.
E o que é que eles vão pensar DISSO?
Vós os dois - por favor - fazei as pazes.
Falei-vos dos gritos dentro da minha cabeça: não os acrescentem.» (5)
A verdade é que, ainda hoje, Etéocles continua a violar o contrato político. Ignorando Polinices, usa a guerra como outro modo de fazer política, viola fronteiras, exerce um poder arbitrário, invade, captura, mata e destrói... Enfim,
- diz o oficial falinhas mansas à assembleia –
nenhum deles tornou mais clara a situação política
mas cada um deles tem a boca cheia de sangue e pó. (6)
É isto que nos espera mais uma vez? É esta a nossa condição trágica? É este o nosso destino? Parece que desde crianças vamos sendo talhados para a violência, no limite para a guerra, antecipando uma morte inevitável.
4.- E, no entanto, não resisto a estas personagens que têm, como modo de vida, perguntar e desobedecer – correndo o risco de fazer más escolhas. Que persistem em desafiar a regra, para encontrarem a justa excepção.
E há as Fenícias. Felizmente, ainda existem Fenícias.
Na tragédia original, o Coro tem uma função diferente. A abordagem aqui é outra. Diz-nos Martin Crimp: (a peça original) intitula se Fenícias porque, preso na cidade, está um grupo de mulheres fenícias oriundas do que agora é a Síria, Líbano, Palestina e Israel. A sua função na peça não é exatamente clara; serve para nos dizer algo sobre a história ou a fundação de Tebas, mas não é muito dramático. Por isso, quando comecei a reescrever a peça, que o TNSJ tão admiravelmente agendou, a minha maior intervenção foi a de modificar este coro. Tornei o um coro de jovens mulheres e elas não são vítimas passivas presas na cidade; na realidade, elas são as instigadoras da ação. (...) São muito más, mas penso nelas como Esfinges; elas colocam um grande número de questões impossíveis de resolver e, ao mesmo tempo, forçam estas personagens do mito grego a representarem ou a reconstituirem esta terrível história familiar e política das suas vidas.(...) Um dos objetivos que perseguia com estas personagens era que elas têm um pé na inocência e outro no conhecimento e na culpa, e achei que isso era interessante de pôr em cena.» (7)
5.- Esta é a 100ª produção da ArteViva. Tal como aquelas desalinhadas Raparigas, ora coro de esfinges provocadoras e manipuladoras, ora jovens perplexas com o mundo que as rodeia, não nos cansamos de fazer perguntas. Afinal, se a resposta é – e não pode deixar de ser, sempre – um ser humano, qual é a pergunta?
Jorge Cardoso
FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
Autor Martin Crimp
Tradução Isabel Lopes
Encenação Jorge Cardoso
INTERPRETAÇÃO
RAPARIGAS – Adriana Lopes, Carla Carreiro Mendes, Carolina Conduto, Catarina Patrão e Sara Santinho
JOCASTA – Patrocínia Cristóvão
ANTÍGONA – Leonor Alberto
GUARDIÃ – Carina Raposo
POLINICES – João Parreira
ETÉOCLES – Vítor Nuno
CREONTE – Rui Félix
MENECEU – Guilherme Filipe
TIRÉSIAS – João Ferrador
FILHA DE TIRÉSIAS – Beatriz Pereira
OFICIAL FERIDO – João Neves
OFICIAL FALINHAS MANSAS – Alexandre Antunes
ÉDIPO – Rui Quintas
Assistência de Encenação Catarina Santana
Música Fast Eddie Nelson
Cenografia Jorge Cardoso
Figurinos Ângela Farinha, Graça Santa Clara e Manuela Ramos Félix
Desenho de Luz João Oliveira Jr. e Jorge Cardoso
Operação Técnica Maria Inês Santos e Sofia Proença
Design Gráfico Rui Martins
Fotografia e Vídeo Cláudio Ferreira
Produção Executiva Catarina Santana
Apoio Cenográfico Pratical Team Solutions
Agradecimentos Manuel Palma e Miguel Palma (participação em filmagens); Manuel Correia e Andreia Martins
100ª produção da ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro
19.01.2026 - 10:12
imprimir
PUB.
Pesquisar outras notícias no Google
A cópia, reprodução e redistribuição deste website para qualquer servidor que não seja o escolhido pelo seu propietário é expressamente proibida.
Fotografia e Textos: Jornal Rostos.
Copyright © 2002-2026 Todos os direitos reservados.
RSS
TWITTER
FACEBOOK