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Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal do Barreiro
50 anos depois querem-nos voltar a instaurar o medo

Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal do Barreiro<br />
50 anos depois querem-nos voltar a instaurar o medo<br />
"Sabemos não ter medo porque conhecemos o rosto do fascismo e o rejeitamos, porque sabemos que o vizinho é um ser humano independentemente das suas características e a jogada fascista de vilanizar etnias, religiões, sexualidades, géneros ou qualquer outra minoria não vai resultar", afirmou Paula Serralha, do Bloco de Esquerda, na sessão da Assembleia Municipal do Barreiro, evocativa dos 50 anos do 25 de abril.

Divulgamos o texto integral, que nos foi enviado, da intervenção de Paula Serralha, do Bloco de Esquerda, realizada na sessão da Assembleia Municipal do Barreiro, comemorativa dos 50 anos do 25 Abril.

Intervenção de Paula Serralha

Há dois anos, nesta sala, falava-vos de inquietação e de como a cultura nos inspirou a todos, de
como as músicas de intervenção do Zeca Afonso, do José Mário Branco e do Sérgio Godinho se
mantinham atuais e hoje arrisco-me a dizer mais precisas que nunca nos últimos 50 anos.
Assinala-se hoje exatamente 50 anos da revolução de abril que nos mostrou a força do povo
português e o seu grito uníssono por liberdade.
Não venho aqui ser derrotista e dizer que hoje vemos essa liberdade ameaçada, mas venho sim
dar nova voz ao “traz outro amigo também” e ao “canta, camarada, canta”.
No último ano temos enchido as ruas de todo o país a gritar por direitos que a constituição de
1976 nos veio garantir como uma casa para morar, uma escola para estudar, um hospital para
nos cuidar - um país onde viver. Obrigaram-nos a vir para a rua gritar por melhores salários e
pensões, mas não nos voltam a obrigar a embalar a trouxa e zarpar. Não nos voltam a querer
enfiar nas cozinhas e ser boas donas de casa, porque acreditam à força que esse é que deve ser
o papel das mulheres na sociedade; não nos voltam a mandar calar. Não nos voltam a querer
incutir obrigatoriedades de preparação para guerras porque nós queremos e exigimos paz, em
Portugal, na Palestina e no mundo. Não nos voltam a exigir encaixar num molde e só saber
dizer “sim, senhor” “não, senhor”.
50 anos se passaram e muito desse povo que saiu à rua em 74 já não está entre nós, mas
garanto-vos que as suas vidas lutadoras estão connosco, não nos que dizem que devemos e
temos de voltar 50 anos atrás, mas nos que se atrevem a dizer “fascismo nunca mais”; nos que
questionam que país é este que quer voltar a tirar tantos direitos que foram conquistados com
tanto sangue, suor e lágrimas porque não nos conformamos com a discriminação, porque
sabemos que não é a atirar o outro para a lama que nos elevamos a nós mesmos; nos que
tatuam cravos sabendo perfeitamente o significado que isso tem; nos que se sentam com os
avós, seus e dos outros e ouvem com alento as histórias de como combateram a ditadura; dos
que estão na verdadeira linha da frente: a da justiça, da igualdade, dos direitos, da liberdade.
50 anos depois querem-nos voltar a instaurar o medo, mas 50 anos depois nós sabemos não
ter medo, sabemos que as pessoas racializadas continuam a lutar contra o racismo, que as
pessoas lgbtqia+ continuam a lutar contra a homofobia, que as pessoas migrantes continuam a
lutar contra a xenofobia. Todas e todos, todos os dias, sem medo.
Sabemos não ter medo porque conhecemos o rosto do fascismo e o rejeitamos, porque
sabemos que o vizinho é um ser humano independentemente das suas características e a
jogada fascista de vilanizar etnias, religiões, sexualidades, géneros ou qualquer outra minoria
não vai resultar.
Tenho ouvido muito dizer que “a história repete-se, é cíclica e a política não é exceção” e eu
questiono então porque a aprendemos? Porque a estudamos se não aprendemos com a
história? A história que queremos que se repita é o espírito corajoso de lutar contra as formas
de opressão que este sistema capitalista tendencioso nos quer incutir.
A história que queremos que se repita não é a que questionamos “como é que foi possível
deixarem que tanta violência se propagasse?” mas a que travou essa mesma violência e nos
uniu enquanto humanidade.
É este o tipo de força e de história que temos no Bloco de Esquerda, quer no parlamento, quer
nas autarquias, mas principalmente nas ruas junto de todas as pessoas que todos os dias fazem
questão de cumprir Abril.
As portas que Abril abriu não se vão voltar a fechar!
Dizemos sim à igualdade, à equidade, às condições necessárias para uma vida digna
independentemente da gaiola onde nos querem fechar. Dizemos sim à liberdade de existir,
coexistir, sobreviver e viver em sociedade.
Hoje e sempre, 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!
Deputada municipal do Bloco de Esquerda,
Paula Serralha

29.04.2024 - 12:27

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